A alta no preço do trigo poderia provocar uma crise alimentar?

Clément Lacombe

  • Mauro Zafalon/Folha Imagem - 19.05.2009

No começo era o trigo. Eis o que Dimitri Medvedev, presidente russo, lembrava em 2009, na véspera da abertura do Fórum Mundial de Grãos de São Petersburgo, que deveria consagrar a volta da grande Rússia agrícola. Mas hoje, pode o trigo russo causar uma nova crise alimentar?

A brusca disparada dos preços do trigo por causa da onda de calor e da seca na Rússia está reavivando o fantasma de 2007 e 2008. Dois anos em que os preços das matérias-primas agrícolas – trigo, milho, arroz, soja... – dobraram. E no elo final da cadeia, desde Dacar até Cidade do México, passando pelo Cairo, violentos “tumultos da fome” para protestar contra o aumento dos preços dos alimentos. “Ainda não estamos em situação de alerta, mas estamos observando a situação bem de perto”, explica Eric Hazard, da ONG Oxfam em Dacar.

A Rússia, uma participante de peso em declínio

Aproveitando seus tchernozions, famosas terras negras muito produtivas e férteis, a Rússia se tornou, nestes últimos anos, a terceira maior exportadora mundial de trigo, com 18 milhões de toneladas, logo atrás dos Estados Unidos (22,9 toneladas) e da União Europeia (19,5 toneladas). Infelizmente, a onda de calor e os incêndios reduziram a zero suas capacidades de exportação.

O primeiro-ministro Vladimir Putin afirmou, na segunda-feira (9), que a produção do país aumentaria para somente 60 a 65 milhões de toneladas de cereais, dos quais cerca de dois terços são de trigo, longe dos 90 a 95 milhões de toneladas inicialmente previstos. O Kremlin também decidiu instaurar um embargo sobre suas exportações de cereais para não afetar demais o consumo interno.

Resultado: os mercados mundiais dispararam, com o Chicago Mercantile Exchange registrando volumes recordes de transações. O alqueire de trigo (cerca de 27 kg) em três meses chegou a US$ 7,85 (R$ 13,90) no dia 8 de agosto, ou seja, um aumento de quase 70% em relação a junho, antes de recuar um pouco nos dias seguintes por realizações de lucros. Em julho, o preço da espiga saltou 38%, uma alta mensal jamais vista desde 1973. “Mas ainda estamos bem longe dos picos de 2008”, diz o economista Philippe Chalmin, coordenador do relatório Cyclope, a bíblia das matérias-primas. Nessa época, o alqueire chegou a 12,80 euros em Chicago.

Os mercados ficaram mais nervosos uma vez que outros grandes exportadores de trigo também encontraram problemas climáticos: onda de calor nos outros países do Mar Negro (Ucrânia e sobretudo Cazaquistão), onda de calor em junho que afetou a produção na Europa, inundações no Canadá... “Os industriais retomaram posições nos mercados para garantir seus fornecimentos”, explica Michel Portier, diretor da consultoria especializada Agritel. “E a situação tensa atraiu novos atores, que vieram especular”.

Estoques muito abundantes

Até a colheita 2007-2008, os estoques mundiais de trigo haviam sido consideravelmente reduzidos após sete anos consecutivos de consumo superior à produção. Um fenômeno associado a colheitas decepcionantes e ao desenvolvimento de novas práticas alimentares, especialmente o consumo de carne: cerca de um terço da produção mundial serve, na verdade, para alimentação do gado.

Mas a disparada dos preços de 2007-2008 inverteu consideravelmente a tendência: atraídos pelos altos preços, agricultores voltaram a colocar em atividade terras inutilizadas ou semearam em superfícies maiores... Resultado: as reservas mundiais culminam em 197 milhões de toneladas, muito distante do nível de 118 milhões de 2007-2008.

Em 2010-2011, o consumo mundial de trigo deverá superar novamente a produção, segundo uma estimativa do Conselho Internacional de Grãos publicada em 29 de julho, com um déficit de 5 milhões de toneladas.

Acima de tudo, as incógnitas persistem. A começar pelo caso da Rússia, onde a próxima colheita talvez já esteja comprometida: as semeaduras devem começar no fim de agosto, sendo que a onda de calor deverá durar pelo menos até 20 de agosto, segundo previsões publicadas na terça-feira (10) pelo Hydrometcentre, o centro russo de previsões meteorológicas. Os especialistas também observam atentamente a Austrália, onde esperam fortes chuvas daqui a duas ou três semanas. “Com a chuva na Austrália e na Rússia, o preço do alqueire poderá cair 20% e voltar para a faixa dos US$ 5,50”, acredita Portier. Mas se a onda de calor russa persistir e a Austrália, por sua vez, for atingida pela seca, o cenário de 2007 poderá se repetir”.

“A situação é séria”, acredita Abdolreza Abbassian, economista da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, “mas será preciso esperar ainda dois ou três meses para medir todas suas consequências”. Ainda mais porque o trigo arrastou para sua alta outras matérias-primas: o preço da cevada dobrou, alguns tipos de milho tiveram aumentos de 40%. Altas que limitam a substituição do trigo por esses produtos, mas que não afetaram o arroz, cujo preço dobrou em 2007-2008: nos mercados mundiais – onde ele é pouco comercializado, pois raramente cruza as fronteiras de seus países de produção – o arroz sofre uma alta limitada de 10%.

Impactos variáveis para os consumidores

Nos países desenvolvidos, a alta dos preços mundiais do trigo deverá ter um impacto limitado para o consumidor. “A alimentação do gado representa 60% a 80% dos custos do criador”, explica Portier. “Se o aumento dos preços continuar, a carne poderá encarecer em 8% a 10%”.

Ainda que na França o trigo represente somente 5% do preço da baguete, nos países em desenvolvimento, onde 60% a 90% das rendas são dedicados à alimentação, o impacto pode ser muito mais violento: “O trigo representa pelo menos 50% do preço do pão” nesses países, observa Abbassian. Especialmente na África, onde é produzido pouco trigo. Como observa Cécilia Bellora, vice-diretora da Fundação para a Agricultura e Ruralidade no Mundo (FARM), “o pão se tornou um alimento de base nos centros urbanos de muitos países africanos”. A alta do preço do pão contribuiu muito para “as revoltas da fome” de 2008 no Egito e na África Ocidental.

Resta saber em quanto tempo e em que medida a alta dos preços do trigo repercutirá nos consumidores dos países em desenvolvimento. Ao limitar as taxas de importação, os governos podem limitar o impacto das altas dos preços. Ainda mais que o efeito amortecedor da taxa de câmbio será menor na África do que em 2007-2008: todas as transações em nível internacional são feitas em dólar; mas o franco CFA se atrelou ao euro, que desde então teve forte queda diante do dólar.

Tudo dependerá da vontade – ou da capacidade – dos importadores de repassar a volatilidade dos preços para os compradores locais. “O repasse dos preços mundiais para os mercados locais continua muito vago”, observa Bellora. “No Senegal, em tempos normais, somente 30% da alta dos preços do arroz sobre os mercados é repassado em nível local. Ora, em 2008, a alta dos preços do arroz foi, no final, repassada em sua totalidade aos consumidores”.

Tradutor: Lana Lim

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