Bebê Erdogan reflete crescente popularidade da Turquia e seu premiê

Alain Frachon

  • Reuters

    O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, acena durante entrevista coletiva na sede do AK (Partido Justiça e Desenvolvimento), em Ancara

    O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, acena durante entrevista coletiva na sede do AK (Partido Justiça e Desenvolvimento), em Ancara

A criança nasceu no sábado, 5 de junho de 2010, no sul da faixa de Gaza. Seus pais, um casal de palestinos, deram-lhe o nome de “Erdogan”. É o sobrenome do primeiro-ministro turco. No mesmo dia, a Guarda Revolucionária, tropa de elite do regime iraniano, fez um anúncio tardio, mas estrondoso: eles querem escoltar as “flotilhas humanitárias” decididas a furar o bloqueio de Gaza.

O que há em comum entre essas duas informações? É claro, elas estão relacionadas à trágica abordagem do navio turco Mavi Marmara por comandos israelenses cinco dias antes. O primeiro anúncio – longa vida ao bebê Erdogan! – é reflexo da crescente popularidade da Turquia e de seu primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, entre a opinião pública árabe, especialmente os palestinos.

A segunda, exercício de retórica quase forçado, é uma manifestação de solidariedade iraniana tardia com os palestinos de Gaza. O que leva à seguinte questão: existe uma rivalidade entre Ancara e Teerã pela liderança no Oriente Médio? Para além das relações de ótima vizinhança mantidas entre seus países, Mahmoud Ahmadinejad e Recep Tayyip Erdogan seriam concorrentes nessa parte do mundo?

Os pessimistas afirmam: a resposta não tem importância alguma. Eles consideram o partido de Erdogan (AKP, Partido do Desenvolvimento e da Justiça) uma formação islâmica disfarçada. O AKP pode ser classificado de “islâmico-conservador”, mas vem de uma cisão do Refah, que por sua vez não escondia suas origens: esse partido se inspirava na ideologia dos Irmãos Muçulmanos egípcios, a matriz do islamismo no Oriente Médio.

Os pessimistas dirão ainda que a ascensão do AKP nos últimos dez anos corresponde a uma islamização acelerada da Turquia, a um declínio do legado de Kemal Atatürk. Eles observam que o AKP tem contato com o Hamas palestino. Ressaltam que Erdogan vem usando um vocabulário cada vez mais militante: de um lado, os assassinos (israelenses), de outro, os mártires (palestinos). Então no fundo há pouca diferença entre Ancara e Teerã, adeptos do mesmo radicalismo?

Certamente que não. A verdadeira natureza do regime akapista é muito mais complexa. Foi ele – e não os herdeiros da Turquia laica fundada por Kemal Atatürk no início dos anos 1920 – que promoveu o progresso da democracia no país.

Desde que Erdogan chegou ao poder em 2003, a imprensa e as editoras passaram a ter mais liberdade; há menos espancamentos nas prisões e nas delegacias; a justiça está mais independente; os curdos, que por tanto tempo foram martirizados, tiveram um momento de trégua; as campanhas eleitorais estão mais abertas.

Os defensores dos direitos humanos dizem que ainda há muito a ser feito, mas a Turquia de Erdogan é o contrário do Irã de Ahmadinejad. Um avança – devagar demais, talvez – na direção de um Estado de direito que o aproxima da União Europeia; o outro regride para uma ditadura militar nacional-islâmica desde o golpe de junho de 2009. Erdogan seria o equivalente muçulmano de um democrata-cristão do pós-guerra na Europa, uma espécie de Giulio Andreotti anatoliano; o outro, Ahmadinjead, um fascista dos anos 1930, ultranacionalista adepto de uma ideologia totalitária, um Mussolini persa “light”.

A estranha diplomacia de Erdogan é reflexo de um perfil único. O de um país muçulmano, com tendência “ocidental”, membro da Otan, que combate os talebans no Afeganistão, é candidato à Europa, não rompeu suas relações com Israel, e ambiciona ser uma potência dominante no Oriente Médio. Sendo chefe de Estado ou primeiro-ministro dentro da UE, como não ver o trunfo estratégico que representa esse curioso e imponente vizinho? E quando se é premiê israelense, certamente é melhor ter a Turquia como defensora da causa palestina do que o Irã.

Indo mais longe: é justamente esse país inclassificável, em alta no mundo árabe, que tem mais cartas para garantir as mediações necessárias a Israel na busca pela paz com seus vizinhos. Ou até para fazer pressão sobre o Irã.

O Estado hebreu não tem esse tipo de mediador regional. Agora, em 2010, ele está em uma situação paradoxal. Nunca esteve tão conectado com o resto do mundo como hoje. O quadro de partidas e chegadas no aeroporto Ben Gurion mostra todos os destinos possíveis. Mas Israel continua em conflito com seus vizinhos imediatos, seja com a Síria, o Hezbollah libanês ou os palestinos do Hamas – tendo, por pano de fundo, a sombra de Ahmadinejad a caminho da bomba atômica.

É aí que entra a questão da natureza do regime Erdogan: um inimigo a mais para aqueles que o veem a ponto de se aliar ao campo islâmico (hipótese pessimista); um intermediário óbvio e singular para aqueles que consideram a ambição turca mais sofisticada e mais pacífica (hipótese otimista).

Para esses últimos, entre os quais me incluo, voltar às boas relações entre Israel e Turquia é importante. Israel tem um preço a pagar, uma soma módica: Ancara está exigindo uma investigação internacional sobre os acontecimentos do Mavi Marmara. O argumento seria mais fácil de vender aos israelenses se a máquina de indignação fosse menos seletiva. Se os israelenses não estivessem com a impressão de estarem sendo julgados mais duramente do que os outros nesse caso – mais severamente do que a Coreia do Norte, quando ela afunda um navio militar sul-coreano, fazendo 49 mortos, e até mais do que os americanos, quando matam civis afegãos “por engano”.

Tradutor: Lana Lim

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