Fim do "berlusconismo" acontece com a corrupção como pano de fundo

Philippe Ridet

  • Gregorio Borgia/AP

    O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, durante participação em um programa de televisão italiano

    O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, durante participação em um programa de televisão italiano

Mais uma vez, ele atacou os juízes e a imprensa da oposição. Os primeiros por terem exposto, em diversas investigações, uma vasta rede de influência, de corrupção e de casos na qual se podem encontrar desde magistrados até políticos e empresários; a segunda, por ter noticiado o assunto. Silvio Berlusconi, buscando um contra-ataque uma vez que seu poder vem enfraquecendo, lançou a operação “Pela Memória”, pedindo aos membros de seu partido, o Povo da Liberdade (PDL), que lembrem tudo aquilo que ele realizou desde que chegou pela primeira vez ao poder, em 1994. O suposto passado idílico para exorcizar o presente e o futuro?

O presente é abominável. Dia após dia, as investigações moldam a imagem de um país onde a corrupção teria contaminado todos os poderes. Aqui, um ministro – Claudio Scajola – que deve renunciar depois de ter tido seu apartamento pago por um empresário da construção civil. Ali é um outro – Nicola Cosentino – que também segue por esse caminho, por ter tentando armar uma campanha caluniosa contra um rival político. Em outra parte é um dirigente do PDL – Denis Verdini – que se interessa pelas licitações da energia eólica na Sardenha. E mais além ainda, é o presidente da Corte de Apelação de Milão, que faz pressão sobre a Corte Institucional para que ela valide uma lei que protege Berlusconi dos processos judiciários durante seu mandato.

Todos esses personagens se conhecem, andam juntos, se encontram nos palácios romanos ou discretos restaurantes de estrada para dividirem o bolo das licitações – da reconstrução de L’Áquila até as obras para o 150º aniversário da unidade da Itália – e os dividendos dos tráficos de influência. A imprensa fala em uma loja P3, como em referência à loja maçônica P2 – que, reunindo políticos, magistrados, policiais, esteve envolvida nos atentados terroristas dos anos 1980 – como se, em trinta anos, nada tivesse mudado.

Para completar esse quadro, é preciso ainda mencionar os inquéritos reabertos sobre os assassinatos dos juízes antimáfia Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, em 1992. Magistrados e policiais agora se dizem prestes a trazer a prova do consentimento ou da cumplicidade de uma parte corrompida do aparelho estatal. Por fim, é uma captura da máfia calabresa – a ‘Ndrangheta – que mostra seu profundo envolvimento no sistema de saúde da região da Lombardia.

Corrupção e infiltração mafiosa se tornaram corriqueiras na Itália. Berlusconi, ele mesmo processado por fraude fiscal e corrupção, denuncia uma “campanha maliciosa” ou até “uma tentativa de golpe de Estado”. Os mesmos termos haviam sido utilizados quando ele esteve às voltas com um escândalo que envolvia sua vida pessoal, no verão de 2009. Entretanto, todos os fios dessas investigações levam ao presidente do conselho, seja ligando-o a membros de seu partido ou ministros, seja remontando aos acontecimentos – e suas obscuridades – que antecederam sua chegada ao poder.

Para Berlusconi, o preço político dessa temporada de escândalos é alto. Ele não conseguiu resistir à pressão da oposição e de parte de seu partido, que exigiram a demissão de três membros de seu governo em dois meses. Em 29 de julho, rompeu de vez com seu principal aliado, Gianfranco Fini, que decidiu se manter na presidência da Câmara dos Deputados que o “Cavaliere” lhe ordenava abandonar. E ele não conseguiu levar a cabo seu polêmico projeto de limitar a utilização de escutas telefônicas, tão valiosas para as investigações de corrupção e Máfia, e de impedir sua publicação na imprensa.

Segundo ele, a nova lei “não mudará nada”. A reforma da justiça, ainda que necessária, está encalhada nas comissões do Parlamento. E sua popularidade caiu de 60%, no início de seu terceiro mandato, em abril de 2008, para 40%. Somente o partido anti-imigrantes da Liga Norte lhe garante seu apoio incondicional, contanto que ele conclua com sucesso as reformas, como a do federalismo fiscal, prometidas por ele.

Nessas condições, pode Berlusconi chegar até o final de seu mandato, estabelecido para 2013? É o que se questiona no meio político. Nesse clima de fim de reinado, as reflexões sobre o pós-Berlusconi percorrem os corredores do poder. Os cenários se multiplicam; “governo técnico”, composto por altos funcionários do Estado para conduzir as reformas, “grande coalizão”, misturando a direita, os centristas e a esquerda, eleições antecipadas que permitiriam a Berlusconi reencontrar a consagração pelo voto ao deixar para trás seus adversários e rivais.

O mais provável é que nenhuma dessas hipóteses se concretize, e que Berlusconi capengue até 2013. Nem os desafiantes de seu partido, que tiram forças de sua fraqueza, nem a oposição, ainda à procura de um líder que possa uni-la, parecem capazes de tomar o poder.

A partir de agora, a agonia do berlusconismo poderá ser também a do país inteiro, jogada a cada manhã entre o anúncio de um novo escândalo e o de uma nova extravagância, dividido entre a vergonha e o fatalismo. “A Itália possui os anticorpos para resistir à corrupção”, declarou o presidente da República, Giorgio Napolitano. Anticorpos? E talvez um certo costume.
 

Tradutor: Lana Lim

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