Gregos estão "contrariados" com a reforma da aposentadoria e das medidas de austeridade

Catherine Georgoutsos

  • 8.jul.2010 - Yannis Behrakis/Reuters

    Manifestante protesta diante de grupo de policiais durante paralisação em Atenas, Grécia

    Manifestante protesta diante de grupo de policiais durante paralisação em Atenas, Grécia

O governo socialista de Georges Papandreou, que iniciou uma política de rigor sem precedentes, afirma que o plano de recuperação está no caminho certo

“Contrariada” com uma reforma da aposentadoria que prolongará “em pelo menos cinco anos, e por uma miséria”, seu tempo de trabalho, Despina (o nome foi mudado) entrou em greve nesta quinta-feira (8). Convocado pelos principais sindicatos, um dia de ação - o sexto organizado na Grécia desde fevereiro contra o plano de austeridade e os cortes nos benefícios sociais - , paralisou o sistema de transporte e os serviços públicos.

Mas Despina, funcionária pública de 48 anos, não foi percorrer as ruas. As passeatas reuniram somente um núcleo de manifestantes e de militantes sindicais, pouco mais de 15 mil em Atenas, como durante a última greve nacional, no dia 29 de junho.

Despina, que não se resignou, tem certeza de que “as pessoas acabarão se rebelando”. Agora ela apoia a oposição comunista. “Prefiro cortar uma mão a votar novamente em socialistas”, jura. “Mas eu estava cansada demais para me manifestar. Aqui, além de seu emprego, uma mulher assume sozinha todo o peso da casa, dos filhos, sem contar os pais e sogros quando eles envelhecem. É inaceitável que isso não seja levado em conta”, se revolta.

Aprovada na noite de quinta para sexta-feira pela maioria socialista, depois de muitos descontentamentos internos, a reforma alinha a idade de aposentadoria das mulheres - até então de 60 anos - com a dos homens, 65 anos. Além disso, o texto corta inúmeras isenções que permitiam, por exemplo, que uma funcionária mãe de filhos menores se aposentasse após 25 anos de atividade. O novo sistema reduz também em 7%, em média, o montante das pensões e impõe 40 anuidades, contra as 37 de antes.

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Denunciando uma “destruição do sistema de proteção social”, os sindicatos afirmam querer continuar a luta para obter o recuo da reforma, ainda mais porque ela facilita também as demissões e reduz suas indenizações.

Para o governo socialista, que iniciou essas reformas em troca de ajuda financeira da zona do euro e do Fundo Monetário Internacional (FMI), trata-se de garantir a viabilidade de um sistema ameaçado de colapso, que absorve 13,5% do produto interno bruto, e de torná-lo mais justo.

Mas Despina não acredita nisso: “É verdade que, desta vez, até os policiais foram afetados, eles não poderão mais se aposentar aos 45 anos, mas por que nivelar todos por baixo para corrigir os excessos? Mais uma vez, são os trabalhadores que pagam o pato”.

“Era preciso recolocar as coisas em ordem, mas isso foi brutal demais”, acredita Zafiria Hadzi, 44, funcionária do Correio há 23 anos. Por uma questão de seis meses, ela poderia se aposentar aos 45 anos, “o que, francamente, não teria sido certo”. Como ainda se beneficia de um regime transitório, ela trabalhará até os 58 anos. “Não tenho do que me queixar, o problema é para os mais jovens, que estudaram mais e demoraram mais para encontrar trabalho. E continuará sendo mais difícil para as mulheres, até que se mudem as mentalidades”. Foi por causa do “desgaste” resultante desse “acúmulo de papéis, sem o apoio de uma política familiar”, que Dimitra finalmente decidiu, aos 51 anos, se aposentar antecipadamente do ministério da Economia, onde trabalha há 30 anos. “Tenho muito medo de ser pega pelo endurecimento generalizado, e com a redução de meu salário e os cortes previstos para as aposentadorias acima de 1.400 euros, é fácil calcular”, se alarma.

Com o plano de austeridade, os salários dos funcionários públicos já sofreram um corte de 15%, em média. Os gregos também enfrentam uma recessão, que faz disparar o desemprego, e com uma alta do custo de vida, induzida pelo aumento das deduções indiretas. Dimitra tem a sorte de ter terminado de pagar sua hipoteca. “Mas tenho muitos colegas que começam a se desesperar”. Ciente do risco social e político, o governo tem falado nos últimos dias sobre o tema do “fim do túnel”. Após cinco meses de reformas rápidas, Atenas pode afirmar que o plano de recuperação está no caminho certo, com a confirmação de seus financiadores, a União Europeia e o FMI.

Tanto no exterior quanto entre as autoridades econômicas nacionais, reconhece-se que o primeiro-ministro, Georges Papandreou, colocou o dedo na ferida como seus antecessores nunca ousaram fazer. Mas os efeitos de uma terapia de choque que Dimitra compara a “uma experiência sócio-econômica com os gregos como cobaias” estão só começando a ser dolorosamente sentidos.

Tradutor: Lana Lim

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