No Iraque, onda de calor expõe frágil situação da distribuição de energia elétrica

  • Simon Walker/AP - 10.abr.2003

    Iraquianos observam iate do ex-ditador do país, Saddam Hussein, destruído em bombardeio da coalizão anglo-americana no rio Shatt al Arab, em Basra

    Iraquianos observam iate do ex-ditador do país, Saddam Hussein, destruído em bombardeio da coalizão anglo-americana no rio Shatt al Arab, em Basra


Impacientes com as promessas recorrentes e não cumpridas de seus políticos e privados de eletricidade em pleno verão, quando os termômetros muitas vezes registram mais de 50 graus à sombra, milhares de iraquianos protestaram energicamente nos últimos dias em diversas cidades do país. Iniciada no sábado (19) em Bassora, segunda maior cidade do Iraque, a revolta se estendeu no domingo para Nassariya, e depois para Bagdá. Reprimidas pela polícia, e depois pelo exército que foi mobilizado em seu socorro, as manifestações, que por vezes beiraram tumultos, causaram duas mortes de civis em Bassora, e 17 policiais ficaram feridos em Nassariya.

Bode expiatório ideal, Karim Wahid, o ministro da Energia, um dos raros tecnocratas não afiliados a um partido no inchado governo de Nouri al-Maliki, apresentou sua demissão na segunda-feira ao primeiro-ministro, que a aceitou na quarta-feira (23).

A pasta da Eletricidade, em um país onde, pouco após a invasão militar anglo-americana de abril de 2003, o primeiro administrador enviado a Bagdá por Washington, Paul Bremer, prometia fazer da distribuição da energia uma de suas “prioridades”, foi temporariamente confiada ao ministro do Petróleo.

À frente de um governo que despacha seus assuntos cotidianos, Maliki, que pretende ser seu próprio sucessor se puder convencer seus parceiros eleitorais – três meses e meio após as eleições, ainda não conseguiu - , só pode designar um novo ministro com a aprovação de sua coalizão no Parlamento, em férias até 14 de julho.

“À toa”

Com uma produção nacional estimada em 5.700 megawatts (contra cerca de 4.000 nos últimos meses do reinado de Saddam Hussein) e após anos de um embargo internacional que impediu a modernização das usinas, o “novo Iraque” obteve inegáveis progressos. Mas com o surgimento de milhões de eletrodomésticos no país, a demanda no mínimo dobrou.

Desde sua invasão, os Estados Unidos teriam investido, segundo sua embaixada em Bagdá, US$ 4,6 bilhões nesse setor, ou seja, cerca de 40% de todos seus chamados gastos de “reconstrução”. Boa parte “à toa”, pois, como observa Samuel Ciszuk, um especialista independente em Bagdá, “até 2007” as usinas, os postes e os fios elétricos eram “regularmente dinamitados” pela guerrilha. Há quase três anos, os 18 mil quilômetros de linhas e as usinas têm sido mais bem vigiados e protegidos.

Entretanto, afirmou Maliki, “ninguém deve esperar que esse problema possa ser resolvido antes de no mínimo dois anos”. É no final de 2012 que a americana General Electric e a alemã Siemens deverão entregar duas novas usinas, atualmente em construção.

Enquanto esperam, milhões de iraquianos devem se contentar com 2 a 6 horas de eletricidade por dia, dependendo da cidade, do bairro, ou até de seus contatos nas altas esferas. “Se você mora perto da residência de um poderoso”, conta um morador de Bagdá, “tem grandes chances de ter energia de 15 a 16 horas por dia”. Não é o suficiente para conservar alimentos nas geladeiras, muito menos para refrescar, com ajuda de ventiladores ou aparelhos de ar condicionado, o ambiente das moradias escaldadas pelo Sol.

A outra opção, adotada por milhões de iraquianos, é o gerador. E ainda é preciso ter condições para comprá-lo e alimentá-lo com combustível. Muitos hospitais, especialmente no sul do país, recorreram a esse tipo de aparelho para ventilar as salas de emergência e de cirurgia. Os milhares de hospitalizados que não correm risco de morte se contentam em sair de seus colchões para passar noites quentes, ao ar livre, nos terraços.
 

Tradutor: Lana Lim

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