O contingente no Afeganistão ou a síndrome da Indochina

Antoine Fleuret*

  • Patrick Baz/AFP

    Fuzileiro naval beija sua namorada após servir as forças armadas por 7 meses no Afeganistão

    Fuzileiro naval beija sua namorada após servir as forças armadas por 7 meses no Afeganistão

O cabo Eric foi designado para acompanhar o repatriamento de seu camarada Vincent, morto no Afeganistão. No avião que os levava para casa, ele imaginou sua chegada ao aeroporto sob aplausos, como os recebidos pelos fuzileiros nos Estados Unidos. Não foi bem assim. Depois pensou no trajeto até o cemitério e, assim como no Canadá, veria vários compatriotas no caminho, com bandeiras e faixas de agradecimento. Mas ele não reconheceu ninguém. “Devem estar nos esperando no cemitério”, pensou.

Sua expectativa foi preenchida com a presença da família de Vincent, do ministro da Defesa, de figuras proeminentes locais, e de associações de ex-combatentes. Surpreso com o anonimato desse retorno, ele descobriu então que as últimas pesquisas confirmavam uma tendência ao esquecimento sobre a presença dos soldados franceses no Afeganistão.

O marechal de Lattre falou em 1951 sobre suas preocupações com o futuro da presença francesa na Indochina, explicando que ele não podia resolver tudo sozinho, e que a força expedicionária precisava do apoio do povo francês. O risco de ver nosso país enfrentando a mesma síndrome de distanciamento entre as forças envolvidas no Afeganistão e a população é evidente. Talvez já seja uma realidade.

Essa comparação está germinando, para muitos observadores da presença do exército francês no Afeganistão. Essa indiferença patente preocupa, pois uma hora poderá influenciar na eficácia plena de nossas unidades.

O distanciamento quilométrico do “país dos afegãos”, apesar de ser menor do que aquele que nos separa da Indochina, constitui uma primeira explicação. Mas esse desinteresse se explica sobretudo pelas dificuldades de compreensão dos motivos de nossa presença no local.

Nossos dirigentes, que decidiram esse envolvimento, precisam produzir verdadeiros esforços de pedagogia para dar suas explicações. Isso é ainda mais verdadeiro na França, pois a população não distingue o apoio ao exército das razões políticas para a presença deste.

Os americanos, pelo contrário, necessariamente apoiam seus “boys”, apesar das demoras dos dirigentes políticos em justificar a intervenção de 2003 no Iraque, por exemplo.

Assim como na Indochina, a operação no Afeganistão foi decidida por um governo eleito democraticamente. Essa missão foi validada por um debate parlamentar após os quatro primeiros meses de participação. Além do mais, a intervenção no Afeganistão foi ordenada por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Hoje em dia é difícil encontrar uma legitimidade mais ampla.

As duas operações foram e estão sendo conduzidas sem contribuição do contingente. No extremo Oriente, eram as tropas coloniais e a Legião Estrangeira; a guerra no Afeganistão é conduzida pelo jovem exército profissional composto por voluntários. Esse argumento apresentado nos dois casos para explicar o distanciamento não é admissível, pois são os filhos da França que lutam em nome do povo francês. Considerar o inverso equivaleria a dizer que o exército francês não faz parte da nação.

Então uma síndrome indochinesa está tomando forma para nossas tropas no Afeganistão. O elemento mais decisivo são os dirigentes políticos, que ainda não conseguem explicar esse envolvimento. Mas a continuidade de nosso envolvimento condiciona sua eficácia.

Além disso, o apoio do povo é vital para nossas forças armadas, especialmente no domínio psicológico no momento do retorno. O doutor Claude Barrois explica que a aprovação coletiva constitui uma importante garantia da reintegração plena dos soldados que voltam das operações. Isso permite evitar um descompasso entre soldados marcados por um conflito conduzido em nome da nação e um país que nem se importa com eles.

A ignorância e o esquecimento são dois presságios das futuras crises. Por isso nossos dirigentes devem continuar com seus esforços para explicar nosso envolvimento na resolução do conflito afegão. Isso também permitirá que não se esqueça que o regime taleban, outrora vigente, foi um santuário do terrorismo internacional.

Essa guerra é a da França. Seria paradoxal se a população afegã apoiasse cada vez mais a presença da coalizão que lhe traz uma certa segurança, enquanto a opinião pública dos países envolvidos se preocupa cada vez menos com seus soldados.

O cabo Eric vem vivendo isso, desde que voltou do Afeganistão. Ele teme um pouco sua volta, então vamos ajudá-lo neste momento, para lhe demonstrar o apoio do povo francês, e lhe permitir que continue a portar as armas de seu país, com orgulho.

Tradutor: Lana Lim

UOL Cursos Online

Todos os cursos