Operários do setor têxtil se revoltam em Bangladesh

Julien Bouissou

Enviado especial a Dacca

  • Andrew Biraj/Reuters - 29.abr.2010

    Empregados de empresas de vestuário de Dacca, em Bangladesh, entram em confronto com a polícia durante ato contra uma nova tabela salarial

    Empregados de empresas de vestuário de Dacca, em Bangladesh, entram em confronto com a polícia durante ato contra uma nova tabela salarial

Rafiqul prefere um encontro discreto no zoológico de Dacca. Desde que as violentas manifestações dos operários do setor têxtil começaram a abalar a capital de Bangladesh, os líderes sindicais como ele são vigiados de perto por policiais à paisana. Se ele for visto na companhia de um estrangeiro, poderá ser acusado de traição ao seu país, correndo o risco de ser preso. Então Rafiqul chega discretamente entre a jaula dos ursos e a dos macacos, acompanhado de um guarda-costas. Ele permanece atento, sobretudo desde que recusou a última proposta de aumento do salário mínimo mensal.

Em 31 de julho, uma comissão composta por representantes do governo, dos operários e do patronato decidiu aumentar o salário em 80%, para 3 mil takas (32,6 euros ou R$ 75), ante os 19 euros de antes. “Esse aumento mal cobre o aumento do custo de vida. Precisamos de pelo menos 55 euros para sobreviver. Aqueles que nos representaram são membros do partido do governo. Você realmente acha que eles são imparciais?”, ironiza o líder sindical.

Para estabelecer o novo salário mínimo, a comissão dos salários calculou o número de calorias diárias das quais um operário precisa para sobreviver. “3.200 calorias por dia, ou seja, cerca de 27 euros por mês”, explica friamente o juiz Ikteder Ahmed, presidente do comitê do salário mínimo.

É assim que, em Bangladesh, um operário que precisa sustentar alguém que não a si mesmo, como é muitas vezes o caso, cai abaixo do limiar de pobreza trabalhando até 10 horas por dia, 6 dias por semana. Nos dias que se seguiram ao anúncio do novo salário mínimo, 50 fábricas foram saqueadas, e quase cem manifestantes ficaram feridos em confrontos com a polícia.

O movimento de protesto, que começou em junho, preocupa o governo. De 1995 a 2010, o faturamento do setor passou de US$ 2 bilhões para US$ 12,3 bilhões (R$4,6 bilhões para R$ 28,3 bilhões) e representa sozinho 7% do produto nacional bruto (PNB). Esse crescimento se deve ao aumento dos salários na China e a uma “ampla reserva de mão de obra barata e de dedos finos”, explica Munsur Khaled, porta-voz da poderosa Associação dos Exportadores e Fabricantes de Vestuário de Bangladesh (BGMEA, sigla em inglês).

Há vinte anos, o governo de Bangladesh apostou tudo no “eldorado do têxtil”. Mais de seis zonas francas dedicadas à exportação foram criadas. O governo chegou a inventar o status de “commercially important people” reservado aos principais exportadores do país, que recebem, entre outras coisas, acesso prioritário nos aeroportos e direito ao porte de arma. Como a sobrevivência em Bangladesh parece depender das exportações, os pequenos furgões que levam a inscrição oficial “Urgente. Entrega para exportações” são prioritários no tráfego congestionado de Dacca.

Cerca de 80% das exportações do país dependem do setor de vestuário, que criou mais de 3,5 milhões de empregos. “Até hoje, a mão de obra era composta sobretudo por mulheres, consideradas mais dóceis. Com a chegada dos homens, apareceram as reivindicações. E a ausência de diálogo social, em razão da proibição dos sindicatos, leva à violência”, explica Mustafizur Rahman, economista e diretor do Centre for Policy Dialogue, um centro de pesquisas com sede em Dacca.

Os sindicatos são autorizados somente nas fábricas, fora das zonas francas, se pelo menos 30% dos funcionários fizerem o pedido. Ou seja, são quase inexistentes, ainda que 28 federações de trabalhadores, no limite da legalidade, tenham sido criadas. “Se autorizarmos os sindicatos, os trabalhadores dependerão de elementos externos que perturbarão o trabalho”, explica Shamsuz Zaman, diretor de operações da fábrica Gildan.

Então em Bangladesh, são os compradores internacionais que exercem o papel dos sindicatos. As distribuidoras, como H&M e Zara, vêm inspecionar as fábricas todos os meses para verificar se estão em conformidade com especificações muito rígidas: respeito aos horários de trabalho, presença de uma enfermaria, segurança anti-incêndio e número de trabalhadores por metro quadrado.

“São só aparências”, reclama Arjun, que fabrica mais de 150 camisetas por dia, “especialmente para a H&M, quando eles vêm inspecionar a fábrica, somos avisados com antecedência. E devemos mentir para eles sobre nossos salários e nossos horários de trabalho”. Arjun, 20, ganha cerca de 54 euros por mês. Ele pede pela criação de dormitórios, para economizar com os custos de transporte, e sobretudo dias de folga, para não ser demitido quando precisa se ausentar por alguns dias. Com sua irmã e seus pais, ele vive em um quartinho pouco maior que a cama, na qual todos dormem amontoados. A cozinha, um ponto de água dividido com os outros moradores da favela, fica do lado de fora. Sob pressão de sua família, que precisa de seu salário para sobreviver, Arjun se resignou a não aderir ao movimento da greve.

Outros, com frequência muito jovens, foram presos por terem protestado. “Basta que os patrões os acusem de incitação à violência para que todos sejam colocados na cadeia”, explica Rafiqul. Islam, por exemplo, foi solto sob fiança, um mês atrás. “Eu só estava pedindo para que me remunerassem pelas horas extras. Os patrões nos dizem que eles são pobres, mas por que constroem fábricas em todo lugar e andam de Mercedes se não têm dinheiro?”, se irrita.

A fábrica onde ele trabalha agora produz camisetas para o exterior, mas nenhum inspetor vem para monitorá-la. Ela só recebe suas encomendas de fábricas vizinhas “homologadas”, uma vez que estas últimas operam acima da capacidade. Aqui, as reprimendas são severas. Um supervisor berra, com a mão erguida, para uma operária, enquanto as demais costuram camisetas a um ritmo desenfreado, sob um calor sufocante. Todos são pagos de acordo com a produção.

A BGMEA, que reúne quase todos os fabricantes de vestimentas do país, garante estar procurando melhorar as condições de trabalho. “Mas nós não podemos aumentar os salários. Senão as fábricas vão fechar”, avisa Munsur Khaled. Os proprietários mencionam o custo da infraestrutura deficiente. O congestionamento dos portos atrasa as entregas, o que os obriga às vezes a enviar suas mercadorias por avião, e as fábricas devem produzir sua própria eletricidade.

“O problema é que se os salários aumentarem, as fábricas comprarão máquinas e empregarão menos gente”, prevê Mustafizur Rahman. Quanto ao montante do novo salário mínimo, o economista hesita: “Um salário de 38 euros permite criar empregos, mas ele não tirará os operários da pobreza”.

 

Tradutor: Lana Lim

UOL Cursos Online

Todos os cursos