França fracassa na tentativa de recuperar refém e teme retaliação da Al Qaeda

Nathalie Guibert e Isabelle Mandraud

  • Thomas Samson/AFP

    Michel Germaneau, aposentado francês de 78 anos de idade que é mantido refém no Mali pela Al Qaeda

    Michel Germaneau, aposentado francês de 78 anos de idade que é mantido refém no Mali pela Al Qaeda

As autoridades francesas esperavam pelo pior, na manhã desta sexta-feira (23). A França não tem mais nenhuma prova, direta ou indireta, de que seu refém detido em Mali, Michel Germaneau, esteja vivo. “Estamos extremamente preocupados”, declarava uma fonte confiável em Nuakchott, após o fracasso de um ataque conduzido na quinta-feira (22) em Mali por militares mauritanos, com o apoio de franceses, contra uma base terrorista da Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI), movimento que detém o aposentado francês de 78 anos. Germaneau, que foi à África a turismo, foi sequestrado em 19 de abril no norte do Níger e logo foi vendido a um líder islâmico.

Em 11 de julho, a AQMI deu um ultimato à França, ameaçando executar Germaneau até 26 de julho caso suas reivindicações não fossem atendidas. O ministério da Defesa francês reconheceu, na manhã de sexta-feira, que a França havia fornecido um apoio ao ataque. Recursos logísticos e “uma troca de informações”, explica a fonte de Nuakchott. “Recursos militares franceses forneceram um apoio técnico e logístico a uma operação mauritana destinada a prevenir um ataque da Al-Qaeda ao Magreb Islâmico contra a Mauritânia”, diz o comunicado oficial. Esse apoio “entra no contexto do suporte que a França dá aos países da região engajados na luta contra o terrorismo”.

Na sexta-feira, o jornal espanhol “El País” revelou que as forças especiais mauritanas, apoiadas por elementos franceses, haviam feito uma incursão no Mali para atacar uma célula da AQMI que supostamente estaria com o refém francês. Trata-se de uma célula do grupo de Abu Zeid, um dos emires da AQMI, responsável pela morte de um refém britânico, Edwin Dyer. Esse turista foi morto em junho de 2009, seis meses após seu sequestro.

O ataque ocorreu ao amanhecer. Os militares teriam intervindo para prevenir um ataque contra um alvo militar na Mauritânia a partir do pequeno aeroporto de Tassalit, no nordeste do Mali, onde um avião e vários helicópteros fizeram movimentações durante a noite, segundo fontes malinesas citadas pela Reuters.

Nos confrontos, seis terroristas foram mortos, informação confirmada por fontes oficiais mauritanas. Mas o refém continua desaparecido. Segundo o “El País”, o governo espanhol foi “informado”, e não “consultado” sobre essa iniciativa. Ora, Madri entende que esse ataque coloca em risco a vida dos dois reféns espanhóis que também estão sob poder da AQMI na região. Albert Vilalta, 35, e Roque Pascual, 50, foram sequestrados há quase oito meses na Mauritânia por um outro emir, Mokhtar.

O jornal espanhol observa que é a segunda vez que a França ataca sem sucesso a Al Qaeda no Sahel. Durante uma operação anterior, conduzida no início de 2008 “em plena Nuakchott”, as forças especiais atacaram uma construção na qual deveriam se encontrar os terroristas que, em dezembro de 2007, assassinaram quatro turistas franceses no sul do país.

Em seguida a DGSE [serviço de inteligência francesa] perseguiu os autores até Guiné-Bissau, onde foram interrogados, antes de serem condenados à pena de morte na Mauritânia em maio. Uma fonte militar mauritana disse à Agence France-Presse que o ataque havia sido conduzido “em coordenação com países amigos”, sem citar quais.

A Mauritânia dispõe de informações que lhe permitiam pensar que a AQMI preparava um ataque em massa a seu território. Este era tomado regularmente como alvo pelo movimento terrorista desde 2005. Ao atacar, na quinta-feira, a base da AQMI, o exército mauritano podia esperar matar dois coelhos com uma só cajadada: evitar uma operação terrorista e tentar, com o apoio das forças francesas, recuperar o refém. “Não o encontramos”, disse na sexta-feira uma fonte, em Paris. A incursão em território malinês, bem perto da fronteira, foi feita com o consentimento de Mali. Esse país já havia indicado que abriria suas fronteiras em caso de luta contra a AQMI, se a Argélia assim desejasse, após a morte de onze policiais argelinos em uma emboscada na fronteira com o Mali, em 30 de junho.

Michel Germaneau está nas mãos de Abid Hammadu, conhecido como Abdelhamid Abou Zeid, líder da katiba – unidade de combatentes, uma expressão herdada da guerra da Argélia – Tariq ibn Ziyad. Foi essa katiba que tomou a decisão de assassinar o britânico Dyer. Em entrevista para a TV na véspera de 14 de julho, o presidente da República manifestou sua preocupação. Em 14 de maio, em um vídeo divulgado pela AQMI, Michel Germaneau apareceu muito magro, com o cabelo comprido, em uma túnica laranja. Ele se dirigia a Sarkozy: “Espero que encontre uma boa solução para mim”.

O vídeo foi visto como preocupante pelas autoridades francesas, ainda mais pelo fato de que as reivindicações da AQMI sempre foram consideradas “impossíveis de atender”. Germaneau tem problemas de saúde. Cardíaco, dependente de um tratamento anticoagulante, ele não tem mais remédios desde 18 de junho. “Estou sofrendo muito com o calor”, dizia no vídeo.

Pierre Camatte, um outro francês, sequestrado pela AQMI durante três meses no norte do Mali, conseguiu ser libertado com sucesso em fevereiro, em troca de quatro prisioneiros islâmicos e do pagamento de um resgate. No caso de Germaneau, a situação logo de início se apresentou de maneira mais delicada. O refém foi transferido continuamente. A França fez de tudo para encontrar um canal de negociação, temendo ao mesmo tempo que seu refém estivesse fadado a ser morto segundo o mesmo esquema que o refém britânico.

Tradutor: Lana Lim

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