Esquerda latino-americana tem envolvimento ambíguo com narcotráfico

Paulo A. Paranagua

O general Manuel Antonio Noriega, ex-ditador do Panamá, foi condenado pelo Tribunal Correcional de Paris, dia 7 de julho, por lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas. Durante o processo, ninguém levantou a questão do porquê esse comandante da Legião de Honra ter escolhido a França para esconder seus bens e considerar uma aposentadoria tranquila.

Os contatos franceses do ditador provavelmente lhe deram a sensação de que estaria protegido no país. Comprar material militar permitia estabelecer relações. Ser membro da Internacional Socialista também podia ajudar. Era e continua sendo o caso do Partido Revolucionário Democrático (PRD, esquerda), criado pelo regime militar panamenho, em 1979.

O jogo duplo do general Noriega, entre a CIA (agência de inteligência americana) e o serviços secretos cubanos, certamente serviu para despistar. Mas o mentor do general Noriega, o general Omar Torrijos, nacionalista e carismático, na época era incensado pela esquerda.

A guerrilha do narcotráfico das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, extrema esquerda) não foi a única a se envolver com os entorpecentes. No início, as Farc queimavam as plantações e fuzilavam aqueles que se envolviam com o tráfico. Depois, eles preferiram taxar os traficantes, como o general Noriega. As Farc acabaram utilizando a força de trabalho dos guerrilheiros, de origem rural, para plantar e produzir cocaína. A renda obtida lhes permitiu se livrarem de seus antigos camaradas do Partido Comunista colombiano.

Essa desenvoltura deu lugar a duas justificativas políticas. Por um lado, camponeses viviam bem desses cultivos ilícitos. Por outro, os possíveis danos à saúde pública, provocados pelo vício, recaíam sobre os Estados Unidos, principal mercado consumidor. Enfim, nada que perturbe a boa consciência “anti-imperialista”. Na Colômbia, assim como no Peru, a guerrilha do narcotráfico se alimentou do ressentimento social e do antiamericanismo pavloviano.

Na América Latina, também houve uma série de comprometimentos com o tráfico de drogas na esquerda e até mesmo na extrema esquerda. O caso que mais teve repercussão continua sendo o do general Arnaldo Ochoa, fuzilado em Cuba, no dia 13 de julho de 1989. Claro, o processo de Havana, assim como os processos de Moscou de antigamente, foi uma sinistra encenação, destinada a evitar a tentação de uma “perestroika” cubana, a recriar o pacto de sangue na cúpula do regime castrista e também para evitar uma iminente denúncia dos Estados Unidos quanto ao papel de Cuba na geopolítica do narcotráfico.

Mas o envolvimento do general Ochoa e dos irmãos Antonio e Patricio de la Guardia no tráfico era bem real. Não é preciso ser um especialista em Cuba para saber que nenhuma operação clandestina de tal envergadura seria possível sem se recorrer à mais alta esfera, ao “Líder Máximo”, Fidel Castro.

Quando cabeças começaram a rolar em Cuba, o general Noriega já estava na mira de seus ex-amigos americanos. A intervenção militar dos Estados Unidos no Panamá, no dia 20 de dezembro de 1989, estava sendo preparada. Assim como para suas inúmeras guinadas de 180 graus, Fidel Castro se distanciou do narcotráfico e transferiu a culpa para seus fieis colaboradores, dispostos a qualquer sacrifício para salvar a “revolução”.

Hoje, a guerra contra os traficantes corre solta no México, assim como acontecia na Colômbia. Parte da opinião pública sente falta da época em que o Partido Revolucionário Institucional (PRI, centro), no poder durante 61 anos, se mostrava mais conciliador, procurando na época acordos com os cartéis. O PRI também é membro da Internacional Socialista.

O crime organizado desestabilizou e se infiltrou na América Central, às vezes tornando os Estados impotentes. A Guatemala se tornou assim o paraíso da impunidade. Na Colômbia, as milícias paramilitares de extrema direita, tão envolvidas com as drogas quanto as guerrilhas, dispunham no Congresso de uma representação equivalente a um grupo parlamentar, sem contar inúmeros intermediários locais e regionais.

O tráfico e a lavagem de dinheiro exigem uma cooperação internacional. A cocaína dos países andinos é trocada por armas, e o dinheiro acumulado em Medellín provoca mortes nas favelas do Rio de Janeiro.

Frente a esse desafio regional, dois governos de esquerda, o da Venezuela e o da Bolívia, decidiram dispensar a DEA (agência antidrogas americana) e expulsaram seus agentes. Resultado: a Venezuela ficou totalmente aberta para os traficantes, especialmente para aqueles que encaminham a cocaína colombiana para a Europa, às vezes passando pela África.

Desde que o líder dos cultivadores de folhas de coca da região de Chapare, Evo Morales, foi eleito à presidência da Bolívia, no fim de 2005, a produção disparou. Morales não percebe o conflito de interesses, visto que ele aceitou ser seguidamente reeleito à liderança das federações de Chapare. Ora, a folha de coca da região andina de Los Yunga é destinada ao consumo tradicional – para ser mascada - , mas a produção do Chapare tropical alimenta a fabricação de cocaína. Da complacência ao comprometimento de princípios, é só um passo.

Tradutor: Lana Lim

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