De Paris, Dilma Rousseff, candidata de Lula, tenta se projetar no cenário internacional

Paulo A. Paranaguá

  • Lionel Bonaventure/AFP

    O presidente francês, Nicolas Sarkozy, recebe a candidata Dilma Rousseff no Palácio do Eliseu (Paris)

    O presidente francês, Nicolas Sarkozy, recebe a candidata Dilma Rousseff no Palácio do Eliseu (Paris)

Dilma Rousseff aproveitou a Copa do Mundo para se projetar no cenário internacional. Foi em Paris que a candidata do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, designada pelo Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda) para a eleição presidencial (cujo primeiro turno está marcado para 3 de outubro), assistiu à primeira partida da equipe do Brasil, na terça-feira (15). Ela vestia a camisa verde-amarela da Seleção.

Na quarta-feira, seu programa foi mais protocolar: Rousseff se encontrou com a secretária nacional do Partido Socialista, Martine Aubry, e com o presidente da República, Nicolas Sarkozy.

Aos 62 anos, essa ex-ministra e chefe da Casa Civil nunca concorreu em uma eleição. Seu principal trunfo é a imensa popularidade de seu mentor, que está terminando seu mandato com a aprovação de 80% dos brasileiros. No entanto, essa mulher de forte personalidade não quer se considerar como uma simples continuação do presidente Lula.

“O Brasil está vivendo um momento muito especial, podemos passar da condição de país emergente para a de uma nação desenvolvida”, explica em uma entrevista ao “Le Monde”. Isso, supondo-se que durante a próxima presidência (2011-2014) seja mantida uma taxa de crescimento de 5,5% a 6% ao ano.

“Bônus demográfico”

O governo Lula conseguiu reduzir o número de pobres de 77 para 53 milhões. Mas 19 milhões de brasileiros ainda sobrevivem em condições de extrema pobreza, e outros 34 milhões vivem em situação de precariedade. “O Brasil deve continuar a expandir sua classe média, que se tornou majoritária”, afirma Rousseff.

Para ela, o país está vivendo um “bônus demográfico”, uma vez que a maioria de sua população (193 milhões) está em idade ativa. Em oito anos, foram criados 14 milhões de empregos. Agora, o desafio é implementar um ensino de qualidade. “A integração das regiões pobres do Nordeste e do Norte exige uma mão de obra mais qualificada, seria preciso uma escola técnica em cada cidade com mais de 50 mil habitantes”, diz a candidata. O governo atual dobrou o número de escolas técnicas existentes e criou quatorze universidades. Para dispor dos recursos do Estado federal, os estabelecimentos passaram por uma avaliação de resultados.

O crescimento exige mais investimentos em pesquisa e desenvolvimento. “O Brasil não se tornou um grande produtor de alimentos só por causa da qualidade de seus solos e das virtudes de seu clima, mas porque nossa excelência em matéria de pesquisa agrícola permitiu que escolhêssemos os cultivos adequados”, observa. “Da mesma forma, imensas jazidas de petróleo em águas muito profundas sob uma crosta de sal [pré-sal] foram descobertas graças à competência da empresa pública Petrobras”.

Para superar o ponto de estrangulamento da infraestrutura, o governo Lula lançou em 2007 um amplo programa de aceleração do crescimento (PAC). Além disso, Dilma Rousseff foi apresentada pelo chefe do Estado como “a mãe do PAC”, para associá-la mais ao resultado de sua gestão.

Os estabelecimentos privados precisam contribuir

Segundo fontes não-governamentais, menos da metade dos projetos foram executados até agora. A candidata contesta esse número e critica a hesitação dos investidores privados. “O financiamento das grandes obras não pode depender exclusivamente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), é preciso que os estabelecimentos privados também contribuam, ao mesmo tempo em que elaboram novas formas de engenharia financeira”, garante a ex-economista. “A construção de uma usina hidrelétrica como Jirau e Santo Antônio leva cinco anos, as obras estão bem adiantadas”, diz.

As grandes obras, assim como a construção de Brasília, sempre resultaram em um crescimento da corrupção no Brasil. O país é constantemente criticado sobre esse assunto pela ONG Transparência Internacional. O primeiro mandato do presidente Lula foi maculado por um escândalo que custou o cargo do antecessor de Rousseff, José Dirceu, ainda muito influente dentro do PT.

“Nossas instituições estão melhorando”, garante Rousseff. Ela menciona a transparência das licitações, a vigilância do Tribunal de Contas e do Ministério Público. O governador de Brasília, da oposição, foi preso pela Polícia Federal por ter recebido propina.

A candidata de Lula não admite o atraso do governo federal em matéria de segurança, uma das principais preocupações da opinião pública. Para evitar ter de recorrer ao Exército para manter a ordem, uma tropa de elite, a Força Nacional de Segurança Pública, foi formada e treinada para intervenções rápidas. Prisões de segurança máxima permitiram isolar os chefes do crime organizado, traficantes de drogas que haviam ocupado territórios abandonados pelo Estado.

Rousseff cita como exemplo a favela Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. “Um teleférico tirará a favela do isolamento, ligando-a ao bairro residencial de Botafogo”, explica. “A polícia voltou a ocupar o território, e foram instalados novos serviços sociais: escolas, postos de saúde, centros esportivos”.

Preocupada em não se diferenciar de seu mentor, Rousseff não se deixa abalar quando mencionam as relações duvidosas do presidente Lula, com Raúl Castro ou Mahmoud Ahmadinejad. “Não se faz diplomacia interferindo nas questões internas de outros países”, exclama. “As ameaças, o isolamento ou as sanções não levam a nada de construtivo”, diz ela a respeito de Cuba e da recente iniciativa da Turquia e do Brasil na questão nuclear iraniana.

Antes mesmo do início da campanha oficial, a candidata do PT conseguiu alcançar nas pesquisas seu principal rival, o social-democrata José Serra, ex-governador de São Paulo. Mas, assim como na Copa do Mundo, nada se define de antemão.

Tradutor: Lana Lim

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