Quirguistão: "A questão étnica está sendo usada para manipular a população", diz pesquisadora

Marion Solletty

Violentos confrontos entre as comunidades quirguiz e uzbeque agitam o Quirguistão desde quinta-feira (10), dois meses após a queda do presidente Kurmanbek Bakiev e logo antes da realização de um referendo sobre a nova constituição. Asel Doolotkeldieva, pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas Internacionais da Sciences Po, trabalha no caso do Quirguistão como exemplo das transformações do regime político na Ásia Central.

Le Monde: Como explicar a atual onda de violência no Quirguistão?
Asel Doolotkeldieva:
A situação política do país tem sido complexa desde a queda do governo Bakiev, em abril passado. Sua família não aceitou perder o poder e tentou desestabilizar o governo em exercício. Há dois meses o país não sabe o que é paz. Uma conversa telefônica entre o filho e o irmão de Bakiev, datada de maio e depois publicada, dá a entender que eles tinham um plano para desestabilizar o país: o que está acontecendo em Och e em Jalalabad se encaixaria perfeitamente nisso.

Le Monde: Em que contexto político esses confrontos têm acontecido?
Doolotkeldieva:
Um referendo sobre a nova constituição está previsto para o dia 27 de junho; é muito importante, pois implantaria uma nova constituição que dá mais poder ao Parlamento. Passaria-se de um regime hiperpresidencial para um regime com um pouco mais de poder parlamentar.

É uma reforma muito importante: seu objetivo é evitar a tomada de poder por uma única pessoa ou família, como aconteceu duas vezes no passado recente, com Bakiev, e antes dele Askar Akaiev, que abusaram de sua posição para servir seus próprios interesses econômicos e políticos. Sem a adoção da constituição, as eleições parlamentares previstas para outubro de 2010 serão enfraquecidas e o Quirguistão continuará em um vácuo político.

Le Monde: Então os tumultos são orquestrados?
Doolotkeldieva:
Se os rumores sobre o envolvimento de Bakiev ou de sua família se confirmarem, poderemos ver ali uma vontade de impedir a realização do referendo nas regiões, ou de fazer com que ele fracasse. É evidente que há grupos criminosos por trás dessa onda de violência.

Conflito no Quirsguistão deixa vários mortos e diversos refugiados no país

Os confrontos civis não surgiram do nada em 11 de junho: já haviam ocorrido vários atos de provocação e violência no mês de maio. O fato de que hoje encontramos participantes que não são de origem quirguiz nem uzbeque, mas estrangeira, causa uma forte suspeita de manipulação. Fontes quirguizes indicam que cerca de 30 combatentes de origem tadjique teriam atravessado a fronteira e participado dos atos de violência contra quirguizes e uzbeques. Uma organização como essa exige recursos: armas, apoio financeiro e político...

Le Monde: Mas as tensões entre uzbeques e quirguizes são reais...
Doolotkeldieva:
A questão das tensões entre os quirguizes e uzbeques no sul vem de muito tempo. Mesmo antes da delimitação das fronteiras pelos soviéticos, diversas etnias, entre as quais os quirguizes, coabitavam no vale de Fergana [que cobre o leste do Uzbequistão, o sul do Quirguistão e o norte do Tadjiquistão].

A volta da questão étnica hoje marca o fracasso da construção, sobre uma base civil e não étnica, de um Estado-nação pelo governo quirguiz. Não há um mecanismo de integração social que funcione. Há uma comunicação, as crianças vão à escola juntas, mas de forma geral cada comunidade tem seus próprios mecanismos que não transcendem as fronteiras étnicas. E cada vez que o poder político enfraquece, as reivindicações sobre os recursos econômicos se fazem através de um prisma étnico.

Por exemplo: nos anos 1990 as tensões entre quirguizes e uzbeques eram parte do problema do acesso à moradia. Hoje, as correntes políticas afastadas do poder utilizam a questão étnica para manipular a população dos dois lados.

Tradutor: Lana Lim

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