Paraguai continua sendo assombrado pela ditadura do general Stroessner

Paulo A. Paranagua

  • AFP

    Ditador paraguaio Alfredo Stroessner, em foto de 1955

    Ditador paraguaio Alfredo Stroessner, em foto de 1955

Vinte anos depois de ter reatado com a democracia, o Paraguai encontra dificuldades para examinar as contas da ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989). Em 2008, a eleição para a presidência da república de um “bispo dos pobres”, Fernando Lugo, havia posto um fim a 61 anos de hegemonia do velho Partido Colorado (direita) e suscitado muita esperança. “Em matéria de direitos humanos, o governo Lugo fez pouco”, disse ao “Le Monde” o advogado Martin Almada, ex-prisioneiro político, de passagem por Paris.

Segundo ele, “saudosistas” do antigo regime dominam o poder judiciário e complicam o trabalho do chefe do Estado, apoiado por uma coalizão heteróclita.

Apesar de o Paraguai ser um país pobre, a fortuna – ilícita – da família Stroessner não foi confiscada. “Cinco bilhões de dólares (R$ 8,9 bilhões) se encontram protegidos, em contas secretas na Suíça”, garante Almada, que pediu à justiça paraguaia que proceda com as medidas necessárias para repatriá-los.

Como o general Stroessner conseguiu reunir tal soma? O Paraguai por muito tempo foi o paraíso do contrabando e da falsificação. Segundo Almada, o ditador se serviu tanto dos pedágios rodoviários quanto de propinas ligadas às grandes obras, como a usina hidrelétrica de Yacierta, na fronteira com a Argentina, e a de Itaipu, na fronteira com o Brasil. Um primo do general Stroessner, Agustín Matiauda, falou em US$ 2 bilhões. Na época da sucessão do general, morto no exílio em Brasília, em 2006, sua fortuna era avaliada em US$ 3 bilhões, segundo fontes judiciárias.

Na queixa que ele prestou à justiça paraguaia, dia 23 de junho, Almada dá os números de seis contas abertas na União de Bancos Suíços (UBS), na ex-Société de Banque Suisse (que depois se fundiu com o UBS) e na Unione di Credito, em nome do coronel Gustavo Stroessner Mora, filho mais velho do ditador, de Hiran Delgado Von Leppel, ex-presidente da Suprema Corte e advogado da família, de Gustavo Gramont Berres, ex-embaixador do Paraguai, e outros personagens.

Almada também pediu a revisão do processo do coronel Stroessner Mora por “apropriação indébita contra o Estado e outros delitos”. Até hoje, o herdeiro do ditador nunca foi condenado.

Martin Almada se tornou célebre em 1992 quando encontrou na delegacia de uma pequena cidade três toneladas de arquivos da “operação Condor”, o plano de coordenação das ditaduras militares sul-americanas nos anos 1970. Essa descoberta, que valeu ao advogado vários prêmios de direitos humanos, continua sendo a principal prova por escrito das reuniões e das decisões tomadas em conjunto pelos responsáveis pela repressão política na Argentina, na Bolívia, no Brasil, no Chile, no Paraguai e no Uruguai.

Os registros da polícia paraguaia permitiram dessa forma provar que um grande número dos 500 desaparecidos sob o regime de Alfredo Stroessner haviam sido presos pelas autoridades. Esses “arquivos do terror” (um milhão de páginas de documentos) fazem parte do patrimônio mundial da memória da Unesco. Eles estão em processo de inventário, com outros arquivos recuperados no Ministério do Interior e no Ministério da Defesa, em Assunção, capital do Paraguai.

Entretanto, uma pesquisa do Ministério da Educação revelou que 69% dos estudantes e dos professores paraguaios seriam a favor de um regime autoritário para conter a violência e a crise econômica. Isso explica a decisão, tomada no início de julho, de criar um museu virtual da memória histórica para disponibilizar online os 2.600 depoimentos e 14.000 documentos recolhidos pela comissão Verdade e Justiça. As proposições desta última haviam sido entregues ao presidente Lugo em agosto de 2008.

 

Tradutor: Lana Lim

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