Sarkozy confirma a morte de francês feito refém pela Al-Qaeda

Nathalie Guibert e Arnaud Leparmentier

  • 08.04.2010 - Lionel Bonaventure/EFE

    O presidente francês Nicolas Sarkozy

    O presidente francês Nicolas Sarkozy

Michel Germaneau, 78, o francês mantido como refém em Mali pela Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI) desde meados de abril, “foi executado”, anunciou a organização terrorista, no domingo (24) à noite, em mensagem divulgada pela emissora de televisão do Qatar, Al-Jazeera.

O presidente Nicolas Sarkozy declarou, na segunda-feira, na saída de uma reunião de um conselho de segurança e de defesa: “Condeno este ato bárbaro e odioso que fez uma vítima inocente, que dedicava seu tempo a ajudar as populações locais”. O presidente acrescentou: “Essa morte em condições trágicas demonstra que estamos lidando com pessoas que não têm nenhum respeito pela vida humana. (...) Desde 12 de julho, Michel Germaneau estava sob um ultimato que na verdade era só o anúncio de um assassinato programado. Hoje, como fora anunciado no ultimato de 12 de julho, ele morreu.” O ministro das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, está a caminho da região.

Em 11 de julho a AQMI havia dado um ultimato para a França, que vencia em 26 de julho. Na véspera desse prazo, a organização terrorista se apressou em mostrar a morte de Michel Germaneau como uma ação em represália após o ataque da França e Mauritânia feito na quinta-feira em Mali, contra uma base do grupo islâmico. “Sarkozy não só fracassou em libertar seu compatriota nessa operação, como certamente abriu uma das portas do inferno para ele, seu povo e sua nação”, declara, no vídeo, Abdelmalek Droukdal, um dos emires da AQMI. “Nós anunciamos ter executado o refém francês chamado Michel Germaneau no sábado (24) para vingar nossos seis irmãos mortos na covarde operação da França”.

Na manhã de 22 de julho, as forças especiais mauritanas, acompanhadas de cerca de trinta militares franceses (membros do serviço secreto DGSE, segundo certas fontes) atacaram uma base da AQMI, no território de Mali, a 150 quilômetros da fronteira. Uma coluna de veículos partiu de uma base mauritana situada a cerca de 20 quilômetros de Mali, na qual os militares franceses instruíam seus colegas mauritanos. Os militares percorreram os últimos quilômetros a pé, explicou o ministério da Defesa em Paris. A França desmente assim que uma operação aérea tenha sido realizada a partir do aeroporto de Tassalit em Mali, como havia indicado o jornal espanhol “El País”, ao destacar a ocorrência do ataque, na sexta-feira.

Oficialmente, a França foi “inserida” em uma operação mauritana, como parte da cooperação inter-regional antiterrorista no Sahel. A Mauritânia, informada sobre um agrupamento de 150 combatentes da AQMI visando um ataque contra um alvo militar em seu território, havia decidido realizar uma operação contra diversas bases terroristas em Mali, em acordo com esse país. “Elementos concordantes dos serviços secretos ocidentais nos fizeram acreditar que Germaneau estava nessa base”, disse no sábado o ministério da Defesa. Mas o refém não estava lá. No ataque, seis membros da AQMI foram mortos.

“Como estávamos convencidos de que ele estava condenado a uma morte certa, tínhamos o dever de conduzir essa tentativa para tirá-lo de seu cárcere”, se justificou Sarkozy. Fontes malinesas indicaram que Germaneau foi decapitado. “Ele estava bem vivo durante o ataque, mas escondido em uma zona montanhosa na região de Kidal, na direção da fronteira com a Argélia”, garantiu um político do norte do Mali citado pela Agence France-Presse na segunda-feira.

As autoridades francesas têm uma forte suspeita de que Germaneau tenha sido executado durante o fim de semana. Paris não tinha nenhuma notícia sobre seu refém desde 14 de maio, data na qual um vídeo que trazia reivindicações foi divulgado. O refém, com o semblante cansado, pedia a ajuda de Sarkozy.

As reivindicações da AQMI – a libertação de terroristas – foram consideradas “impossíveis de atender” por Paris, no caso Germaneau. Segundo fontes, a AQMI havia exigido a entrega de um importante terrorista detido na Argélia, bem como a de Rachid Ramda, condenado em Paris pelos atentados de 1995. Informações desmentidas pelo ministério das Relações Exteriores: “Desde o sequestro de nosso compatriota, os sequestradores, apesar dos esforços das autoridades francesas, recusaram qualquer diálogo e não formularam nenhuma reivindicação precisa”, afirmou o ministério das Relações Exteriores, no domingo (25). O ministério da Defesa explicou no sábado que até uma mediação médica havia sido recusada.

Assim, desde 14 de maio, não foi fornecida nenhuma prova, direta ou indireta, de que ele estava vivo. Cardíaco, desprovido de medicamentos desde 18 de junho, transferido continuamente pelo deserto, talvez Germaneau já estivesse morto antes do anúncio da AQMI. Nas últimas semanas, o pessimismo das autoridades francesas também vinha do fato de que o aposentado estava sob poder da katiba – grupo de combatentes – de Abid Hammadou, conhecido como Abdelhamid Abou Zeid. Foi essa katiba que, em junho de 2009, executou um britânico, Edwyn Dyer, após seis meses de cativeiro. O refém havia sido transferido do acampamento onde fora detido por três dias antes de ser assassinado. Seu corpo nunca foi encontrado.

O esquema foi considerado por Paris como “estritamente o mesmo para Germaneau”, “vendido” a esse grupo assim que foi sequestrado no Níger, em 19 de abril. “A AQMI pode ter decidido desde o início assassinar Germaneau”, indica uma fonte próxima do caso. Diversas reuniões sobre a conduta a ser mantida em matéria de comunicação foram realizadas antes daquela de segunda-feira, no palácio do Eliseu.

Logo de início a situação se apresentou de maneira diferente da de Pierre Camatte, mantido como refém pela mesma katiba durante três meses no Mali, mas para o qual uma negociação pôde ser feita. Ele foi libertado em fevereiro, em troca da libertação de quatro prisioneiros islâmicos e do pagamento de um resgate.

Tradutor: Lana Lim

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