Wolf: o efeito dos cortes orçamentários no crescimento das economias

Martin Wolf

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Diante de enormes déficits orçamentários, muitos governos ocidentais concluíram que seria preciso fazer o mais rápido possível um corte orçamentário na esperança de que este tivesse um efeito expansionista.

Suas chances de conseguir são mínimas, na minha opinião. Há alternativas melhores que se podem considerar, mas elas têm o inconveniente de não serem ortodoxas. Muitas pessoas “sensatas”, infelizmente, preferem recessões ortodoxas a recuperações não-ortodoxas.

Então por que um severo corte orçamentário seria capaz de favorecer a retomada? Como observaram Alberto Alesina e Silvia Ardagna (Harvard), em um artigo notável, a perspectiva de uma redução dos déficits orçamentários poderia devolver a confiança aos consumidores e aos investidores, o que permitiria reavivar o consumo e diminuir os prêmios de risco das taxas de juros (“Large Changes in Fiscal Policy”, Working Paper 15.438, www. nber.org). Além disso, um corte orçamentário poderia aumentar a oferta de mão de obra, de capitais e de empreendedores.

Os autores concluem que os ajustes orçamentários “com base em uma diminuição dos gastos e sem aumento de impostos têm mais chance de reduzir a proporção entre déficits e dívida em relação ao PIB (produto interno bruto) do que aqueles baseados em aumentos de impostos. Além disso, os ajustes operados no plano dos gastos e não do imposto têm menos chances de levar a recessões”. Essa argumentação reforçou a determinação de George Osborne, o novo ministro das Finanças britânico, em optar por um plano de austeridade especialmente rígido.

Mas seria ela convincente? Em uma palavra: não. Os autores reúnem dados sobre os membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) entre 1970 e 2007. Mas o impacto dos cortes orçamentários depende das circunstâncias.

Qualquer redução do déficit orçamentário deve ser compensada por uma volta do equilíbrio das balanças privadas e externas. Se quisermos que a contração orçamentária seja expansionista, as exportações líquidas devem avançar e os gastos privados aumentar, ou então a poupança privada deve diminuir.

É por isso que as consequências de um corte orçamentário serão muito diferentes dependendo dos seguintes fatores: se será feito simultaneamente em alguns países menores, ou em muitos países maiores; se o setor privado estará isento de dívidas ou, pelo contrário, estará fortemente endividado; se as taxas de juros estarão elevadas ou próximas de zero; se a demanda externa estará dinâmica ou anêmica; e, por fim, se as taxas de juros reais estarão fortemente depreciadas ou, pelo contrário, permanecerão estáveis.

Em suma: como acontece hoje, quando as economias afetadas pela fragilidade do setor financeiro representam a metade (e até, se contarmos a economia japonesa, quase 60%) da economia mundial; quando a economia mais dinâmica do mundo – a China – se entrega ao mercantilismo; quando as taxas de juros estão próximas de zero; e quando o crédito é limitado para pessoas físicas e empresas, a ideia segundo a qual um corte orçamentário rápido terá efeitos fortemente expansionistas é certamente uma ideia heroica. Espero que isso aconteça. Mas não há muita razão para acreditar nisso.

Um outro estudo, realizado pelo “think tank” americano Committe for a Responsible Federal Budget, estudou os casos do Canadá, da Dinamarca, da Finlândia, da Irlanda e da Suécia. O que se revelou foi a importância da demanda externa e, em diversos casos, enormes depreciações das taxas de câmbio. Esses exemplos de sucesso são realmente aplicáveis aos Estados Unidos e à Europa atuais? Duvido.

Uma outra abordagem consiste em buscar uma situação que se pareça com a situação atual. O paralelo que logo vem à mente são os anos 1930. Um estudo publicado em 2009 (Almunia et al., “The Effectiveness of Fiscal and Monetary Stimulus in Depressions”, www.voxeu.org) concluía que uma retomada orçamentária, quando se tentava, era eficaz. Então aconteceu que, na época, um corte orçamentário teria sido – e foi, de fato – deflacionista.

Mas então, inevitavelmente argumentariam, qual é a alternativa? Se esses enormes déficits orçamentários se prolongarem, os mercados ficarão com medo, as taxas de juros vão disparar, e a dinâmica da dívida se tornará realmente alarmante.

Tenho duas respostas para esses argumentos.

A primeira, sobre a qual discorri na semana passada, é que o ciclo do desendividamento gera gigantescos excedentes financeiros do setor privado em todo o mundo desenvolvido. Esses excedentes devem, no momento, ser investidos em obrigações do Estado. Isso explica em parte por que os rendimentos sobre os títulos dos governos mais seguros continuam tão baixos.

A segunda resposta é que, ainda que os governos sejam obrigados a aprofundar os déficits para manter a demanda em um período de enfraquecimento do setor privado, eles sempre podem pedir empréstimos junto aos bancos centrais. Sim, eu sei, isso se chama “mandar imprimir cédulas”. E é essa política loucamente radical recomendada em 1948 pelo notório louco radical que era... Milton Friedman. Ele era da opinião de que o governo podia muito bem aumentar a massa monetária em períodos de recessão, e contraí-la uma vez que o crescimento voltasse. Um país dotado de uma moeda flutuante pode estabilizar a economia sem desestabilizar os mercados do crédito.

Estaria eu recomendando a política de Robert Mugabe, o presidente do Zimbábue, que levou seu país a uma catastrófica hiperinflação? Não. Como em qualquer caso, é o contexto que importa.

Por enquanto, nós temos “muito pouco dinheiro para muito poucos produtos disponíveis”. Em um ambiente como esse, a política monetária deve ser agressiva. Quando a economia se recuperar, os efeitos monetários deverão ser eliminados através dos excedentes orçamentários obtidos graças ao controle a longo prazo dos gastos. A curto prazo, modificações feitas no plano dos coeficientes de reservas poderiam contrabalançar o impacto sobre a expansão monetária do aumento dos depósitos dos bancos comerciais junto ao banco central. Mas, como na prática a massa monetária depende mais da demanda de crédito do que de reservas, é até possível que isso não seja necessário.

A opinião popularmente aceita é que uma contração orçamentária estrutural, forte e coordenada, centrada nos gastos, permitirá que mil flores privadas desabrochem. Espero que seja o caso. Mas duvido. Os governos deveriam se apressar lentamente. Se eles se apressarem rápido demais, poderão – e nós também – logo se arrepender.

Tradutor: Lana Lim

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