Na França, cresce a violência dos jovens em completa ruptura

Luc Bronner

Esses jovens tomaram o poder. Não durante o dia, quando o bairro de Villeneuve em Grenoble (sudeste da França) vive tranquilamente, servido por modernos bondes elétricos, amplamente dotado de serviços públicos, com suas numerosas associações civis. Eles tomam o poder à noite, quando os pais voltam para seus apartamentos. Pequenos grupos de homens de 15 a 25 anos, que vagam diariamente por alguns halls de prédios, passando de um para outro segundo sua vontade.

Adolescentes ou jovens adultos sem escolaridade, sem emprego, sem referências, atraídos pelo dinheiro fácil do "bizness". Um punhado de jovens na escala do bairro - de 30 a 50 rapazes, essencialmente originários do Magreb [norte da África], dentre 11 mil habitantes. Bandos que superaram uma etapa na violência com os tumultos provocados em meados de julho pela morte de um jovem do bairro, Karim Boudouda, 27, morto pela polícia depois de ter roubado um cassino e na sequência atirado contra as forças da ordem com armas de guerra.

Em pequenos grupos, os amigos da vítima se organizaram, queimaram cerca de 60 veículos e atacaram as forças da ordem, atirando em diversas ocasiões com balas reais.

A rebelião não mobilizou mais que esses cerca de 50 jovens. Foi a explosão de cólera de uma minoria em ruptura. "Trata-se muito mais de represálias de um bando contra a polícia do que de uma revolta social", salienta um juiz encarregado do caso. "Não estamos em um cenário da mobilização de um bairro em seu conjunto contra a polícia ou contra o Estado. Mas na cólera e na violência de um pequeno grupo", acrescenta um educador, recusando a comparação com os tumultos urbanos do outono de 2005.

Isso é mais tranquilizador? Não se sabe. A esquerda de Grenoble - municipal e associativa - acordou de ressaca. As noites de tumulto puseram em evidência o que os habitantes sabiam há muito tempo, mas que os poderes públicos não tinham muita vontade de ver: Villeneuve, cidade-bairro imaginada e implementada nos anos 1970 para fazer conviver classes sociais muito diferentes, não é mais o bairro modelo. A miscigenação social praticamente desapareceu, as classes médias e superiores foram progressivamente substituídas por famílias em dificuldades ou recém-imigradas.

Sobretudo uma parte da juventude, certamente muito minoritária, escapa a qualquer controle. Disposta a atirar contra as forças da ordem para vingar um amigo, disposta também a ameaçar os policiais como se se tratasse de um bando adversário. Os assistentes sociais diziam isso há meses, multiplicando os alertas sobre os desvios desses pequenos grupos, sem serem escutados.

De seu escritório anônimo no meio do bairro, Denis Setboune, responsável pelos "mediadores da noite", encarregados de ir ao encontro dos jovens em caso de problemas, até 3 horas da manhã, não parou de enviar relatórios sobre os incidentes encontrados.

"Nossos parceiros não avaliam a gravidade da situação", ele explica de maneira diplomática. Sua constatação é terrível. Moradores chocados, mas que não ousam dizer mais nada diante dos tumultos noturnos e dos halls invadidos. E, diante deles, diante dos mediadores, esses punhados de jovens totalmente imprevisíveis, ocupando as marquises dos edifícios em grupos de quatro, cinco, às vezes dez ou 15.

Abandonando seus dejetos - "sacos do McDonald's", latas, garrafas, pontas de cigarro, escarros..."completamente bêbados" ou "enevoados pelos narcóticos", numa noite. "Superexcitados" ou "enlouquecidos" no dia seguinte. Calmos durante alguns dias e depois agressivos. Capazes de cair na violência. Ou mesmo comportar-se como uma "horda de selvagens" quando agridem os mediadores - em nove contra dois.

Subitamente, sem razão.

"Encontramo-nos diante de jovens em completa ruptura, que não vivem sequer o dia a dia, mas de hora em hora. Eles não têm visão nem projeto", explica o mediador. Seu modelo? Não é o de seus pais, esmagados pelo desemprego, incapazes de assumir sua autoridade diante dos rapazes, especialmente nas famílias do Magreb. Nem o de suas mães, muitas vezes empregadas em serviços desvalorizados. É mais Al Pacino no filme "Scarface". O mito do gângster e do dinheiro fácil. A busca pelo risco, o desejo de consumir, de sentir-se por cima. Não importam muito as consequências - para si mesmos, se tiverem de passar anos na prisão, ou para os outros, se for preciso atirar com armas de guerra para tentar escapar da polícia.

Uma parte caiu na criminalidade, como Karim Boudouda, condenado várias vezes por assaltos. Os "proletários do crime", como são chamados por um conhecedor da vida no submundo de Grenoble. Ou uma nova forma de "lumpemproletariado", como diz Claude Jacquier, uma figura da vida associativa local, velho militante de esquerda e pesquisador no Centro Nacional de Pesquisas Científicas.

Não verdadeiramente alguém habituado às fórmulas de choque. Mas ele também não parou de avisar os poderes públicos nos últimos meses - mensagens premonitórias, nas quais fala em "bomba atômica embaixo dos pés" para descrever a situação de Grenoble.

No máximo ele recebeu respostas educadas. "Esses jovens estão a toda velocidade. O que vemos aqui está no limite do patológico", alarma-se também Jean-Paul Marry, diretor de serviço em uma das mais importantes associações de prevenção de Grenoble, outro veterano da esquerda, no social há 35 anos. "E em que medida esse pequeno núcleo vai servir de modelo para os outros, os que gravitam ao redor mas ainda não caíram nesse tipo de comportamento?", ele indaga.

Marry é partidário de explodir os tabus da esquerda francesa: sobre a autoridade dos adultos; sobre a educação com respeito; sobre a imigração... "A esquerda não tem discurso sobre essas questões", ele lamenta.
 

Em seu escritório na prefeitura, Jean-Philippe Motte, outro militante histórico da esquerda de Grenoble, conselheiro municipal encarregado da política da cidade junto ao prefeito (socialista) Michel Destot, leva as mãos à cabeça. "O que devemos fazer? Não sei se somos capazes de fazer alguma coisa por essa geração".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

 

UOL Cursos Online

Todos os cursos