Comprar uma ilha: o sonho posto à prova pelas cobras e pelos impostos

Nicole Vulser

  • Freddy Eliasson/Shutterstock

    Vista da Ilha de Hainan, na China, que atrai redes internacionais de hotéis e turistas

    Vista da Ilha de Hainan, na China, que atrai redes internacionais de hotéis e turistas

“As pessoas compram ilhas por prazer, e não por especulação”, afirma Serge Enu, presidente do grupo France Châteaux, um dos raros agentes imobiliários especializados na venda desses terrenos que fazem parte de tantos sonhos. Nos anos 1960, durante as filmagens de “O Grande Motim” (1962), Marlon Brando lançou a moda: não resistiu aos charmes de um atol polinésio, Tetiaroa, o comprou e ali viveu até o fim de seus dias.

Outras estrelas do cinema e da música o imitaram, como Mariah Carey, Diana Ross, Tony Curtis, Nicolas Cage ou ainda Mel Gibson, que comprou a ilha Mago em Fiji, por US$ 15 milhões (R$ 26,3 milhões). Johnny Depp e Vanessa Paradis são proprietários de uma ilha de 14 hectares nas Bahamas.

A ilha de Arros, nas Seicheles, ficou famosa desde que sua compradora, Liliane Bettencourt, a herdeira do fundador do grupo L’Oréal, começou a aparecer nas manchetes dos jornais. Essa ilha, assim como as outras quinze que as cercam, pertenceu anteriormente ao príncipe Shahram Pahlavi, sobrinho do ex-xá do Irã, explicou ao “Le Monde” aquele que a vendeu a este último em meados dos anos 1970, Farhad Vladi, um dos outros raros negociantes de ilhas do mundo, morador de Hamburgo.

“Nas Seicheles, assim como na Indonésia, uma pessoa física não pode ser proprietária direta de uma ilha. Ela deve comprar a maioria do capital de uma sociedade comercial ou de uma fundação na qual os administradores locais estejam presentes”, explica Enu. “É um esquema clássico”. Nesse contexto, a Arros Land Establishment foi registrada em Liechtenstein em 1975, na época em que Pahlavi ali se instalou. O preço de compra das partes dessa fundação pela sra. Bettencourt nunca foi divulgado.

Os atóis cercados por uma praia de areia fina raramente chegam à venda. E quando chegam, custam caro. Nos quarenta anos em que exerceu essa profissão, Vladi vendeu quase 2 mil ilhas. De todos os tipos: montes de cascalhos inacessíveis, no meio do oceano Atlântico, como esse pequeno pedaço de terra na Nova Escócia por 22 mil euros, mas também Der Tollow, no mar Báltico – diz a lenda que há um tesouro enterrado lá – , ou ainda pequenos paraísos sob os trópicos. Em seu catálogo, entre 120 ofertas, a mais cara (US$ 110 milhões) continua sendo Cave Cay, uma ilha de 90 hectares nas Bahamas, na qual há diversas mansões construídas, com uma superfície habitável de 6.500 metros quadrados.

“Na verdade, o preço é sempre alto para as raras ilhas de qualidade, como na França, na Itália, na Grã-Bretanha, na Escandinávia. Somente 5% delas têm acesso fácil, não estão longe demais do continente, e dispõem de uma plataforma de acostagem e de um clima temperado”, explica Fahrad Vladi.

O preço depende muito do tanto de tempo que se pode passar lá. O sol das Bahamas, garantido o ano inteiro, é necessariamente mais caro, ainda que às vezes seja preciso dinamitar uma barreira de recife de corais para se ter acesso. “As ilhas muito belas nunca voltam a ser postas à venda”, garante. “Mas alguns clientes não aguentam a umidade, os mosquitos, as cobras”, diz. Tanto que alguns compradores o procuram para comprar uma ilha de areia branca e coqueiros, mas saem com uma ilha de pinheiros na Escandinávia.

Segundo Enu, “quase 40% dos compradores de ilhas as revendem após alguns anos, quando o sonho passou”. O efeito cartão postal pode se dissipar rapidamente. O simples ato de sair para buscar pão, o jornal ou mandar os filhos à escola exige que se pegue um barco. Ainda que essa família Robinson esteja equipada com geradores, painéis solares, cisternas de água potável, ainda há a questão do recolhimento de lixo.

E se alguns proprietários não conseguem afinal se acostumar com o inconveniente, apesar de lógico, do isolamento absoluto, às vezes é o inverso que decepciona os compradores. Nem sempre a tranquilidade é tão garantida como eles podem ter sonhado.

Nas Antilhas – onde o Estado tornou quase impossível a aquisição perene de uma ilha – ou na França, por exemplo, em razão de uma legislação muito restritiva, qualquer velejador tem o direito de atracar em uma ilha e permanecer na areia da praia. Então de que vale comprar uma ilha, se for para ver “sua” praia sendo invadida por banhistas barulhentos, ou para ver “seus” caranguejos sendo pescados por pessoas vindas do continente? Sem contar que construir em uma ilha nem sempre é possível e custa mais caro do que no continente, uma vez que é preciso levar os materiais necessários. “Existem três perfis de compradores de ilhas: aqueles que adoram velejar e que, após uma volta ao mundo, querem se instalar sem realmente voltar à terra. Outros, industriais ricos, compram uma ilha para ali passar uns quinze dias por ano com seus amigos. E por fim, alguns querem uma ilha próxima do continente, para ali viverem com sua família”, explica Enu.

Mas esses que compraram por uma ninharia uma pequena ilha ao largo das costas bretãs nos anos 1950, hoje enfrentam a inflação dos preços imobiliários, e estão sujeitos ao imposto sobre a fortuna.

Uma ilha pelo preço de uma mansão? Duas pequenas ilhas com casa no golfo de Morbihan estão à venda, entre 2,2 e 2,7 milhões de euros. Para os mais aventureiros, na costa do Brasil 1.100 hectares de vegetação são oferecidos a 800 mil euros. A melhor relação custo-benefício do momento. Mosquitos inclusos.

Tradutor: Lana Lim

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