BP se prepara para iniciar uma perfuração muito arriscada no Ártico

Bertrand d'Armagnac

Alvo de todas as críticas após a maré negra no Golfo do México, provocada pela explosão de sua plataforma petrolífera, a BP (antiga British Petroleum) continua, apesar de tudo, a mexer seus peões. A companhia britânica quer iniciar até o final do ano um projeto bastante peculiar.

A administração Obama persiste na moratória

A administração Obama perdeu na Justiça, na quinta-feira (8), uma apelação destinada a relançar a moratória às perfurações petrolíferas em águas profundas.

No dia 22 de junho, um juiz da Louisiana anulou a moratória de seis meses às perfurações offshore decretada em 27 de maio pelo presidente americano, após a explosão da plataforma Deepwater Horizon. A apelação contra essa anulação ainda deve ter julgamento de mérito. De qualquer forma, o governo previu instaurar uma nova moratória às perfurações profundas.

Além disso, a administração Obama estabeleceu para a BP, na quinta-feira (8), um prazo de 24 horas para apresentar seu novo mecanismo de combate contra a maré negra no Golfo do México.

A gigante britânica deve, entre outras coisas, instalar um novo funil sobre os poços para recuperar mais petróleo. A BP indica que, “idealmente”, ela gostaria de conter o vazamento até 27 de julho – dia da publicação de seus resultados semestrais. Um objetivo que parece pouco realista.

A gigante petrolífera pretende atingir uma jazida chamada Liberty por meio de uma perfuração subterrânea na horizontal por cerca de 12 quilômetros. Com os riscos tecnológicos inerentes a um projeto como esse, em um meio como o Ártico, onde as condições de perfuração são mais difíceis do que em outros lugares: frio extremo, gelo à deriva, forte corrosão, etc.

Apesar de tudo, a determinação da BP permanece intacta. E a companhia não mede esforços para levar a cabo seu projeto, com oportunismo: ainda que o campo petrolífero Liberty esteja situado sob o fundo do mar, a vários quilômetros ao norte da costa do Alasca, ele não é afetado pela decisão tomada em maio pela administração Obama de suspender até o final do ano novas perfurações offshore no Golfo do México e no Oceano Ártico.

A BP na verdade previu conduzir essa operação a partir de duas ilhas artificiais, ligadas entre si e à terra, cobrindo mais de 25 hectares. A empresa as construiu em 1987 para explorar uma jazida petrolífera chamada Endicott, que veio a dar seu nome a essa pequena península.

Portanto, como a perfuração se faz a partir dessas ilhotas de cascalho, ela conseguiu com que a nova agência federal que administra a exploração petrolífera, o Bureau of Ocean Energy Management (ex-MMS), considerasse o projeto como terrestre.

Para além dessa pequena adaptação “semântica”, as associações de defesa do meio ambiente se mostram muito preocupadas: “O projeto vai até os limites da técnica atual”, segundo Melanie Duchin, do Greenpeace Alaska. Além de tudo, as condições hostis do Ártico tornariam muito difícil a organização de socorro em caso de acidente.

Para conseguir explorar a jazida, a BP encomendou um sistema de perfuração sob medida. Esse tipo de operação, chamado de “extended reach” [de longo alcance], requer equipamentos sofisticados a fim de furar os poços e implica administrar da melhor forma possível pressões muito fortes durante a recuperação do petróleo.

“As tecnologias que pretendemos utilizar para nossos poços Liberty são testadas pela BP e por outras operadoras no mundo”, responde Robert Wine, porta-voz da companhia britânica.

O custo total do projeto chega a quase US$ 1,5 bilhão (R$ 2,64 bilhões). Vale a pena, uma vez que quase 100 milhões de barris poderão ser extraídos da reserva Liberty.

Além do aspecto tecnológico, as associações de defesa do meio ambiente também apontam para os antecedentes pouco brilhantes da BP na região ártica. Em 2006, por exemplo, um de seus oleodutos que atravessam o norte do Alasca, na direção da baía de Prudhoe, teve grandes vazamentos por consequência de uma corrosão mal controlada. Em abril, as autoridades americanas dirigiram uma carta à petroleira para exprimir suas preocupações a respeito do oleoduto que liga Endicott ao do Trans-Alaska.

As ONGs também ressaltam uma má avaliação dos riscos ligados ao projeto Liberty. O estudo do impacto não teria sido conduzido de maneira suficientemente rigorosa, segundo Rebecca Noblin, da ONG Center for Biological Diversity no Alasca. “A agência federal que regula a indústria petroleira foi muito conivente com esta última, como foi o caso também no Golfo do México”, afirma. “O governo federal foi negligente com o projeto Liberty e chegou a permitir que a companhia petrolífera escrevesse boa parte do estudo de impacto ambiental”.

Nesse último ponto, a gigante britânica acredita que nada de anormal tenha sido cometido. “A BP Alasca submeteu informações de análise do impacto ambiental ao MMS, para que a agência as utilizasse da forma que melhor entendesse para preparar a auditoria do projeto”, afirma Robert Wine, da BP.

Um grupo de ONGs, incluindo o Greenpeace e o Sierra Club, enviou uma carta no dia 1º de julho a Ken Salazar, secretário do Interior do governo Obama, pedindo que este “adie” qualquer aprovação de licença à BP para o Liberty até que os serviços federais tenham conduzido uma auditoria ambiental completa do projeto, que leve em conta as capacidades reais da empresa de garantir um plano de resposta a um acidente industrial no Ártico. “A BP está atualmente de mãos totalmente atadas por seus esforços para tentar remediar a maré negra no Golfo do México, e não teria sentido nenhum autorizá-la a se lançar em um projeto cuja tecnologia é nova”, observa Rebecca Noblin.

Frente ao acúmulo de problemas, a BP dá a entender que o início das operações poderá ser adiado e não acontecer no outono, como previsto há alguns meses. “Nós esperávamos começar a perfuração até o fim do ano, mas é mais provável que isso só seja feito em 2011, para iniciar a produção no mesmo ano”, conta Robert Wine.

Esse atraso dá um pouco mais de tempo para as ONGs tentarem mobilizar a opinião pública e a administração Obama frente aos riscos do Liberty.

Tradutor: Lana Lim

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