Autoridades chinesas pecam pelo silêncio em caso de vazamento de petróleo

Brice Pedroletti

Enviado especial a Dalian (China)

  • Reuters

    Homem limpa petróleo que vazou na região do porto de Dalian, na China, após a explosão de oleoduto

    Homem limpa petróleo que vazou na região do porto de Dalian, na China, após a explosão de oleoduto

Com as roupas manchadas de preto, o rosto e os cabelos brilhantes de óleo, e as mãos nuas cobertas por uma espessa camada viscosa, os pescadores de Jinshatan parecem mineradores subterrâneos nesses tempos funestos de maré negra: desde a explosão, no dia 16 de julho, de um oleoduto em uma zona industrial vizinha, a cerca de 50 quilômetros de Dalian, no norte da China, o pequeno porto pesqueiro foi transformado em zona de estocagem, e milhares de latas se enfileiram no cais.

Cada família de pescadores se ocupa com sua presa do dia, pesadas latas de óleo içadas uma a uma com cordas a partir dos barcos de madeira atrelados no cais: “Isso foi o que recuperamos desde ontem”, diz Kong Yun-huan, uma mulher com cerca de cinquenta anos, de rosto marcado, mostrando as 32 latas dispostas em um retângulo desenhado com giz branco, sinal de que os inspetores de pesca de Dalian passaram por lá. Os pescadores receberão 300 yuans (R$ 69) por lata.

Mas, explica a sra. Kong, foi preciso comprar as latas vazias, por 40 yuans (R$ 9,20) a unidade. E pagar os operários que ajudam seu filho e seu marido, que continuam a recolher com muito esforço alguns litros extra de óleo no porto. A família não consegue avaliar as perdas decorrentes da maré negra. É claro, o verão é mais um período de pausa, mas os pescadores não sabem se receberão auxílio. E poucos conhecem a nocividade do petróleo que eles vêm manipulando há dias, na maioria das vezes com as mãos desprotegidas.

“Os pescadores mobilizados para participar da limpeza o estão fazendo sem proteção, sem luvas e sem máscaras”, diz Zhong Yu, chefe da equipe de intervenção rápida do Greenpeace China que chegou ao lugar há uma semana. A jovem critica a irresponsabilidade das empresas que causaram o incidente, entre elas uma filial da gigante chinesa Petrochina: “Nenhuma das empresas envolvidas forneceu proteção às pessoas que estão fazendo a limpeza. Ora, todos os tipos de compostos tóxicos são perigosos, pode haver intoxicações”, insiste.

Foi uma manobra errada de dessulfuração em dois oleodutos, durante o descarregamento de um petroleiro, que teria levado a um incêndio em um reservatório de Xingang, terminal do porto de Dalian reservado aos hidrocarbonetos. E ao despejamento de pelo menos 1.500 toneladas de petróleo bruto no mar. Uma quantidade relativamente “modesta” em relação às 10.000 toneladas de óleo bruto que se espalharam pela costa da Bretanha em 1999, durante o naufrágio do Erika. Mas foi um desastre de grande impacto para essa região bastante povoada (Dalian tem 6 milhões de habitantes) do sul da península de Liaodong, onde o turismo, a pesca e a indústria são praticados de maneira intensiva.

A equipe de intervenção rápida do Greenpeace realizou operações relativamente impressionantes, uma vez que as ONGs, sobretudo estrangeiras, são vistas com suspeita na China e às vezes são alvo de campanhas de difamação. Vestidos de macacões laranja com a sigla Luse Heping (Greenpeace em chinês), os ativistas foram até as praias e o porto pesqueiro, carregando grandes cartazes que incentivavam a população a usar equipamentos de proteção, e a não se banharem.

A ONG fez diversos comunicados cáusticos sobre a superficialidade dos alertas dados pelo poder público. Bem no início da maré negra, um de seus fotógrafos fez as imagens – que rodaram o mundo – dos bombeiros tentando fechar o vazamento de petróleo sem nenhum equipamento de proteção. E foi o Greenpeace que informou sobre a morte de um deles. “A cultura chinesa requer mais prudência para nossas ações do que no Ocidente”, explica Zhong, que quando adolescente foi marcada por uma reportagem da televisão chinesa sobre uma ação do Greenpeace contra baleeiros japoneses.

Em 2008, ela foi até a região chinesa de Sichuan registrar os riscos de vazamentos químicos nas usinas atingidas pelo terremoto. A respeito da maré negra, ela considera que o Greenpeace foi beneficiado pelo fato de que havia “muito pouca informação disponível, e que fomos os únicos a fornecê-las”. E por as mídias locais, que sobretudo mostraram a beira do mar e sua multidão de banhistas despreocupados, terem sido “irresponsáveis”.

Na quarta-feira (28), a imprensa chinesa foi unânime ao dar as manchetes para a “vitória decisiva” sobre a maré negra. Acostumadas com uma relativa margem de manobra sobre as questões ambientais, desta vez as mídias chinesas tiveram de cancelar suas reportagens e se ater aos comunicados oficiais, segundo o “South China Morning Post”, em Hong Kong. Nos escritórios da Depva, uma ONG local de defesa ambiental, Tang Zailin, seu coordenador, reconhece que a maré negra teve sua importância minimizada. “Tudo é feito para não se entrar em conflito com os interesses do setor turístico”, diz.

Esse aposentado da indústria química acredita que a catástrofe pegou todos desprevenidos. “Descobri que podíamos usar palha e ‘salsichas’ de cabelo para conter a maré. Nós lançamos um apelo na internet, e recebemos centenas de pacotes com cabelo. Nosso voluntários encheram meias de náilon com isso”, conta Tang Zailin. Esses cinturões flutuantes contidos por tranças de palha foram dispostos em torno de Fujiazhuang, uma das grandes praias de Dalian, para onde a camada de petróleo havia derivado.

Na segunda-feira, ativistas iam e voltavam de barco, em meio aos turistas, para trocar as jangadas de palha, que foram levadas encharcadas de petróleo até a margem. A praia estava lotada.

Tradutor: Lana Lim

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