As inundações no Paquistão acentuam o enfraquecimento do presidente Zardari

  • Akhtar Soomro/Reuters

    ONU pede US$ 459 milhões para vítimas de inundações no Paquistão

    ONU pede US$ 459 milhões para vítimas de inundações no Paquistão


Quinze dias após o início das inundações sem precedentes que paralisam metade do Paquistão e atingiram mais de 15 milhões de pessoas, o país descobre aos poucos a dimensão de uma catástrofe que poderá perdurar. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, em Islamabad, o saldo de 1.600 mortos poderá aumentar após o recuo das águas. Quase 30% das colheitas das províncias do Sind e do Punjab foram destruídas.

Refinarias e diversas fábricas são ameaçadas pela elevação das águas, o que poderia afetar principalmente o fornecimento de combustível. O Fundo Monetário Internacional (FMI) na quarta-feira afirmou estar “preocupado” com o futuro de um país cuja economia já recebe um plano de ajuda de US$ 11,3 bilhões.

Diante do crescente descontentamento de uma população que critica sua incompetência, o governo paquistanês decidiu levantar suas últimas reservas frente ao envio de uma ajuda maciça internacional. A ONU lançou, na quarta-feira, uma arrecadação de recursos de US$ 460 milhões (cerca de R$ 815 milhões).

Mas nessa delicada região, o drama humanitário também tem consequências políticas. Uma semana após a volta de uma viagem muito polêmica do presidente Asif Ali Zardari pela Europa, a imprensa paquistanesa ainda critica sua decisão de prosseguir com a viagem, que incluía uma parte privada muito luxuosa, enquanto seu país era atingido por um desastre.

Seu principal opositor político, o ex-premiê Nawaz Sharif, dirigente da Liga Muçulmana do Paquistão (PML-N) e seu irmão, líder do governo da província do Punjab, a mais populosa do país, exploraram sua ausência. Eles apareceram nas zonas vitimadas e anunciaram que já haviam arrecadado 12 milhões de euros vendendo propriedades provinciais, entre outras.

O primeiro-ministro Youssouf Raza Gilani, por sua vez, tentou justificar a ausência do chefe do Estado com a nova divisão dos poderes nas instituições do país, ratificada no início de 2010, que concede ao governo um papel predominante na conduta das questões do país. Mas seu discurso pouco convenceu. Os analistas políticos avaliaram que ele também podia encontrar interesse nessa situação. Ele reforça sua própria posição dentro do Partido do Povo Paquistanês (PPP), copresidido por Zardari e seu filho, Bilawal.

O exército paquistanês, que por muito tempo dirigiu o país e conserva um peso preeminente frente ao poder civil, parece ter se saído bem ao midiatizar sua ação em campo. Na província do noroeste, principal vítima das inundações, efetivos militares já estavam presentes para combater a insurreição, em especial a taleban, e para administrar o fluxo dos milhares de desabrigados.

“No noroeste do país, especialmente em Swat, a zona mais afetada, nós só podemos utilizar os helicópteros quando a chuva para, então colocamos nas trilhas uma centena de mulas para chegar até a população, como fizemos na ocasião do terremoto na Caxemira”, explicava, na quarta-feira, em Islamabad, um dos porta-vozes do exército. Em 8 de outubro de 2005, esse terremoto havia feito 88 mil mortos e mais de US$ 5 bilhões em prejuízos.

No final, último grande elemento dessa catástrofe, os movimentos islâmicos não poupam esforços para ajudar as vítimas. Eles já haviam feito isso para o terremoto na Caxemira e há dois anos para o êxodo interno dos desabrigados do noroeste.

Logo nas primeiras inundações, ao longo das estradas e nos acampamentos improvisados, membros da associação Al-Rashid Trust, com sede no Paquistão e no Afeganistão, considerada próxima do movimento jihadista e consequentemente dos militantes do Jamaat-ud-Dawa, partido islâmico paquistanês acusado de ligação com os ataques de Mumbai de novembro de 2008, levavam sua assistência.

Enfim, também bastante presente, o partido religioso paquistanês Jamaat-e-Islami, organizado e cada vez mais influente, fornece sua ajuda muitas vezes antes mesmo que o resgate chegue ao local.

Os rebeldes islâmicos do Movimento dos Talebans do Paquistão (TTP), por sua vez, pediram ao governo que recusasse a ajuda americana, afirmando que eles mesmos podiam dar US$ 20 milhões para auxiliar a população em questão. “Não se sente uma ameaça direta em campo, há uma espécia de cessar-fogo”, observava-se na quarta-feira, no escritório da ONU em Islamabad. “Os temores de ganho político imediato para os islâmicos são infundados”, explica Mariam Abu Zahab, especialista francesa em redes islâmicas paquistanesas, “um saco de arroz não vale um voto, o povo não é bobo”.

No Ministério das Relações Exteriores francês, avaliava-se, na quarta-feira, que esses movimentos “estavam capitalizando a longo prazo com o enfraquecimento do poder político”. O equilíbrio político interno não deve ser afetado, ainda que o exército e a esfera de influência islâmica ganhem ali em termos de imagem, em detrimento do poder político. Para limitar esse descrédito, os Estados Unidos, principal apoio do presidente Zardari, subiram para US$ 55 milhões sua ajuda de emergência. No fim, eles deslocaram até o local helicópteros posicionados no Afeganistão e enviaram um porta-helicópteros ao largo das costas paquistanesas.

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