Washington reconhece o mundo multipolar

Sylvain Cypel

A nação norte-americana enfrentou diversos períodos de transição em sua história. Estamos em um deles: vivemos em tempos monumentais de mudança. Desde a primeira frase do documento intitulado “A estratégia de segurança nacional”, que ele assinou na quinta-feira (27), Barack Obama coloca o debate do ponto de vista conceitual, opostamente ao famoso documento assinado em 2002 por seu antecessor, George Bush.

Nova estratégia de segurança dos EUA admite peso do Brasil no mundo

A Nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos, anunciada nesta quinta-feira (27) pela Casa Branca, elogia as políticas econômicas e sociais do Brasil, reconhece o país como guardião de “patrimônio ambiental único” e dá as “boas-vindas” à influência de Brasília no mundo.

Assim, passa-se de um presidente que exibe certezas para um que assume incertezas. Esqueçam o universo binário de um presidente republicano então em plena preparação da intervenção no Iraque. “We are good” [“Somos bons”], declarou Bush diante do Congresso após os atentados do 11 de setembro de 2001. Em seu mundo de então, nenhum espaço subsistia entre os Estados Unidos e seus aliados de um lado, e o “Eixo do Mal” de outro. Washington, líder mundial do lado da democracia e da liberdade, conduzia uma “guerra ao terrorismo” sem concessão possível. O terrorismo, termo genérico adaptável às circunstâncias, era designado como principal adversário.

O presidente Obama, que ambiciona adaptar sua política de segurança ao “século 21 nascente”, insere sua estratégia em um mundo complexo marcado pela novidade de suas questões. Um mundo em rápida “mutação”, onde os protagonistas navegam entre interesses particularistas antagônicos e um interesse coletivo comum: a preservação do planeta.

Um mundo, para parafrasear o título da obra do acadêmico Charles Kupchan, especialista em relações internacionais (“How Enemies Become Friends”, Princeton University Press, 2010), onde os “inimigos de ontem” podem se tornar “os amigos” de amanhã; onde as “ameaças de segurança” não se resumem mais à integridade física dos americanos, mas englobam a pobreza, o aquecimento global e as pandemias. É o mundo cheio de perigos e promessas que o presidente americano encarrega seu país de apreender “sem medo”, mas sem ingenuidade.

Os regimes iraniano e norte-coreano não terão muitos motivos para comemorar sua estratégia enquanto Obama mantiver pressão sobre eles. Se eles abandonarem suas ambições nucleares, ele os ajudará a se inserirem na comunidade internacional. Se recusarem, ele não descarta nenhuma opção, assim como seu antecessor.

Ao recusar uma estratégia que supostamente deveria garantir pela guerra a preeminência americana “por duas gerações”, como mencionou Paul Wolfowitz, primeiro subsecretário da Defesa do presidente Bush, a política Obama visa “reformar” essa potência pelo exemplo. Ele insiste primeiramente na autoexemplaridade. Pela primeira vez, temas como “o reforço da educação e do capital humano” ou “o apoio à ciência, à tecnologia e à inovação” aparecem em um documento oficial.
Em seguida ele defende a necessária cooperação com seus parceiros e a mão estendida aos adversários. Pois qualquer instabilidade – política, econômica, ambiental – se torna fator de instabilidade “global”. Ao mesmo tempo, o documento estabelece limites para a ação de um país “preso na guerra” e que se recupera dolorosamente de uma “crise econômica devastadora”. Um país que, ainda que deva “manter a superioridade militar que lhe permitiu garantir sua segurança e a do mundo durante décadas”, sabe que, exceto por suas forças armadas, não há nenhum outro domínio em que possa pretender constituir a única superpotência.

Segundo o texto da Casa Branca, a questão consiste não em preservar uma preeminência americana muito desgastada, mas sim em restaurá-la. “Pela primeira vez na história recente do país”, observa Kupchan em sua obra, “uma política estratégica enuncia a realidade: nosso mundo se torna multipolar, os EUA têm ali grandes fraquezas e a força militar não é a panaceia.” Mas ter uma estratégia “é como ir de um ponto a outro. Ora, esse documento trata mais do porquê do que do como fazer”.

Apesar de as primeiras reações democratas terem sido muito elogiosas, a revista da esquerda do partido, “The Nation”, questiona se “a nova estratégia de Obama é uma realidade ou uma simples figura retórica”. Na segunda-feira, o general David Petraeus, comandante do CentCom (Oriente Médio e Ásia Central) que inclui o Irã, o Paquistão e o Chifre da África, conseguiu expandir ali suas intervenções secretas a fim de “preparar o ambiente” para futuras operações armadas. A “guerra ao terror” foi invalidada nos textos mas não na prática, se preocupa a revista.

Do lado republicano, no entanto, as primeiras reações chamavam a política Obama, na melhor das hipóteses, de “ilusão ingênua”, e na pior de “muito perigosa” e de “abandono da liderança natural dos EUA”. “Já se sabia que republicanos e democratas não compartilhavam quase nada nos assuntos de política interna e economia. Agora isso também ficou claro no plano geoestratégico, o que é bem preocupante”, conclui Kupchan.

Tradutor: Lana Lim

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