Na Polônia, a eleição presidencial acontece à sombra do luto nacional

Piotr Smolar

No primeiro turno, que ocorrerá no domingo (20), três candidatos disputarão a sucessão de Lech Kaczynski

Uma campanha eleitoral fora do comum está chegando ao fim na Polônia. Foi desconcertante, cheia de não-ditos e fingimentos, sempre à sombra do luto nacional formado pela catástrofe aérea de Smolensk, em 10 de abril, e depois por inundações históricas. Desde então, o primeiro turno da eleição presidencial, que acontece no domingo (20), permanece incerto.

Dois candidatos de direita se enfrentam pela sucessão de Lech Kaczynski, morto no acidente. O chefe do Estado interino, Bronislaw Komorowski, designado pela Plataforma Cívica (PO, centro-direita), continua sendo o favorito. Seu partido, liberal no plano econômico e pró-europeu, está no governo.

As pesquisas lhe dão cerca de dez pontos à frente de seu adversário, Jaroslaw Kaczynski, do partido Direita e Justiça (PiS, direita conservadora), que goza de uma melhor dinâmica de campanha. “O resultado continua sendo imprevisível, pois muitas pessoas se decidirão cinco minutos antes de votar”, afirma Jaroslaw Makowski, diretor do Instituto Cidadão, círculo de reflexão próximo da PO.

Não se sabe se será uma escolha do coração ou da razão. Pode-se esperar um baixo índice de participação, cerca de 50%, e um segundo turno. “Desde Smolensk, a Polônia nunca deixou seu luto e a retórica da tragédia. O PiS prestou uma atenção especial a isso, criticando a forma como foi conduzida a investigação sobre o acidente pelas autoridades russas, suspeitas de esconderem a verdade.

“O que aconteceu depois de Smolensk parece com o que a mídia britânica fez após a morte de Diana, uma missa kitsch populista”, afirma Janusz Palikot, deputado da PO e agitador parlamentar, famoso por suas provocações. Ainda que as pessoas não estivessem sentindo uma grande emoção, elas queriam se identificar com esse espetáculo. Uma espécie de realidade artificial, teatral, se impôs. A verdadeira campanha só começou há uma semana. “Entretanto, a eleição não se decide nos programas, mas sim nas personalidades”, disse.

Jaroslaw Kaczynski tentou suavizar sua imagem ao se posicionar como uma figura moderada e conciliadora. Ele pode contar com uma base eleitoral fiel, católica, rural e mais velha. Bronislaw Komorowski não desperta entusiasmo entre seus partidários. Muitos votarão nele por falta de opção, mais enojados pelo adversário do que seduzidos por seu perfil inexpressivo.

Diante dessa escolha morna, um terceiro candidato acabou emergindo, bem atrás: Grzegorz Napieralski, do SLD (ex-comunistas), que dá novas forças a uma esquerda fragmentada. Ele se dirige aos jovens, fala em educação e pretende renovar a classe política.

No espaço de dois meses, a Polônia superou calamidades que poderiam ter desestabilizado o Estado. O acidente de avião de Smolensk, que decapitou a classe política, despertou uma antiga convicção nacional: a história é trágica. Sem conseguir retomar um ritmo normal, a Polônia sofreu duas ondas de inundações, em maio e no início de junho, tão graves que se considerou adiar as eleições.

Não foi o mapa dos distritos, e sim o das zonas vitimadas pelas águas, que ganhou as primeiras páginas dos jornais. Dezenas de milhares de pessoas ficaram desabrigadas.
Princípio de não-agressão

Por muito tempo, um princípio tácito de não-agressão foi respeitado na campanha. Mas na reta final, o lado do primeiro-ministro, Donald Tusk, afiou seu discurso. Objetivo: dar um tom dramático à questão para espantar o fantasma de uma nova coabitação partidária paralisante com um segundo Kaczynski na presidência.

O candidato do PiS chegou a ser processado por ter afirmado que Komorowski queria a privatização dos hospitais. O tribunal condenou Kaczynski na quarta-feira; este respondeu que aceitava um debate na televisão com seu adversário sobre um único tema: os hospitais.

No sistema político polonês, o primeiro-ministro detém a maior parte dos poderes, mas o presidente pode dar seu veto sobre os textos legislativos e fazer nomeações no sistema estatal. “Nessa eleição se define o futuro da Polônia”, afirmou Michal Boni, ministro sem pasta e braço direito de Donald Tusk.

“Uma vitória de Jaroslaw Kaczynski seria dramática. Nesse caso teríamos um ano congelado até as próximas eleições legislativas, em busca de coalizões, sendo que será preciso administrar a crise econômica e preparar a presidência da União Europeia”, disse.

Tradutor: <I> Lana Lim </i>

UOL Cursos Online

Todos os cursos