Tratamento conjunto de Aids e tuberculose reduz mortalidade de soropositivos

Catherine Vincent

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    Segundo a OMS, 1,3 milhão de pessoas são portadoras do HIV e do bacilo de Koch

    Segundo a OMS, 1,3 milhão de pessoas são portadoras do HIV e do bacilo de Koch

Esquece-se com frequência de que à sombra da Aids, existe a tuberculose. Ao enfraquecer o sistema imunológico das pessoas que ele infecta, o HIV as torna mais sensíveis à ação dos germes patogênicos. O bacilo de Koch, por sua vez, em recrudescimento há cerca de vinte anos, costuma ser endêmico nos países pobres.

Consequência: segundo os últimos números da Organização Mundial da Saúde (OMS), 1,37 milhão de pessoas no mundo eram portadoras dos dois agentes infecciosos em 2008. E cerca de um quarto delas morrem a cada ano não em decorrência da Aids, mas sim da tuberculose, por não terem sido diagnosticadas e tratadas adequadamente quanto a essa doença gravíssima.

Uma vez que o diagnóstico é feito, qual a melhor forma de tratar os pacientes infectados conjuntamente pelo HIV e pelo bacilo de Koch? A resposta não é fácil, e foi tema de muitos debates durante a Conferência Internacional sobre a Aids, realizada em Viena (Áustria), de 19 a 23 de julho.

Cada um desses dois tratamentos, na verdade, pode provocar efeitos colaterais. Além disso, combater simultaneamente as duas infecções pode levar a uma reação paradoxal do sistema imunológico, a Síndrome Inflamatória de Reconstituição Imunológica (SIRI), que agrava o estado do paciente.

Em todos os casos, a urgência vai para o tratamento antibiótico contra a tuberculose, prescrito para uma duração mínima de seis a nove meses. Nesse contexto, em que momento deve-se administrar antirretrovirais nos pacientes? Em novembro de 2009, a OMS aconselhava iniciar essa etapa “assim que possível”, nos dois meses seguintes ao início dos antibióticos. Mas a validade científica dessa recomendação ainda devia ser confirmada, ou até mesmo especificada.

Agora está feito. Pela primeira vez, um teste clínico, apresentado durante a Conferência de Viena, mostra que os antirretrovirais contra o HIV, para um tratamento ótimo dos pacientes, devem ser iniciados duas semanas apos o início do tratamento anti-tuberculose.

Conduzido conjuntamente por cientistas cambojanos, franceses e americanos, o teste Camelia (para “Cambodian Early Versus Late Introduction of Antiretroviral Drugs”) foi conduzido no Camboja, entre 2006 e 2010, junto a 661 pacientes recrutados em cinco hospitais. Todos estavam infectados pelo HIV e pela tuberculose. Todos estavam severamente imunodeprimidos. Todos haviam recebido um tratamento anti-tuberculose padrão assim que a tuberculose foi diagnosticada.

Os pacientes foram divididos em dois grupos. Um recebeu um tratamento anti-HIV duas semanas após o início dos antibióticos, e o outro, oito semanas depois. O objetivo principal do estudo, conduzido por iniciativa da Agência Francesa de Pesquisa sobre a Aids e as Hepatites Virais (ANRS) e dos National Institutes of Health (NIH) americanos, era determinar se a introdução precoce dos antirretrovirais permitiria reduzir a mortalidade.

“150 mil vidas salvas por ano”

As conclusões do teste, coordenado pelo Cambodian Health Committee (CHC) de Phnom Penh – uma ONG engajada há 15 anos na luta conjunta contra a tuberculose a a Aids – e pelo Institut Pasteur do Camboja, nao deixam espaço para dúvidas. Ao longo dos 26 meses que se seguiram ao início do Camelia, 59 pessoas morreram no grupo que recebeu um tratamento anti-HIV precoce, ante 90 pessoas no outro grupo – ou seja, um diferencial de 34%. “Reduzir em um terço a mortalidade ao dar o tratamento anti-HIV mais cedo significa que podemos salvar 150 mil vidas por ano”, acredita o Dr. François-Xavier Blanc (CHU Bicêtre, AP-HP), um dos principais pesquisadores desses trabalhos.

Segundo o Dr. Thim Sok, diretor do CHC, esses resultados permitirão “de forma imediata, simplesmente por uma melhor utilização de medicamentos já existentes, salvar inúmeras vidas”.

Tradutor: Lana Lim

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