Guineanos votam na 1ª eleição democrática desde a independência em 1958

Christophe Châtelot

Moussa Dadis Camara perderá a chance de entrar para a História. Há dezoito meses, o ex-chefe da junta militar imaginava que seria um herói nacional, salvando a Guiné de seus abusos ditatoriais e de uma pobreza endêmica. A aventura afinal se afogou em descrédito e um banho de sangue. É longe da capital Conacri, em Uagadugu, onde é forçado a algo que se parece muito com um regime de prisão domiciliar, que Dadis Camara acompanhará as primeiras eleições democráticas organizadas em seu país desde a independência de 1958.

No domingo (27), 24 candidatos, todos civis, disputarão os votos de pouco mais 4 milhões de eleitores convocados para escolher um presidente. “É a primeira vez em 52 anos que paira um ar de liberdade e democracia sobre as eleições na Guiné”, comemora um diplomata ocidental. “Isso ainda não era evidente há algumas semanas, quando nos perguntávamos se as eleições aconteceriam”, diz.

Violência e pobreza

O balanço democrático da ex-colônia francesa é famélico. Desde a independência até o fim de 2008, somente dois homens presidiram o destino do país: Sékou Touré (1958-1984), ditador sanguinário, e Lansana Conté (1984-2008). Os últimos anos de poder do “general-presidente” Conté se atolaram na violência e na pobreza, geradas por um sistema de predação sistemática organizada por alguns seguidores que esgotaram esse país, detentor de um subsolo transbordante em riquezas minerais.

Com a morte de Lansana Conté, em 23 de dezembro de 2008, Moussa Dadis Camara, à frente de uma junta de jovens militares, recolheu um governo moribundo. Ele prometeu colocar a economia nos trilhos do desenvolvimento, lutar contra a corrupção e conter um tráfico de drogas que corroía as mais altas esferas do Estado. Cheios de esperança, os guineanos logo se desiludiram diante dos caprichos tragicômicos do imprevisível chefe da junta.

Seus onze meses à frente do país permancerão marcados pelo massacre de 28 de setembro de 2009. Nesse dia, dezenas de milhares de opositores se manifestaram em Conacri contra a vontade do capitão Dadis de se candidatar à eleição presidencial, apesar de sua promessa de devolver o poder aos civis. As forças de segurança atiraram contra a multidão, matando 156 pessoas, e estupraram dezenas de mulheres, segundo a ONU. Depois, em 3 de dezembro, Dadis Camara foi gravemente ferido na cabeça por seu ajudante-de-ordens, Toumba Diakité, que queria assassiná-lo.

Dadis Camara, que recebeu tratamento no Marrocos e depois foi enviado em convalescência forçada para Burkina Fasso, hoje parece inofensivo. A relativa tranquilidade que reina na região florestal da Guiné, de onde é originário, parece indicar que seus partidários não alimentam mais a esperança, pelo menos temporariamente, de vê-lo voltar em breve.

O destino do capitão Dadis foi selado em Rabat no dia 5 de janeiro, durante um encontro entre diplomatas franceses e americanos e o chefe interino do Estado, o general Sékouba Konaté. “Número dois da junta, ele foi fortemente incitado a garantir uma transição democrática mais breve possível. Acima de tudo, ele se comprometeu a impedir que Dadis Camara voltasse à Guiné”, lembra um diplomata africano. O general Konaté retomou assim o controle dos campos de treinamento situados na região florestal da Guiné. Ele afastou os oficiais que apoiavam o ex-chefe da junta. Paralelamente, o primeiro-ministro interino, Jean-Marie Doré, fazia o mesmo dentro do governo.

Poder nocivo

Mas teria Moussa Dadis saído totalmente do jogo político? Isso dependerá em parte do resultado da eleição. Se houver contestações violentas após a proclamação do resultado (o segundo turno poderá acontecer antes do fim de julho), ou se o novo presidente não conseguir satisfazer as enormes expectativas de uma população esgotada, ele poderia voltar a pensar em recorrer.

No entanto, ele permanece sob ameaça de processos judiciais pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por seu suposto papel no massacre de 28 de setembro. O procurador da TPI não seguiu a orientação do Conselho de Segurança da ONU que lhe recomendava aceitar o caso, mas a ameaça poderá se tornar realidade se o capitão Dadis decidir usar novamente seu poder nocivo.

Tradutor: Lana Lim

UOL Cursos Online

Todos os cursos