Programa nuclear do Brasil causa desconfiança

Natalie Nougayrède

Desde que tomou a iniciativa sobre a questão nuclear iraniana, a diplomacia brasileira vem atravessando uma fase difícil. O acordo negociado no dia 16 de maio, em Teerã, sobre uma transferência de urânio iraniano para a Turquia, continua a enfrentar críticas dos Estados Unidos.

Na quinta-feira (27), a secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton garantiu a seu colega brasileiro, Celso Amorim, que “deixar o Irã ganhar tempo, (...) torna o mundo mais perigoso e não menos”.

Um outro fator coloca o Brasil em posição delicada: seu próprio programa nuclear comporta zonas de sombra. Foi por isso que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o órgão de inspeção da ONU, montou discretamente, em maio, uma equipe especial encarregada de avaliar as atividades nucleares do gigante da América Latina. Isso não foi anunciado publicamente.

A AIEA, cujo diretor Yukiya Amano esteve no Brasil em março, ficou frustrada de ver que seus inspetores não conseguem ter acesso a todas as atividades de enriquecimento conduzidas por esse país. O segredo sobre uma parte dessas centrífugas (os aparelhos usados para enriquecimento) é justificado pelo Brasil por razões de competição comercial, o que não convence completamente seus interlocutores.

No fim dos anos 1980, o Brasil, saído da ditadura, renunciou a um programa nuclear militar cuja existência foi reconhecida em 1990. Brasil e Argentina assinaram em seguida um acordo sobre o controle de seus respectivos materiais. O Brasil, que tem grandes ambições para a produção de energia nuclear, mantém um discurso em favor da abolição da bomba atômica no mundo, tendo reiterado essa posição durante a conferência sobre o Tratado de Não-Proliferação (TNP), em maio, em Nova York.

Papel do exército

Estaria ele escondendo o desenvolvimento de um programa nuclear militar? Os diplomatas estrangeiros se dividem. Paralelamente à conferência do TNP, as motivações do Brasil em sua abordagem da questão iraniana foram amplamente debatidas. Ao defender o direito do Irã de enriquecer urânio, apesar da obscuridade de seu programa, Brasília poderia, segundo alguns, estar se reservando a possibilidade de um dia chegar ao “limiar” nuclear, ou seja, dominar todas as tecnologias ligadas à bomba atômica, mas sem chegar ao ponto de fabricá-la.

O importante papel exercido pelo exército – em especial pela Marinha – no programa nuclear brasileiro reforça essas questões. Outras fontes consideram que o Brasil não é um país “de risco” pois ele forneceu garantias o suficiente e nunca mencionou a bomba como um elemento decisivo de poder para si. Mas, ao se apoderar da questão iraniana, o Brasil atraiu para si nova atenção, não sem riscos.

Tradutor: Lana Lim

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