O projeto nuclear francês precisa fazer escolhas determinantes

Jean-Michel Bezat

  • 08.04.2010 - Lionel Bonaventure/EFE

    O presidente francês Nicolas Sarkozy em cerimônia militar em Thones, nos Alpes franceses

    O presidente francês Nicolas Sarkozy em cerimônia militar em Thones, nos Alpes franceses

Ele está parado há dois meses, com o carimbo de “confidencial”, no cofre-forte de Claude Guéant, secretário-geral do governo francês. O relatório de 140 páginas (fora anexos) sobre “a evolução da energia nuclear até 2030”- encomendado por Nicolas Sarkozy a François Roussely, ex-presidente do grupo EDF de energia – é esperado com impaciência pelos participantes desse setor industrial tão importante para a França, ainda que ele não ofereça uma reviravolta de cenário. O presidente da República deverá apresentar um projeto destinado a recriar a energia nuclear para exportação com base nas cerca de 50 recomendações contidas nesse relatório.

O fracasso de Abu Dhabi, onde a Coreia do Sul conseguiu um primeiro contrato de 15 bilhões de euros por quatro reatores, mostrou que a “equipe” francesa Areva-GDF Suez-Total, reforçada na última hora pela EDF, só tinha “equipe” no nome. Sarkozy quer “colocar ordem” para que as indústrias francesas “não façam concorrência de forma contraprodutiva”.

Uma “indústria nuclear francesa”. Para os criadores do programa francês dos anos 1970-1990, ela se compõe da EDF, da Areva NP (reatores), da Alstom (um terço das turbinas de usinas nucleares no mundo) e cerca de cem pequenas e médias empresas, observa Hervé Machenaud, diretor da divisão produção-engenharia da EDF. Mas duas forasteiras acabam de entrar no jogo: a GDF Suez, proprietária de 7 reatores belgas, que quer se desenvolver na França e no resto do mundo; e a Total, que assim inicia sua diversificação para preparar o pós-petróleo.

“Há um imenso mercado para a França. Nós temos campeões nacionais em cada uma das áreas, agora é preciso coordená-los de forma competente”, observou Henri Guaino, assessor especial de Sarkozy, durante recente colóquio. O governo pensa em uma administração centralizada, junto ao gabinete da presidência ou do primeiro-ministro. Ela coordenaria a oferta francesa nos países candidatos à energia nuclear, mas desprovidos de cultura nuclear (segurança, gestão de dejetos...), de um poderoso grupo de eletricidade e de base industrial. “Mas ninguém poderá contornar a EDF”, avisa seu presidente, Henri Proglio, fortalecido pela referência que lhe dá a exploração de um parque padronizado de 58 reatores.

Uma gama de reatores incompleta. O que vender para fora? Desde o fracasso de Abu Dhabi, Paris entendeu que é preciso reservar o reator EPR para os grandes países (China, Índia, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Itália...). Proglio, Anne Lauvergeon, presidente da Areva, e Gérard Mestrallet, presidente da GDF Suez, concordam pelo menos em um ponto: é preciso “enriquecer a gama” e não se contentar com o reator de terceira geração da Areva – potente demais (1650 mW), caro demais (4 a 5 bilhões de euros) e sofisticado demais para alguns países. “Não poderemos atacar o mercado mundial somente com um Rolls Royce”, resume Mestrallet. Um outro diretor do setor alerta: “Cuidado para não repetir o Concorde com o EPR!”, proeza tecnológica franco-britânica e... fiasco comercial. O consenso para por aí: a EDF discorda da GDF Suez quanto ao reator de potência média a defender para exportação. E reluta em lhe transferir seu conhecimento sobre o EPR.

Desenvolvimento de parcerias. Em um mercado que poderia atingir mil reatores até 2040, segundo Proglio, as parcerias serão a regra. “A Coreia do Sul passou na nossa frente. Amanhã, a China também entrará no mercado nuclear mundial. Isso quer dizer que é o fim da solução única”, observou diante do quadro de diretores da EDF. Pois primeiro será necessário responder às exigências dos clientes. A França não pode chegar – em todos os lugares – com uma brigada industrial especificamente francesa.

“Nós não faremos com que a indústria francesa da produção energética vença o resto do mundo”, disse o diretor da EDF. Na Índia, nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha ou na China, os franceses não têm outra escolha além de se associarem com parceiros locais, transferir tecnologia (China, Índia...) e movimentar a indústria local. As indústrias começaram a fazer parcerias com fabricantes e companhias de eletricidade estrangeiras. Na Itália, a GDF Suez decidiu se aliar com a E.ON, número um alemã do setor de eletricidade, para participar da retomada do setor nuclear (pelo menos 8 reatores até 2030). A EDF e a italiana Enel já fecharam acordos para quatro reatores EPR. Os franceses deverão trabalhar com grandes participantes locais, como a Ansaldo Energia.

A EDF e a Rosatom assinaram, em 19 de junho, um acordo de cooperação (pesquisa e desenvolvimento, combustível...). O diretor da agência federal russa nuclear, Sergei Kirienko, quer ir mais além. Por que os dois grupos não venderiam a países fora da União Europeia reatores russos VVER, dos quais a EDF modernizou algumas unidades na Europa Central nos anos 1990? E por que a EDF se recusaria a se associar, caso a caso, com a americana General Electric ou a nipo-americana Toshiba-Westinghouse – principais concorrentes da Areva no setor de reatores? “Não descarto nada”, repete Proglio.

A dupla EDF-Areva continuará estruturante, mas a indústria “francesa” será cada vez menos francesa à medida que o mercado nuclear se desenvolve. A União Europeia também quer defender suas indústrias, apostando na segurança. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, anunciou no início de março uma iniciativa para que os europeus estabeleçam coletivamente critérios de segurança e de não-proliferação mais rígidos, e os torne “juridicamente restritivos em todo o mundo”. A batalha também pode acontecer entre “low cost” e “high-tech”.

Os projetos se proliferam

434 reatores estão ativos hoje no mundo, e 57 estão em construção, segundo a World Nuclear Association.

Construções: o programa chinês é o mais ambicioso, pois prevê dezenas de reatores na próxima década. Hoje, 23 reatores, sendo dois EPR franceses (terceira geração) estão em construção. A Coreia do Sul está construindo 6, Taiwan 2, a Índia 6, o Paquistão 1 e o Japão 1. O Irã quer colocar seu primeiro reator em serviço em 2010, se os russos lhe fornecerem combustível. A Rússia tem 10 reatores em construção.

Na Europa, o número é mais modesto: 1 na França, 1 na Finlândia, e 2 na Eslováquia. E no Brasil, nos Estados Unidos e na Argentina, somente 1 em cada país está sendo construído.

Fechamentos: entre 1950 e 2008, 121 reatores foram interrompidos, na Europa (75), na América do Norte (31) e nos países do ex-bloco soviético (12).

Tradutor: Lana Lim

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