Após o terremoto, surge o sofrimento das crianças do Haiti

Jean-Michel Caroit

Porto Príncipe (Haiti)

  • Fremson Ruth / The New York Times

    Meninas de um orfanato de Croix des Bouquets, no Haiti, cuidam de duas gêmeas de 11 meses que perderam os pais durante o terremoto que abalou o país há quase seis meses

    Meninas de um orfanato de Croix des Bouquets, no Haiti, cuidam de duas gêmeas de 11 meses que perderam os pais durante o terremoto que abalou o país há quase seis meses

John Juillet mantém a cabeça baixa. Esse menino de 5 anos tem a cara amarrada e um olhar triste. “Seus pais e irmãos morreram na tragédia, ele foi o único sobrevivente da família”, explica Daniel Tercier, responsável pelo playground “Espaço Amigos Crianças” construído sob uma tenda, na praça Saint-Pierre, em Pétionville, periferia da capital haitiana.

A tragédia em questão é o terremoto que matou quase 250 mil pessoas, inclusive muitas crianças, no dia 12 de janeiro, e que continua a alimentar seus pesadelos, passados seis meses. Em um terreno emprestado pela delegacia de polícia, os coordenadores da Idejen, uma ONG haitiana que trabalha há muito tempo com os jovens excluídos do sistema escolar, se esforçam para fazer com que mais de 70 crianças traumatizadas pelo terremoto recuperem o gosto pela vida.

Nesta sexta-feira, a terapia é simples: músicas e jogos, e depois um torneio de futebol improvisado sob a tenda. “No início, as crianças desobedeciam e brigavam o tempo todo. Agora melhorou”, diz Louis Junior, um dos coordenadores desse programa financiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A organização internacional subsidia 225 parques de recreação, e dá apoio psicossocial a mais de 62 mil crianças.

Outras ONGs, como a Médicos do Mundo, também organizam oficinas para combater os traumas causados pelo terremoto. Os participantes dos “grupos de fala” contam com detalhes suas experiências da catástrofe, como eles sobreviveram. Eles falam daqueles que morreram, muitas vezes sem que seus corpos fossem encontrados. Desde abril, mais de 6 mil crianças participaram das oficinas nas dez clínicas da Médicos do Mundo. Ali elas fazem desenhos de suas casas destruídas e dos restos de vítimas em meio aos escombros.

Com ajuda de suas muletas, Sébastien Lamothe passa por entre as tendas do acampamento da Cité Jean-Baptiste, cerca de 12 quilômetros ao sul de Porto Príncipe. Ele ficou soterrado por três dias sob os escombros de sua casa, junto dos cadáveres de membros de sua família, antes de ter sua perna direita amputada. Assim como John Juillet, ele foi acolhido por uma tia, Roselène Royer, que junto com outros pais de crianças traumatizadas, assiste a uma dessas reuniões de apoio. Ao seu lado, Natacha Biron abraça sua pequena filha Love, de 3 anos. “Desde o terremoto, ela sofre de aceleração cardíaca”, diz.

Presente no Haiti há meio século, a ONG Care decidiu agir primeiramente junto aos pais para ajudá-los a enfrentarem os sintomas de trauma observados entre as crianças. O programa, que recebe um financiamento de 660 mil euros pagos pela Alemanha e pela Áustria, atinge 2 mil pais e 20 mil crianças que vivem em diversos acampamentos. De Carrefour, um subúrbio ao sul de Porto Príncipe, até Léogâne, a cidade que mais vítimas teve no terremoto.

“O medo, a tristeza, a raiva estão em nós; precisamos nos livrar disso, e sobretudo dar mais carinho e atenção a nossas crianças”, diz Leslie Guerrier, o jovem psicólogo contratado pela Care. Os cerca de trinta pais reunidos em um galpão estão divididos em três grupos para discutir sobre os melhores meios de administrar os conflitos.

“Pesadelos, agressividade, enurese [emissão involuntária de urina], dores de barriga, palpitações, medos injustificados, tremores: são vários os sintomas. Há crianças que comem bem, mas estão emagrecendo”, conta Leslie Guerrier. No fim do curso, “kits escolares” são distribuídos às famílias em uma mochila: cadernos, lápis, bola e corda de pular.

Quase 80% das cerca de 5 mil escolas destruídas ou danificadas pelo terremoto voltaram às atividades, muitas vezes sob tendas e abrigos provisórios. Mas muitas famílias, arruinadas pela catástrofe e sem perspectivas de emprego, não podem pagar as mensalidades, nesse país onde quase 90% dos estabelecimentos escolares são particulares.

Os professores se queixam de não serem pagos há vários meses, e protestaram em diversas cidades, como em Léogâne e Petit-Goâve. O ministro da Educação Nacional, Joël Desrosiers Jean-Pierre, pediu ajuda a doadores para regularizar a situação e subsidiar o ensino para o próximo semestre escolar.

A volta às aulas também é um dos melhores meios de combater a desnutrição. Graças ao apoio do Programa Alimentar Mundial, as cantinas escolares forneceram 562 mil refeições. É muitas vezes a única refeição do dia para esses estudantes.

Tradutor: Lana Lim

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