Dezenas de milhares de refugiados fogem do Quirguistão

A situação se estabilizava lentamente nesta terça-feira (15) no sul do Quirguistão, informou uma autoridade da região de Och, após quatro dias de conflitos étnicos que fizeram pelo menos 170 mortos e mais de 1.700 feridos. “A noite passada foi mais ou menos calma na região, em comparação com a noite anterior. Muitos membros das forças de ordem (...) garantem a segurança e a passagem de comboios humanitários”, declarou uma autoridade do ministério do Interior. “O grande problema continua sendo a propagação entre a população de rumores provocadores que criam pânico e agravam as tensões”, disse.

Além disso, a presidente interina, Rosa Otunbaieva, avaliou que uma força de manutenção da paz não era necessária. “Não há necessidade de enviar uma força de paz”, declarou Otunbaieva durante uma coletiva de imprensa. “Nós esperamos controlar a situação com nossas próprias forças”, acrescentou. A presidente interina também informou que o referendo sobre a nova Constituição, previsto para 27 de junho, seria “organizado como previsto”. “Nós faremos tudo que for preciso para garantir a realização do referendo”, ressaltou.

Novos conflitos étnicos aconteceram na segunda-feira no sul do país, espantando para o Uzbequistão levas de refugiados; muitos deles acusam as forças oficiais quirguizes de estarem ajudando os bandos armados a cometer massacres. O Uzbequistão anunciou na segunda-feira que fecharia sua fronteira, pois sua capacidade de abrigo estava saturada, e pediu por ajuda internacional para as dezenas de milhares de refugiados que acolheu desde o início da crise.

O filho do presidente detido no Reino Unido

O filho do presidente deposto do Quirguistão Kurmanbek Bakiev, procurado pela Interpol, foi detido imediatamente após sua chegada ao Reino Unido onde queria se refugiar, declarou o chefe do Conselho Nacional de Segurança do Quirguistão, Keneshbek Duishebaiev, a um canal de televisão nacional.

“Ele foi preso depois de ter aterrissado, a bordo de um avião particular, no aeroporto de Farnborough, no condado de Hampshire”, disse Duishebaiev. Maxim Bakiev será “ou extraditado ou julgado” no Reino Unido. Ele fugiu do Quirguistão após o levante de abril que fez 87 mortos e provocou a queda do regime de Kurmanbek Bakiev, refugiado em Belarus. As novas autoridades também pediram por sua extradição.

O Conselho de Segurança da ONU “condenou”, na segunda-feira, “os repetidos atos de violência” na república da Ásia Central e pediu por “calma, um retorno ao Estado de direito, bem como uma resolução pacífica dos desacordos”. O Conselho também ressaltou a necessidade de “apoiar de maneira urgente a distribuição de ajuda humanitária”. O alto comissário da ONU para os direitos humanos, Navi Pillay, exortou o Uzbequistão e o Tadjiquistão a “deixarem [suas] fronteiras abertas” para permitir que os refugiados entrem. Ela declarou que os atos de violência no Quirguistão pareciam “orquestrados, dirigidos e planejados”.

Forças oficiais massacraram uzbeques

Além disso, a China evacuou, na manhã de terça-feira, 195 de seus cidadãos. Cerca de 600 chineses vivem na cidade de Och e 7.000 na região, segundo o “China Daily”. Em quatro dias, os atos de violência que levaram a esse êxodo produziram pelo menos 138 mortos e 1.761 feridos, segundo o ministério da Saúde quirguiz.

O governo admitiu que está com dificuldades para controlar a situação, apesar da mobilização do exército, da instauração de um toque de recolher e da ordem dada às forças oficiais de atirar sem aviso. Mas entre os refugiados que chegaram ao Uzbequistão, muitos contavam que bandos armados de quirguizes, com o apoio de homens uniformizados das forças oficiais, haviam massacrado uzbeques. Um oficial de uma unidade de blindados quirguiz, ele próprio uzbeque, fez uma declaração na mesma linha. “O ministério da Defesa quirguiz ordenou que não atirássemos em civis. Mas em Och, os militares e a polícia ignoraram essas ordens e ajudavam os bandidos a atirar nos civis”, declarou.

Segundo o ministério das Emergências uzbeque, 60 mil refugiados já foram registrados na região de Andijan, no leste do Uzbequistão, número que não leva em conta milhares de crianças. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, por sua vez, acredita que cerca de 80 mil pessoas estejam refugiadas no Uzbequistão. Em Moscou, a ODKB [Organização do Tratado de Segurança Coletiva], uma aliança militar dirigida pela Rússia e que reúne antigas repúblicas soviéticas, incluindo o Quirguistão, “não excluiu” uma intervenção militar para pôr um fim à onda de violência.

Tradutor: Lana Lim

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