"A confiança nos bancos não está totalmente restabelecida", diz economista

Entrevista a Marie de Vergès

Apesar da publicação de excelentes resultados do setor na França, o economista Olivier Pastré continua prudente.

Os resultados dos bancos franceses BNP-Paribas e Société Générale, mas também do britânico HSBC, muito superiores às expectativas dos analistas, provocaram uma recuperação da confiança no sistema bancário europeu. O economista Olivier Pastré, professor da Universidade Paris-8, salienta a resistência dos bancos franceses, mas pede prudência: a situação macroeconômica continua incerta e a crise não terminou.

Le Monde: O banco Société Générale publicou na quarta-feira resultados muito bons, assim como o BNP-Paribas havia feito na segunda. Os bancos franceses conseguiram se salvar?


Olivier Pastré:
Esses desempenhos e a resistência de que eles deram prova por ocasião dos "stress tests" [testes de resistência efetuados nos bancos europeus, cujos resultados foram publicados em 23 de julho] demonstram que os bancos franceses estão mais sólidos que a média dos bancos dos países desenvolvidos.

Mas atenção: esses bons resultados se explicam em parte pela rentabilidade das atividades de mercado. Esta é muito volátil. O que observamos hoje não quer dizer de modo algum que terminamos com a crise em geral e com as tensões nos sistemas bancários em particular.

Le Monde: Os estabelecimentos franceses, notadamente o BNP, reduzem fortemente suas provisões para enfrentar as inadimplências. Não é um pouco prematuro?


Pastré:
Parece-me que as previsões macroeconômicas oficiais - nas quais os bancos se baseiam - são bastante otimistas em relação à realidade das empresas. Eu acredito que a saída da crise só poderá ocorrer em forma de raiz quadrada. Isto é, com um índice de crescimento das economias desenvolvidas duradouramente fraco.

Le Monde: Os bancos exercem suficientemente sua função de financiamento da economia?


Pastré:
Veremos nos próximos meses. Mas já podemos distinguir três categorias de empresas. As empresas muito grandes, que não precisam, ou precisam pouco, dos bancos; as médias empresas, que são bem financiadas pelos bancos; e as pequenas empresas, que têm muitas dificuldades de financiamento. Principalmente as empresas de criação, as empresas de forte conteúdo tecnológico e as que trabalham no setor do imaterial. Mas elas são as que geram mais empregos e as mais adaptadas à preparação do futuro.

Le Monde: O sistema bancário da Europa funciona em duas marchas?

Pastré:
Sim, e até mesmo duplamente. Temos de um lado indústrias bancárias relativamente bem estruturadas, como no Reino Unido ou na França. E de outro lado sistemas bancários mais frágeis, na Alemanha por exemplo, em um grau menor na Itália e em alto grau nos países do Leste Europeu.

Mas há fortes disparidades em alguns países. Na Espanha, por exemplo, há dois grandes bancos que, graças à sua implantação internacional, principalmente na América Latina, são muito rentáveis. Eles coexistem com um tecido de bancos geralmente não privados, arcaicos e frágeis.

Le Monde: Os "stress tests" produziram, na sua opinião, uma fotografia fiel do sistema bancário europeu?


Pastré:
O copo está vazio pela metade e cheio pela metade. O efeito positivo desses testes foi ter fornecido informações aos mercados sobre a solidez do sistema bancário europeu. E o balanço é globalmente positivo.

Por outro lado, as hipóteses utilizadas para esses testes são, na minha opinião, relativamente pouco "estressantes". Por exemplo, só foi levada em conta uma parte das dívidas soberanas que estão nas carteiras dos bancos.}

Também se deixou de lado um elemento central da crise bancária, revelado com a falência do Lehman Brothers: é o risco de liquidez. Enfim, as hipóteses macroeconômicas incluídas no cenário-catástrofe poderiam ter sido ainda mais pessimistas.

Le Monde: Os bancos verão suas condições de financiamento melhorar?


Pastré:
Tudo o que vai no sentido de um melhor conhecimento das forças e das fraquezas dos bancos contribui para tranquilizar os mercados e facilitará o financiamento interbancário. Mas a confiança ainda não está totalmente restabelecida, e o método Coué não funciona duradouramente em economia. Não basta dizer que tudo vai bem para que tudo vá bem.

Le Monde: O que o senhor pensa das reformas regulamentares atuais que pedem que os bancos aumentem seus fundos próprios?


Pastré:
É preciso se felicitar que alguns aspectos de Basileia 2 tenham sido atenuados. As novas disposições são menos penalizadoras para os bancos, especialmente os mutualistas. Mas Basileia 2 corre o risco, apesar de tudo, de desencorajar o financiamento das pequenas e médias empresas, tanto em crédito quanto em fundos próprios, o que é particularmente inadequado à situação de crise atual.

Depois, essa regulamentação não faz sentido se não for aplicada em toda parte no mundo, a fim de não criar distorção de concorrência. Ora, eu sou medianamente otimista sobre a vontade americana de adotá-la. As autoridades bancárias europeias devem cuidar para não demonstrar um zelo que penalize sua indústria bancária.

Le Monde: A Europa deve se inspirar na reforma de Wall Street?


Pastré:
É preciso ter um olhar comedido sobre a reforma chamada Volcker. Eu fiquei felizmente surpreso de que Barack Obama tenha resistido em parte ao lobby bancário americano. No entanto, essa reforma está muito distante do projeto original. Ela vai no bom sentido, mas não suficientemente longe. Além disso, os riscos bancários são muito diferentes nos EUA e na Europa.

Lá como aqui demos alguns passos modestos à frente. Mas restam imensas áreas que não foram realmente abordadas, como a regulamentação das agências de notação ou dos mercados interbancários. Desse ponto de vista, os G20 foram muito decepcionantes. Somente o de Londres, no ano passado, permitiu alguns avanços sobre os paraísos fiscais e a remuneração das corretoras. Os outros G20 - Washington, Pittsburgh e Toronto - só produziram declarações de boas intenções.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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