Zimbábue vende uma "arca de Noé" para a Coreia do Norte e desperta críticas

Catherine Vincent

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    Girafa no Parque Nacional Hwange, localizado no Zimbábue

    Girafa no Parque Nacional Hwange, localizado no Zimbábue

Um casal de elefantes, além de zebras, girafas, chacais, macacos cercopitecos, hienas malhadas, javalis-africanos e até mesmo peixes-gato: é uma verdadeira Arca de Noé que o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, decidiu vender à Coreia do Norte.

Prevista para junho, a transferência desses animais para Pyongyang deverá ser feita por avião, uma perspectiva que inquieta as organizações de defesa da natureza, assim como o destino reservado aos animais recém-chegados no zoológico coreano encarregado de os acolher.

“Recebemos um pedido da Coreia do Norte e devo salientar que o Zimbábue está autorizado a exportar (seus animais) no mundo inteiro”, declarou o diretor de Parques Nacionais, Vitalis Chadenga, em 19 de maio, em Harare.

Ele informou que os animais, atualmente em quarentena, foram retirados de “populações com excesso” do Parque Nacional de Hwange, e disse que os especialistas veterinários enviados à Coreia do Norte ficaram satisfeitos com as condições de cativeiro observadas, e que o país tem “a capacidade para cuidar bem dos animais”.

“Uma medida muito cruel”

Esta não é a opinião da Força Tarefa para Conservação do Zimbábue, que teme que a qualidade do cativeiro em Pyongyang não responda às normas internacionais. Uma vez que o clima da Coreia do Norte não parece adaptado às condições de vida naturais dos animais vendidos.

“Tirá-los da liberdade do calor nos arbustos para condená-los ao cativeiro num país de invernos rigorosos, é uma medida muito cruel”, estima o presidente da associação, Johnny Rodrigues, que teme que os animais não sobrevivam à aventura. Nos anos 80, dois rinocerontes haviam sido enviados de Harare para Pyongyang: eles morreram poucos meses depois de chegar.

O principal problema, acredita Rodrigues, vem do estresse aos que os animais são submetidos durante sua captura e durante sua viagem para a Ásia. Principalmente para os dois elefantes: o casal mais valioso dentre os animais (eles foram vendidos 79.500 euros cada), e também o mais frágil.

“Esses jovens elefantes têm 18 meses, e normalmente deveriam mamar em suas mães até os quatro anos. Separá-los assim tão jovens pode ter consequências graves para o seu desenvolvimento”, observa a associação britânica Born Free Foundation, segundo a qual o Parque Nacional Hwange é frequentemente lembrado pela má gestão de seus animais no passado.

No poder há 30 anos, Robert Mugabe cultiva um bom relacionamento de longa data com a Coreia do Norte. Pyongyang chegou a treinar a 50ª brigada do exército do Zimbábue, que reprimiu severamente, no começo dos anos 80, o movimento dissidente da etnia ndebele.

Tradutor: Eloise De Vylder

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