O "Jornal do Brasil" não interessa a mais ninguém

Annie Gasnier

Rio de Janeiro

Nas bancas de jornal do Rio de Janeiro, perto de seus concorrentes, seu título sobre fundo azul e seu tamanho em formato berlinense,“europeu”, lhe dão um ar moderno. Que não foi o suficiente. Aos 119 anos, o “Jornal do Brasil”, que foi um dos diários mais influentes do Brasil no século 20, sumirá dos pontos de venda.

A partir de 1º de setembro, o jornal que todos aqui chamam pelas suas iniciais “JB”, deixará de ser impresso, para se tornar somente eletrônico, ao preço de uma assinatura mensal de 5 euros.

“Coerente com sua tradição de pioneiro, o jornal, mais uma vez, está à frente de seu tempo”, pode-se ler nas propagandas destinadas aos leitores. O proprietário, Nelson Tanure, lhes explicou em um longo artigo na semana passada: “Estamos saindo do papel para entrar na modernidade”, acrescentando que essa decisão se justificava também de um ponto de vista ecológico. Seu “JB” não vende mais que 17 mil exemplares por dia, e 22 mil aos domingos.

Seus concorrentes falam no “fim de uma agonia” e lembram sua rápida decadência. O jornal nasceu nos primeiros dias da República, com um tom nostálgico do Império, que não duraria. Respeitado, inovador, ele lançou modas e valorizou o fotojornalismo. Quando o Congresso de Brasília foi fechado pelos militares, em dezembro de 1968, o “jornal do Brasil” burlou a censura publicando em sua primeira página um boletim meteorológico: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos”, eram as previsões daquele dia.

Durante muito tempo, o “Jornal do Brasil” foi o diário da capital, editado e impresso no Rio de Janeiro, e vários grandes nomes e escritores lusófonos assinaram suas colunas: o Barão do Rio Branco, Rui Barbosa, Eça de Queirós ou ainda Carlos Drummond de Andrade.

Um tempo que se foi há décadas. O “JB” vinha sofrendo graves problemas financeiros há quinze anos. Em 2001, o título fora comprado da família Nascimento Britto por Nelson Tanure, um empresário de Salvador (Bahia) especializado em compra e recuperação de empresas à beira da falência. As dívidas chegavam a 340 milhões de euros. Pouco após seu salvamento, as vendas passaram de 76 mil para 100 mil exemplares. No Brasil, desde 2004, a distribuição de jornais aumentou 31%.

Nelson Tanure sonhava em construir um império da mídia. Ele comprou o jornal de economia “Gazeta Mercantil” e lançou o canal de televisão “JBTV”. Investimentos fracassados que acentuaram a decadência do “JB” e aprofundou sua dívida, para 450 milhões de euros.

O jornal está à venda, mas não interessa a ninguém, e seu principal acionista teria confessado em off que, por falta de comprador, ele fechará em dezembro, uma empresa que ainda tem 180 funcionários, entre os quais 60 jornalistas. Ele investiu em uma empresa de telefonia.
 

Tradutor: Lana Lim

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