Em 16 meses de governo, Obama já demitiu uma dezena de pessoas

Corine Lesnes

  • Larry Downing/Reuters

    Obama confirmou a demissão do general Stanley McChrystal em um pronunciamento na Casa Branca

    Obama confirmou a demissão do general Stanley McChrystal em um pronunciamento na Casa Branca

O afastamento na quarta-feira da semana passada (23) do general Stanley McChrystal, que comandava mais de 100 mil homens no Afeganistão, foi a demissão mais impressionante na Casa Branca. E provavelmente continuará sendo uma das decisões mais contundentes do mandato de Barack Obama. De Désirée Rogers, a elegante chefe do cerimonial de Chicago, até o almirante Dennis Blair, diretor nacional da Inteligência, a lista de pessoas demitidas pelo presidente americano não para de crescer desde que chegou a Washington.

Longe do romantismo, o modo de funcionamento da Casa Branca esconde decisões brutais. É melhor não perder a confiança do presidente. “Ele parece aberto ao debate e deliberativo, mas no final das contas, é frio nas suas decisões”, escreveu o jornal “New York Times” na quinta-feira (24).

Com sua visão em preto e branco do mundo --“conosco ou contra nós”--, George Bush era obstinadamente fiel a seus amigos. Obama, aparentemente, não é sentimentalista, ainda que demore um pouco nas execuções. Em 16 meses, ele já demitiu uma dezena de pessoas.

Militares de alta patente, como o general David McKiernan, antecessor de Stanley McChrystal à frente das forças no Afeganistão, se tornaram convencionais demais para a nova estratégia “Af-Pak”. E o diretor de assuntos militares da Casa Branca, Louis Caldera, foi dispensado sem dó por ter autorizado o sobrevoo do "Marco Zero" --local onde ficavam as torres gêmeas destruídas em 11 de setembro-- em Nova York pelo avião presidencial Air Force One, para uma sessão de fotos.

A Casa Branca não hesitou em dispensar pessoas próximas que se tornaram incômodas. Os republicanos podem, dessa forma, se gabar de terem conseguido a “cabeça” de um certo número de progressistas da ala esquerda democrata. Como Van Jones, em setembro de 2009. Barack Obama havia feito desse militante, formado em Yale, seu “czar” para a criação de empregos verdes. Mas o apresentador de televisão de extrema direita Glenn Beck o acusou de ter feito parte de um grupo revolucionário nos anos 90 e de ter assinado uma petição revisionista sobre os atentados do 11 de setembro.

Van Jones foi alvo de uma campanha diária no programa de Glenn Beck na Fox News, e a Casa Branca não o defendeu. No final, sua demissão foi aceita, o que deixou um sentimento de amargura na esquerda do partido democrata.

Em nome da política, Barack Obama se afastou de certos amigos como o jurista Greg Craig, que não hesitou em “trair” os Clinton para trabalhar em sua campanha eleitoral a partir de 2006. Greg Craig foi o autor do compromisso de fechar Guantánamo em um ano. Ele havia preparado os decretos. Diretor do serviço jurídico da Casa Branca, ele foi vítima da virada estratégica de Barack Obama sobre a segurança nacional. Quando cresceram os rumores sobre seu desligamento do caso “Gitmo”, a Casa Branca primeiramente desmentiu. “Greg ainda estava no Salão Oval nesta manhã”, respondeu Robert Gibbs, porta-voz do presidente.

Foi somente meses mais tarde que sua saída foi oficialmente negociada. Greg Craig leu na imprensa tudo aquilo pelo qual ele não sabia estar sendo criticado: sua proximidade com as organizações de defesa dos direitos humanos; sua “obsessão” com Guantánamo. Seu destino foi selado no dia em que ele mesmo acompanhou até Bermudas quatro uigures (povo de origem turcomena) que estavam detidos em Guantánamo há sete anos. Rahm Emanuel, o “realista”, afirmou que ele não era feito para a Casa Branca e Barack Obama concordou. O presidente tem “uma abordagem clínica quando se trata de separar trabalho de amizade”, afirma Jonathan Alter em seu livro sobre o primeiro ano de mandato (“The Promise”, Ed. Simon & Schuster). Greg Craig recebeu a oferta de uma embaixada ou um posto na magistratura. Magoado, ele recusou.

Nem os partidários do círculo de Chicago foram poupados, como Désirée Rogers, a “secretária social” da Casa Branca, que era glamurosa demais para esses tempos de recessão e, dizem, para Michelle Obama. Originária da Louisiana, esbelta, vestida por estilistas de alta costura, Désirée Rogers foi a primeira afro-americana encarregada do cerimonial da presidência, e também a primeira a ter um MBA de Harvard.

Seu primeiro jantar de Estado, para o primeiro-ministro indiano, em novembro de 2009, foi marcado por um incidente: o aparecimento de um casal que não havia sido convidado, mas que chegou vestido de gala e conseguiu burlar a segurança. Os Salahi queriam publicidade. Logo no dia seguinte, colocaram fotos do jantar em sua página do Facebook. Ninguém se machucou: os “party crashers” (penetras) passaram como todo mundo pelos detectores de metais, mas Washington fez disso uma questão de Estado.

Désirée Rogers não pôde dar seu depoimento. A Casa Branca não lhe deixou se explicar, para proteger o Serviço Secreto, encarregado da proteção do presidente. Foram os rumores generosamente publicados na imprensa que afinal preparam sua saída. Ela foi descrita como visível demais (no jantar de Estado, ela usava um vestido Comme des Garçons); marqueteira demais (falou em “marca Obama”). Os financiadores da campanha eleitoral se queixaram de não terem recebido cartões de cumprimentos da Casa Branca... a saída de Désirée Rogers foi anunciada discretamente dois meses após o incidente do jantar.

Tradutor: Lana Lim

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