"Precisaremos ter a coragem de ajustar nossa estratégia no Afeganistão", diz assessor de Obama

Sylvie Kauffmann e Gilles Paris

  • Jason Reed/Reuters

     James Jones (esq.) é assessor de Segurança Nacional de Obama e participou de reunião do G20 ao lado do presidente dos EUA, em Toronto (Canadá)

    James Jones (esq.) é assessor de Segurança Nacional de Obama e participou de reunião do G20 ao lado do presidente dos EUA, em Toronto (Canadá)

Em visita a Paris, James Jones, assessor de Segurança Nacional do presidente Barack Obama, explica ao “Le Monde” o cronograma americano e a possível reavaliação estratégica militar

De passagem por Paris, onde se encontrou com Jean-David Lévitte, o assessor diplomático de Nicolas Sarkozy, James Jones, assessor de Segurança Nacional do presidente dos Estados Unidos, respondeu às perguntas do “Le Monde” sobre a situação no Afeganistão e a substituição do chefe das forças da Otan, assumidas pelo general David Petraeus, depois que o general Stanley McChrystal foi dispensado após declarações controversas à imprensa.

Le Monde: Qual a sua análise da situação no Afeganistão após o caso McChrystal?

James Jones: O general Petraeus agora está bem instalado. Quando se fala no Afeganistão, é muito importante falar do país como um todo. Fala-se muito do sul, de Marjah, de Candahar, mas o resto do país também é muito importante, e lá há boas novas. Faremos uma avaliação da estratégia em dezembro, para ver se devemos ajustar um pouco nossos planos e nossas metas, mas ainda é cedo demais.

Também estamos trabalhando com nossos amigos paquistaneses que têm a responsabilidade por sua fronteira, cuja ultrapassagem pelas forças talebans constitui um grande problema. Esperamos que o exército paquistanês se comprometa de forma eficaz, mas é preciso reconhecer que, desde o ano passado, os paquistaneses estão fazendo um bom trabalho no vale do Swat e ao sul do Waziristão. Estamos trabalhando muito mais de perto, ainda não está perfeito, mas está melhor.

Le Monde: Que lições vocês aprenderam com o caso McChrystal?

Jones: É um caso encerrado, o presidente tomou uma decisão difícil, a maioria do povo americano acredita que ele tomou a decisão certa, e que ele a expôs de forma apropriada. Agora, continuamos. A principal lição foi que devemos tomar cuidado com o que se diz às pessoas ao seu redor.

Le Monde: O debate que ele suscitou sobre a estratégia no Afeganistão o preocupa?

Jones: O general McChrystal recebeu tudo que havia pedido: o apoio pessoal do presidente dos Estados Unidos, do secretário de Estado para a Defesa, dos chefes militares das forças americanas. Todo mundo o apoiou para ter sucesso nessa estratégia. Como eu lhe disse, ainda é um pouco cedo para tirar conclusões. O primeiro julgamento virá em dezembro, e as conclusões mais concretas em julho de 2011. O caso McChrystal soltou línguas na Europa.

Le Monde: Existe realmente uma afinidade de objetivos entre aliados no Afeganistão?

Jones: Espero que sim, porque trabalhamos muito para conseguir um acordo dentro da Aliança [Atlântica] antes de interromper esta estratégia. E participei dela. Parece-me que esse esforço é coletivo, não é um plano americano. Cuido do Afeganistão desde 2003, e nunca havia visto uma cooperação como essa, um comprometimento como esse entre aliados. Era isso que nos faltava até o ano passado.

Estamos todos comprometidos no plano militar, no das reformas e da reconstrução, no nível militar e civil. Certamente há aqueles que não concordam, muitos escrevem em nossos jornais todo dia, eu os leio para ver se eles têm alguma ideia melhor, mas não me convenço.

Le Monde: É possível dizer ao mesmo tempo “Vamos vencer no Afeganistão” e “Vamos embora”?

Jones: Você se esqueceu de uma palavra: “eventualmente”, vamos embora eventualmente. O que deve ficar claro é que o mês de julho de 2011 não marcará a saída total de nossas forças. É o período no qual, acreditamos, poderemos transferir mais responsabilidades para as autoridades afegãs. É razoável esperar que após dez anos de presença os afegãos possam tomar conta de seu destino. É impossível se resignar a ficar no Afeganistão durante vinte anos.

O prazo de julho de 2011 nos dá uma esperança, a de poder retirar algumas forças – o número não é pré-determinado - , para mostrar aos afegãos e a nossos próprios cidadãos uma nova direção, positiva, para que um dia a responsabilidade do Afeganistão volte aos cidadãos afegãos.

Le Monde: Quais serão os critérios de sua avaliação de dezembro?

Jones: Esperamos uma evolução positiva sobre o plano militar, sobretudo no sul. Vamos olhar para o resto do país, ver onde podemos colocar o exército afegão nas melhores condições para que ele possa conduzir operações de maneira independente, nas províncias mais pacíficas.

Na cúpula da Otan em Portugal, em novembro, esperamos poder anunciar várias províncias independentes do ponto de vista da segurança, do governo e da economia, o que daria a possibilidade de reajustar nossas forças e mostrar que há uma esperança e uma dinâmica. Isso também nos daria a possibilidade de realizar ajustes onde for necessário, para a avaliação do ano seguinte. Confiamos em nossa estratégia, mas se estivermos enganados, precisaremos ter a coragem de fazer um ajuste se necessário.

Le Monde: Quando começará a ofensiva sobre Candahar?

Jones: Ela já começou. Não é uma ofensiva clássica, mas sim progressiva, de presença e de limpeza. Não haverá uma grande ofensiva, seria um erro estratégico. Nós esperamos em dezembro ver uma mudança bastante significativa entre a situação na qual os talebans avançavam, um ano atrás, e a de hoje. É por isso que o Paquistão é importante.

Le Monde: Em quê?

Jones: Sinceramente, para conseguir sucesso no Afeganistão, todos os caminhos passam pelo Paquistão. Não é uma garantia de sucesso, mas o Paquistão pode nos permitir atingir mais facilmente nossos objetivos no Afeganistão. Esperamos que as autoridades paquistanesas entendam que o destino de seu país implica se comprometer contra o terrorismo, qualquer que seja ele, no Paquistão. Vamos ajudá-los, mas cabe a eles agir.

Tradutor: Lana Lim

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