Exercícios militares aumentam tensão entre as duas Coreias

Philippe Pons

  • AFP

    Membros da marinha sul-coreana patrulham a fronteira com a Coreia do Norte, próxima ao Mar Amarelo. Nesta quinta-feira, a Coreia do Sul

    Membros da marinha sul-coreana patrulham a fronteira com a Coreia do Norte, próxima ao Mar Amarelo. Nesta quinta-feira, a Coreia do Sul

As manobras navais sul-coreanas feitas entre 5 e 10 de agosto no Mar Amarelo terminaram com uma barreira de fogo da artilharia norte-coreana. Para alguns, a centena de projéteis, lançados da costa norte-coreana na segunda-feira, caíram do lado sul-coreano da linha de demarcação marítima que separa as águas territoriais dos dois países. Consideradas por Seul como um “exercício de defesa legítima” após o naufrágio, no dia 26 de março, de seu navio Cheonan, atribuído ao ataque de um submarino norte-coreano, essas manobras foram chamadas de “invasão” por Pyongyang, que ameaçou fazer uma “retaliação física vigorosa”.

Aumentando a tensão, um barco pesqueiro sul-coreano e sua tripulação foram capturados no sábado, no Mar do Japão (Mar do Leste, para Seul) perto da zona econômica exclusiva norte-coreana. A tripulação tem três marinheiros chineses.

As manobras sul-coreanas anti-submarinos, que mobilizaram 4.500 homens, cerca de 30 navios e 50 aviões, estão entre as maiores já conduzidas por Seul sem a ajuda dos Estados Unidos. Elas aconteceram na zona marítima onde afundou o navio Cheonan, ao sul da “linha de limite norte” (LLN), que estende pelo mar a linha situada no centro da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias. A LLN passa entre a costa norte-coreana e uma série de pequenas ilhas sul-coreanas, a uma dezena de quilômetros destas.

Traçada pelos Estados Unidos, em nome das Nações Unidas, após a assinatura do armistício de 1953, mas sem consultar a parte adversa, a LLN nunca foi reconhecida pela República Popular Democrática da Coreia. Essa zona marítima delicada e fortemente militarizada foi palco de confrontos sangrentos entre unidades navais inimigas em 1999, 2002 e 2009. O Cheonan afundou ao sul de uma dessas ilhas: Baengyeong. Pyongyang nega qualquer envolvimento nesse naufrágio, que causou 46 mortes, e a China e a Rússia não aceitaram as conclusões do inquérito internacional.

As manobras sul-coreanas vieram na sequência daquelas, de maior amplitude, conduzidas no final de julho conjuntamente com os Estados Unidos. Em razão dos protestos da China, que se revoltava contra exercícios militares próximos de suas costas, estes aconteceram em grande parte do Mar do Japão.

As manobras conduzidas pela Coreia do Sul na zona do naufrágio do Cheonan pretendiam ser um “aviso” a Pyongyang, mas também uma demonstração das capacidades de sua marinha, cuja credibilidade foi abalada: se, como afirma Seul, tirando conclusões do inquérito internacional, um submarino norte-coreano realmente torpedeou o Cheonan e depois partiu sem ser visto, o sistema de defesa sulista apresenta sérias lacunas.

O surto de hostilidade entre as duas Coreias tem por pano de fundo um antagonismo - mais discreto mas não menos delicado – entre os Estados Unidos e seus aliados japoneses e sul-coreanos de um lado, e a China do outro, pela supremacia no Mar Amarelo e no Mar da China do Sul. Pequim anunciou “exercícios defensivos” nesses dois mares a fim de reafirmar aquilo que ela acredita ser seus “interesses vitais”. Uma demonstração de força que, após a do início de julho, é claramente uma retaliação às manobras americanas e sul-coreanas.

Para os chineses, o Mar da China do Sul e o Mar Amarelo são uma espécie de mare nostrum. Pequim vê com um olhar meticuloso a “intervenção” americana nos diferentes territórios quanto à soberania das ilhas no Mar da China do Sul. Na Cúpula das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), no fim de julho em Hanói (Vietnã), a secretária de Estado americana Hillary Clinton havia considerado “crucial” para a estabilidade regional a resolução dessas querelas e insistiu na importância da liberdade de navegação. Pequim reagiu vigorosamente ao ressaltar que as negociações com os países em questão (Filipinas, Brunei, Malásia, Taiwan e Vietnã) não deviam ser “internacionalizadas”.

Uma disputa análoga opõe a China e o Japão a respeito das ilhas Diaoyu. As ambições marítimas de Pequim, por outro lado, deram lugar a atritos com Tóquio durante a passagem, em abril, de uma frota chinesa pelo Estreito de Miyako (Okinawa). A dimensão naval da tensão entre as duas Coreias faz parte de uma rivalidade estratégica entre uma China que pretende ter para si uma liberdade de manobra nos mares “fechados” pela cadeia dos grandes arquipélagos (Japão, Taiwan e Filipinas), e os Estados Unidos, que procuram conter tais ambições com o aval dos países costeiros, preocupados com uma hegemonia marítima de seu grande vizinho.
 

Tradutor: Lana Lim

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