O início caótico da Comissão para a Reconstrução do Haiti

Jean-Michel Caroit

Enviado especial a Porto Príncipe

  • Fremson Ruth / The New York Times

    Meninas de um orfanato de Croix des Bouquets, no Haiti, cuidam de duas gêmeas de 11 meses que perderam os pais durante o terremoto que abalou o país há quase seis meses

    Meninas de um orfanato de Croix des Bouquets, no Haiti, cuidam de duas gêmeas de 11 meses que perderam os pais durante o terremoto que abalou o país há quase seis meses

O ministério francês das Relações Exteriores não viu graça no trote. No dia 14 de julho, um website que imitava o do ministério anunciou que a França iria doar 17 bilhões de euros para a reconstrução do Haiti. Segundo o site, a França estaria assim pagando – com juros - a “dívida da independência” de 90 milhões de francos-ouros, imposta à primeira República negra para se libertar de sua tutela colonial.

Enquanto a “informação” era amplamente repetida no Haiti e na internet, Paris se apressava para desmentir, ameaçando os hackers com processos judiciais. De Montreal, o Comitê para a Devolução Imediata do Montante Extorquido do Haiti (Crime, sigla em francês) reivindicou a farsa alguns dias mais tarde, e anunciou a continuidade da campanha para o reembolso da “dívida original” ao mesmo tempo em que denunciava “a hipocrisia das potências ocidentais”.

O trote trouxe novamente à tona o pedido de restituição lançado pelo ex-presidente Jean-Bertrand Aristide antes do bicentenário da independência do Haiti, em 2004, e reavivou o debate sobre a lentidão dos doadores em honrar suas promessas após o terremoto de 12 de janeiro.

Durante sua visita-relâmpago a Porto Príncipe em 17 de fevereiro, o presidente da República Francesa, Nicolas Sarkozy, prometeu 326 milhões de euros em dois anos.

Uma gota d’água

Segundo o embaixador da França em Porto Príncipe, Didier Le Bret , a França até o momento pagou 24 milhões de euros a título de ajuda de emergência, cancelou 56 milhões da dívida do governo haitiano e cedeu 1 milhão em ajuda orçamentária, dos 40 milhões prometidos para dois anos. 110 veículos usados e recuperados foram entregues, deduzindo de um orçamento de 60 milhões de euros destinados a financiar, também em dois anos, outros projetos como um hospital e material de transporte.

Em 15 de julho, um acordo de financiamento para um montante de 1 milhão de euros foi assinado em favor da Comissão Interina para a Reconstrução do Haiti. Essa comissão, copresidida pelo primeiro-ministro haitiano, Jean-Max Bellerive, e pelo ex-presidente americano Bill Clinton, só teve uma reunião desde sua criação. A segunda reunião, prevista para 22 de julho, foi adiada para 17 de agosto “por indisponibilidade de vários de seus membros”.

Durante uma cerimônia em 12 de julho, junto às ruínas do palácio nacional, o presidente René Préval lamentou o fato de seu governo ter recebido até o momento somente US$ 35 milhões (R$ 62 milhões) de ajuda orçamentária. Uma gota d’água em relação à gama de necessidades e aos US$ 10 bilhões prometidos pelos doadores, em 31 de março, em Nova York.

Quanto aos US$ 2 bilhões coletados pelas ONGs junto à população, ninguém sabe que montante foi gasto seis meses após o desastre. Segundo a organização Disaster Accountability Project, somente 6 das 197 ONGs que solicitaram dinheiro para o Haiti publicam relatórios financeiros atualizados.

Tradutor: Lana Lim

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