Presidente da Costa do Marfim pede investigação contra ministro

Philippe Bernard

  • Brennan Linsley / AP - 24.out.2000

     O presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo

    O presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo

Operação “mãos limpas” saudável, ou golpe político mortal em um processo eleitoral já atolado? À primeira vista, a investigação, aberta na quarta-feira (23) pelo procurador de Abidjan por ordens do presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, visa um personagem renomado entre os mais próximos do próprio chefe do Estado, o ministro do Interior Désiré Tagro, por fatos extremamente graves.

Segundo uma declaração da presidência divulgada no domingo (20), Tagro é suspeito de ter vendido as admissões aos concursos das escolas de polícia e de administração, de ter desviado subsídios do Estado destinados a financiar peregrinações a Meca, bem como somas pagas às vítimas do escândalo do lixo tóxico jogado em Abidjan em 2006.

Mais do que tudo, o ministro, que se encontra encarregado da organização da eleição presidencial esperada desde 2005 nesse país que não consegue sair da guerra civil, é suspeito de ter recebido “a soma de 10 bilhões de francos CFA [R$ 33 bilhões] (...) como comissão paga pela Sagem Sécurité”, a empresa francesa encarregada da organização técnica da eleição.

O processo contra o ministro do Interior visaria, na realidade, um processo já atolado, ou até o processo de paz civil saído do acordo assinado em Uagadugu (Burkina Fasso) em 2007? A suspeita se apoia na acusação indireta do primeiro-ministro Guillaume Soro, chefe da ex-rebelião das Forças Novas que controla o norte do país. A declaração presidencial de domingo na verdade implica furtivamente o primeiro-ministro – designando-o pela sua função, e não por seu nome – nas acusações de corrupção pela Sagem.

Além disso, ao acusar o ministro do Interior, organizador do processo eleitoral e da reconciliação nacional, o próprio presidente poderia visar esse processo. De forma significativa, a presidência tornou públicas as acusações contra Tagro e Soro na véspera do dia em que deveria iniciar uma nova fase de “verificação” da lista eleitoral, que deveria servir de base para uma eleição presidencial que vem sendo adiada há anos.

“Sucessão de impasses”

Além da organização das eleições, Tagro conduziu negociações que levaram ao acordo de Uagadugu. E foram as acusações públicas feitas no dia 2 de junho pelo presidente da Assembleia Nacional, Mamadou Koulibaly, outro aliado do chefe do Estado marfinense, que foram citadas com base em acusações presidenciais. Além dos atos de corrupção, Koulibaly havia criticado o acordo de paz como “uma sucessão de impasses habitados pelo amargor, pela dúvida e pela inércia”.

O primeiro-ministro demonstra essa serenidade, fingindo não se sentir afetado pelo procedimento iniciado por Gbagbo. “O público tem direito de saber a verdade nesse quadro que o chefe do Estado lançou”, declarou à Radio France Internationale, ao mesmo tempo em que chamava as “alegações” sobre ele de “totalmente infundadas”. A análise da oposição marfinense é menos serena. “Os objetivos do candidato-chefe do Estado, Laurent Gbagbo, são isentar seus amigos e partidários e sabotar o processo eleitoral”, disse, na terça-feira, Alphonse Djédjé Mady, diretor da União dos Houphouetistas pela Democracia e pela Paz (RHDP, sigla em francês), principal coalizão da oposição.

O verdadeiro objetivo do presidente Gbagbo deverá ser revelado dentro de um mês, prazo preciso curiosamente concedido pelo presidente à procuradoria (que normalmente é acionada pelo ministro da Justiça) para a investigação.

A operação poderá servir para afastar determinados participantes centrais do jogo político. Mas ela também poderá acabar isentando partidários do chefe do Estado. Enquanto espera sua conclusão, ela reforça a posição de força de um presidente que, eleito por cinco anos em 2000, de fato iniciou seu terceiro mandato.

Tradutor: Lana Lim

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