"A comunidade internacional está perdendo a guerra no Afeganistão", diz presidente do Paquistão

  • Remy de la Mauviniere/AP

    Asif Ali Zardari, presidente do Paquistão

    Asif Ali Zardari, presidente do Paquistão

O presidente paquistanês Asif Ali Zardari, eleito em setembro de 2008 e viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, morta em um atentado no final de 2007, fez uma visita oficial de três dias à França. Juntamente com Nicolas Sarkozy, ele tratou de questões ligadas à luta contra o terrorismo e à guerra no Afeganistão. Zardari deverá, na terça-feira à noite, prosseguir com seu roteiro europeu até a Grã-Bretanha.

Zardari contava com essa viagem para reforçar sua posição internacional e seu peso político no Paquistão. Em seu testamento político, Benazir Bhutto lhe deixou como herança a presidência do Partido do Povo Paquistanês (PPP), que ele divide com seu filho Bilawal. Mas ele deve ao mesmo tempo enfrentar uma polêmica sobre o suposto “jogo duplo” do Paquistão com os talebans.

Le Monde: O primeiro-ministro britânico lhe pede para escolher entre o lado dos talebans e a luta contra o terrorismo. O que o sr. tem a responder a David Cameron, que deverá encontrá-lo em Londres?

Asif Ali Zardari: Direi a ele que a guerra contra o terrorismo deveria nos unir, e não nos colocar em oposição. Eu lhe explicarei que é meu país que está pagando o preço mais alto dessa guerra, em vidas humanas... Uma conversa franca permitirá trazer um pouco de serenidade. É por isso que não cancelarei minha visita a Londres apesar dessa grave acusação. As relações entre os dois países são antigas e suficientemente sólidas para isso.

Le Monde: No entanto, o site WikiLeaks forneceu elementos tangíveis que mostram as dificuldades da coalizão contra os talebans, bem como a existência de laços entre o Paquistão e os talebans. O que o sr. pensa a respeito?

Zardari: As informações reveladas dizem respeito sobretudo à ação dos Estados Unidos no Afeganistão. As autoridades militares e políticas americanas disseram aquilo que pensavam. Além disso, os fatos mencionados referentes a meu país são anteriores à minha chegada à presidência do Estado paquistanês.

Le Monde: Não é do interesse do Paquistão moderar suas relações com os talebans? Uma vez que estes últimos poderiam voltar a dirigir o vizinho Afeganistão...

Zardari: É absurdo. Não há bons talebans com quem poderíamos conversar e outros, maus, que deveríamos combater. O Paquistão e seu povo são vítimas dos terroristas. Nós só estamos defendendo nossas fronteiras, lutando contra o terror e aqueles que o propagam. Dito isso, respeito as escolhas de meu amigo Hamid Karzai, presidente afegão, de iniciar seu país em um processo de reconciliação com os insurgentes dispostos a aceitar o diálogo. Seu ponto de vista é legítimo.

Le Monde: Como o sr. vê a evolução da guerra no Afeganistão?

Zardari: Penso que a comunidade internacional, à qual pertence o Paquistão, está perdendo a guerra contra os talebans. E isso, sobretudo, porque nós perdemos a batalha da conquista dos corações e das mentes. O principal fracasso da coalizão foi ter subestimado a situação no local e não ter percebido a dimensão do problema. Os reforços militares são só uma pequena parte da resposta. Para ganhar o apoio da população afegã, é preciso lhe trazer desenvolvimento econômico e provar que podemos não só mudar sua vida, como sobretudo melhorá-la.

Além disso, é um conflito que não se limita somente às fronteiras afegãs, e deveríamos saber disso. Quando minha esposa foi assassinada, no final de 2007, quando ela era somente candidata a uma eleição, o indicador da Bolsa americana, o Dow Jones, despencou em reação a esse acontecimento.

Por fim, a partida foi perdida assim que se pensou que existia uma solução rápida. A ação da comunidade internacional deveria acontecer a longo prazo. O trunfo dos insurgentes foi saber esperar. Eles têm o tempo a seu favor. É toda a abordagem que me parece equivocada. A população não associa a intervenção da coalizão com um futuro bem-estar.

Le Monde: O sr. vê os talebans de volta a Cabul após terem sido expulsos de lá pelos americanos em 2002?

Zardari: Não, a comunidade internacional nunca aceitará ver os talebans dirigindo novamente o país. Acho que eles não têm nenhuma chance de retomar o poder, ainda que sua influência esteja crescendo.

Le Monde: As relações com a Índia são outra fonte de tensão. A grave disputa sobre a divisão da água e as acusações da Índia contra o Paquistão, suspeito de apoiar grupos terroristas anti-indianos, podem criar um novo conflito?

Zardari: O Paquistão é uma democracia, e uma democracia não faz guerra. A Índia não é uma ameaça. Nossas relações e nosso diálogo com a Índia melhoraram desde que a ditadura militar no Paquistão cedeu lugar a um governo civil eleito legalmente. Somos vizinhos. Qual o interesse em fazer uma guerra? Em meu segundo encontro com o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, nós concordamos que não poderia ser de outro jeito.

Quanto ao conflito sobre a divisão da água, uma vez que não conseguimos entrar em um acordo, nós optamos por um procedimento de arbitragem que será confiado ao Banco Mundial.

Quanto às acusações da Índia, que nos associa a grupos ativistas como o Lashkar-e-Taiba (LeT) [organização islâmica paquistanesa que conduz operações de guerrilha na Caxemira indiana], saiba que não serei refém daqueles que querem promover uma abordagem radical das diferenças que temos com a Índia desde a criação de nosso país. Enfim, precisamos de mais tempo para melhorar nossa capacidade de administrar o legado de um passado muito marcado pela guerra.

Le Monde: A extensão, derrogatória, do mandato do chefe do exército paquistanês, o general Ashfaq Kayani, dada pelo primeiro-ministro paquistanês, marca uma volta dos militares para o cenário político paquistanês?

Zardari: Não, não se trata de uma volta, e sim de uma continuidade. Outros oficiais superiores foram objeto do mesmo tipo de decisão. Os próprios americanos deram extensões de mandato a generais e ninguém falou na instauração de uma ditadura.

Le Monde: A justiça francesa está investigando o atentado de Karachi, que causou a morte de onze franceses em 2002. Foi mencionada uma possível origem associada ao não-pagamento de propinas a intermediários paquistaneses na venda de submarinos franceses ao Paquistão. Seu nome chegou a ser citado...

Zardari: Eu estava na prisão na época desses acontecimentos. Não vejo como eu poderia ter alguma ligação com esse caso. Além disso, para nós, esse atentado não tem nada a ver com o contrato dos submarinos nos quais as vítimas trabalhavam, foi um puro ato de terrorismo.

Tradutor: Lana Lim

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