Exército chinês abre as portas para os jornalistas estrangeiros e para o Ocidente

Nathalie Guibert

  • AFP

    Soldados do exército de libertação da República Popular da China alinhados durante treinamento, em Xian, na China

    Soldados do exército de libertação da República Popular da China alinhados durante treinamento, em Xian, na China

O Exército de Libertação Popular está se comunicando pela primeira vez. O alvo: os jornalistas estrangeiros. O objetivo: tranquilizar o Ocidente.

É a temporada das “primeiras vezes” no ministério da Defesa da República Popular da China. “Vocês são a primeira delegação convidada por nossa agência de informações”, diz seu porta-voz, o coronel Huang Xueping, ao receber de maneira muito protocolar, em Pequim, uma pequena delegação da Associação dos Jornalistas Franceses de Defesa, nesta segunda-feira de maio. “É minha primeira experiência com uma questão militar”, responde dois dias depois Emmanuel Rousseau, cônsul-geral da França em Chengdu, capital de uma das sete regiões militares da China, na província de Sichuan.

O Exército de Libertação Popular (ELP) está se comunicando com o exterior, e isso é uma novidade. O coronel Huang pensou em tudo: recepção com fanfarra, briefings, sessão de perguntas e respostas, interlúdios culturais, banquetes com altos oficiais. Depois de difíceis negociações, ele aceitou que os jornalistas visitassem duas unidades do exército. Uma olhada rápida em alojamentos sem soldados – “é hora do treinamento”, dizem. Não deixa de ser uma novidade.

A “transparência” demonstrada evitou as prioridades do momento – a marinha, a aviação de caça ou o setor espacial militar. Mas ela procede de uma vontade política do mais alto nível: a China preocupa o mundo, e quer tranquilizá-lo.

“Existe uma contradição entre as práticas do establishment militar chinês, que mantém um segredo excessivo, e o objetivo declarado do governo civil de tranquilizar seus vizinhos e as outras potências quanto à natureza pacífica do desenvolvimento da influência da China sobre o cenário internacional”, observa o último relatório do Pentágono sobre a potência militar chinesa. Agora que seu exército está se modernizando, diz o relatório, os riscos de que essa potência seja mal vista são reais e poderão levar a crises.

“Nós queremos reforçar a diplomacia militar, ganhar mais confiança e apoio”, explica o porta-voz com um sorriso hollywoodiano. E repete o que a comissão militar central do Partido Comunista tenta impor como crença: o “desenvolvimento pacífico aberto e harmonioso”, a “estratégia defensiva”, a “manutenção da paz mundial para criar condições favoráveis para o desenvolvimento chinês”.

Desde “1990 do século passado”, segundo a expressão consagrada aqui, o país participou de 18 operações de manutenção da paz da ONU e iniciou manobras militares conjuntas com “mais de 20 países”. Em matéria de comunicação, explica ainda o coronel Huang, “o objetivo dos exércitos ocidentais é sua opinião pública nacional; o objetivo do exército chinês é a comunidade internacional”.

O exercício ainda está longe de ser natural. Passado o período que congelou as relações entre França e China em 2009, foram necessárias seis semanas de trabalho ao adido de defesa francês, coronel Loïc Frouart, para garantir a visita. Normalmente, os pedidos franceses muitas vezes ficam sem resposta. Apesar da forte progressão de suas capacidades militares, a China aprende mais com os exércitos estrangeiros do que o contrário. A última visita de um chefe de estado-maior francês data de 2000. Mas, para o coronel Huang, não há dúvidas: “Visitaremos a França para conversas com o ministério da Defesa”.

O serviço de Relações Exteriores da Defesa só foi iniciado em 2008. Seu porta-voz, com domínio perfeito do inglês, estudou Política Comparada na Universidade de York, no Reino Unido. O cartão de visita que ele dá aos jornalistas estrangeiros agora inclui um número de telefone. Mais uma novidade.

Nos imponentes prédios da Universidade de Defesa Nacional, em dez anos foram formados 800 oficiais em Comunicação. Aqui, analisam as coletivas de imprensa dos generais ocidentais sobre os cenários do momento: Iraque, Afeganistão, África. O coronel Chen Xuewu tem orgulho de apresentar suas instalações, entre as quais uma sala de entrevistas muito kitsch, com luxuosas poltronas de couro sintético branco, e janelas que dão para o jardim: “É uma parte indispensável da formação dos militares modernos”.

Quanto à Agência de Notícias da Defesa, fundada por Mao em 1946 com fins de propaganda interna, ela tem novas missões. Além da difusão do marxismo-leninismo, do maoismo e das teorias de Deng Xiaoping, enumera o general Huang Guozhu, ela deve “divulgar os resultados da modernização dos exércitos”. O site da internet funciona desde agosto de 2008. A sala de redação em inglês tem fileiras de cubículos dignas de uma central de atendimento. “Vinte milhões de conexões por dia, sendo que 5% são feitas a partir do exterior”, diz o general.

Mas a abertura mobiliza menos o Exército de Libertação Popular do que a reforma colossal feita para sua modernização. Os oficiais que encontramos não esconderam que ela ainda não atingiu o nível de um exército moderno. Na 6ª divisão blindada de Pequim, os tanques têm mais de vinte anos, e o comandante gostaria de ter equipamentos eletrônicos mais modernos, tanto em matéria de controle de tiro, como de transmissões.

Em Chengdu, o portão do regimento de transporte aéreo exibe uma frase motivadora: “Estabelecer uma aeronáutica forte e reforçar a construção de uma potência para fazer a guerra”. Nessa região militar estratégica, que possui 7 mil quilômetros de fronteiras com seis países, a aeronáutica chinesa tem algumas joias, como a montadora do caça J-10, e unidades de helicópteros de combate de última geração.

Mas esse regimento de 1.000 soldados, que participou das operações de resgate do terremoto de Sichuan em 2008, continua sendo subequipado. Entregues em 1984, os helicópteros de transporte americanos Black Hawks do comandante Li Guo oficialmente não têm mais peças de reposição, por causa do embargo sobre as vendas de armas. E seus pilotos voam em média somente 60 horas por ano, quase três vezes menos que seus colegas franceses: “Não é o suficiente”, confirma o capitão Lin Yong, de 32 anos.

“Faremos esforços em todos os domínios; na marinha e na aeronáutica, que são setores relativamente atrasados; temos muito o que colocar em dia”, explica o general Jia Xiaoning, vice-diretor de Relações Exteriores da Defesa. “Mas, para falar a verdade, não estamos com pressa. Não precisamos de coisas que os outros não querem nos dar, e contamos com nossas próprias forças para desenvolver nossas tecnologias”. A modernização dos equipamentos e dos homens será concluída em “2049, para o centésimo aniversário da República Popular”, anuncia.

Na mesa, o general, que fala francês perfeitamente, brinda à compreensão mútua. Ele mantém o sorriso para abordar os assuntos desagradáveis. “Em Taiwan, as pessoas que defendem a independência estão lá, elas obtêm 40% dos votos. A tarefa de nossas forças armadas não mudou: preservar a integridade territorial da China. Nós nos preparamos para o melhor. E para o pior também”.

A delegação tem o mau gosto de mencionar o Tibete. O banquete se encerra com um longo e inflamado monólogo contra o dalai lama. “As mídias estrangeiras dão importância à parte sombria da China”, constata o coronel Huang. “Por que vocês não acreditam em nós?”

Tradutor: Lana Lim

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