Na Venezuela, opositores de Chávez criticam a influência de Havana sobre Caracas

Paulo A. Paranaguá

Ex-embaixador venezuelano para as Nações Unidas e ex-presidente do Conselho de Segurança da ONU, Diego Arria, em entrevista concedida ao “Le Monde”, critica o crescente controle de Cuba sobre a Venezuela. Em Bruxelas, Genebra, Madri, Paris (Bernard Kouchner o recebeu em 2 de junho), o ex-diplomata apontou a presença de cubanos em níveis estatais sob soberania venezuelana.


Segundo ele, entre essas missões figuram o serviço de emissão de carteiras de identidade e passaportes, o controle dos estrangeiros, o registro de terras, os cartórios e as forças de segurança. “Cuba nunca cedeu à União Soviética atribuições equivalentes”, se indigna Arria.

A opinião geral é de que Cuba possui o melhor serviço de inteligência da América Latina, mantido pacientemente há meio século. As competências dos agentes cubanos foram primeiro solicitadas pelo presidente venezuelano, o tenente-coronel Hugo Chávez, como guarda-costas. “Chávez tem mais a confiança dos cubanos do que dos venezuelanos, e ele aprecia mais os militares do que os civis”, observa Arria. “Basta contar o número de oficiais no governo e à frente das empresas estatais”.

A assistência cubana se ampliou progressivamente, enquanto a Direção dos Serviços de Inteligência e de Prevenção da Venezuela (Disip) se tornava o Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin). O general Antonio Rivero, diretor da Proteção Civil durante cinco anos, denunciou a presença de militares cubanos nos serviços de inteligência, nas comunicações e em postos estratégicos das forças armadas da Venezuela.

“Trata-se de um grupo de peritos militares de diferentes níveis, incluindo um general”, afirmou Rivero, em declarações à imprensa de Caracas. “Os cubanos se deslocam à paisana, sem identificação. Eles tomam cuidado para que não se possa provar que eles estavam lá. Diante de mim e de outras 40 pessoas, um general venezuelano apresentou um coronel cubano, que veio coordenar formações. Ele indicou que essa informação era confidencial”.

“Cubanização”

O general Rivero, que passou para a reserva após 25 anos de carreira, criticou o uso do uniforme pelo presidente Chávez durante cerimônias ou comícios políticos, a criação de uma milícia ligada ao chefe do Estado e a introdução de palavras de ordem cubanas nas forças armadas: a saudação militar agora deve vir acompanhada da frase “Pátria, socialismo ou morte! Venceremos!”.

Diego Arria e outros ex-embaixadores, Milos Alcalay e Adolfo Taylhardat, coordenam um grupo de oposição, o G400+, que denuncia a “militarização” e a “cubanização” da Venezuela. “Que cubanização? Os cubanos nos ajudam!”, responde Chávez. O presidente se espanta com a falta de críticas contra a influência militar dos Estados Unidos, que prevalecia até sua chegada ao poder, em 1999.

“Havana não pode aceitar uma alternância em Caracas, pois a sobrevivência do regime cubano depende do petróleo venezuelano”, afirma Arria. “Os 30 mil médicos, voluntários ou atletas cubanos presentes na Venezuela são reservistas treinados. Raúl Castro disse que há um milhão de empregos supérfluos na ilha. Ele está pronto para enviar outros cubanos para a Venezuela”.

Agora que a crise, a inflação e a falta de água e eletricidade comprometem a popularidade de Chávez, a oposição conseguiu apresentar candidaturas únicas visando as eleições legislativas de setembro. Mas Arria acredita que o chefe do Estado não respeitará a eleição. “Chávez privou o opositor Antonio Ledezma da maioria de suas competências como prefeito de Caracas”, disse o ex-diplomata.

 

Tradutor: <i> Lana Lim </i>

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