A relação entre Israel e Estados Unidos continua a se deteriorar

Sylvain Cypel

  • Ronen Zvulun/Reuters

    O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, durante encontro com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita oficial do representante americano ao país, na último dia 09/03

    O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, durante encontro com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita oficial do representante americano ao país, na último dia 09/03

Assentamentos, bloqueio de Gaza... Desde a entrada de Barack Obama na Casa Branca, em janeiro de 2009, e a formação, dez semanas depois, do governo Binyamin Netanyahu em Israel, incidentes diplomáticos, dissensões abafadas e escândalos não param de acontecer entre os dois países. Toda vez são aplainados, e ressurgem depois com mais intensidade.

Claro, Netanyahu parabenizou o presidente americano após a votação do Congresso sobre as novas sanções contra o Irã. E Obama recentemente assinou um cheque somando US$ 205 milhões em ajuda militar a Israel. Entretanto, o sentido geral da relação é o de uma deterioração.

A imprensa americana destacou o recente alerta do chefe do Mossad (serviço secreto israelense), Meir Dagan. Segundo ele, Israel “vem gradualmente passando de trunfo a fardo para os Estados Unidos”. De fato, não se tem lembrança de um governo israelense que tenha sido impossibilitado de enviar seu novo ministro das Relações Exteriores a Washington durante mais de um ano, como é o caso de Avigdor Lieberman. Ex-embaixador em Tel-Aviv, Daniel Kurtzer mencionou recentemente o “crescente distanciamento na visão” que os dirigentes americanos e israelenses têm sobre o Oriente Médio.

Dois episódios recentes ilustraram isso. No dia 28 de maio, após a conferência da ONU de acompanhamento do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), os Estados Unidos votaram a favor de um texto que exigia que Israel assinasse esse tratado e abrisse suas instalações nucleares aos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Obama se declarou “em desacordo” com o fato de que Israel fosse o único criticado. Mas após a conferência, ele lembrou que os Estados Unidos “sempre pressionaram todos os países a se tornarem membros do TNP”. Esse voto constituiu uma perigosa novidade para os israelenses. Washington votou de acordo com o desejo dos países árabes e aceitou abrir o caminho para um futuro controle internacional do arsenal nuclear do Estado judaico, algo que ele sempre recusou.

Desde então, Netanyahu enviou aos Estados Unidos seu ministro da Defesa, o trabalhista Ehud Barak. Este último teria recebido a resposta de que Washington ofereceria todas as garantias necessárias a Israel para que este aderisse à ideia de um Oriente Médio desnuclearizado “... e avançasse também na questão palestina. Segundo diferentes fontes, a atitude israelense sobre o TNP e sua pressão por uma ação urgente frente à ameaça nuclear são vistas em Washington como um tema de crescente constrangimento.

O segundo motivo de exasperação na capital americana está ligado à Turquia, aliada dos Estados Unidos e membro da Otan. No caso da “flotilha humanitária” para Gaza que foi atacada em águas internacionais pelo exército israelense no dia 31 de maio, os Estados Unidos haviam pedido a Israel que agisse com “prudência e moderação”. Após o ataque, sem participar da crítica universal a ele, Washington não escondeu sua irritação. Desde então, procura restaurar a relação entre Ancara e Jerusalém. O Estado judaico, explica um diplomata em anonimato, sabe que os turcos são um parceiro-chave aos olhos de Washington, para administrar bem sua retirada militar do Iraque. Apesar disso, Israel não hesitou em piorar ainda mais uma relação Ancara-Washington já um tanto degradada pela divergência sobre as sanções contra o Irã. Muitos acreditam que esse caso deixou marcas mais profundas do que parece na relação entre EUA e Israel.

Ex-secretário de Estado adjunto para o Oriente Médio da administração Clinton, Martin Indyk deu esses conselhos, no “Washington Post”: Obama deveria convidar seu colega para um passeio privado em Camp David e Netanyahu seria instruído a fazer um “verdadeiro esforço” para restaurar a imagem de Obama em Israel.

Tradutor: Lana Lim

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