Os Estados Unidos constrangidos por seus mercenários

  • Saul Loeb/AFP

    Após assumir a presidência, Obama cancela<br>contrato entre a CIA e empresa militar privada

    Após assumir a presidência, Obama cancela<br>contrato entre a CIA e empresa militar privada

O momento escolhido pelo presidente afegão, Hamid Karzai, para defender a proibição dos mercenários em seu país só pode mergulhar Washington em um sério constrangimento. Além disso, Karzai não estimou uma data-limite para a dissolução das 52 empresas militares privadas que operam no Afeganistão. Ele se baseia em algumas constatações. Primeiramente, no fato de que “a população não confia” nos mercenários. Depois, que “sua existência é contrária aos interesses nacionais afegãos”. Ele ressalta, por fim, que os afegãos que trabalham para essas empresas seriam mais úteis dentro das forças de segurança governamentais.

Não é a primeira vez que o governo afegão, assim como o de Bagdá, se queixa dos mercenários. Que país, mesmo aliado com Washington e que aceite a presença de uma força militar internacional em seu solo, gostaria de se ver invadido por homens não controlados pelo poder político, que não obedeçam a nenhuma ordem militar e não respondam a nenhuma justiça, civil ou militar, em caso de infração ou de crime?

Houve um tempo, durante sua campanha eleitoral, em que os democratas americanos juraram que reexaminariam essa privatização da guerra desejada pela administração Bush. Barack Obama e sua comitiva estavam entre os mais convencidos do aspecto nefasto do mercenarismo. Hillary Clinton era então uma das duas representantes no Senado a preconizar uma legislação sobre uma proibição total das atividades militares privadas.

Desde que subiu ao poder, a única iniciativa da equipe de Obama consistiu em cancelar o contrato entre a CIA e a Blackwater (a maior empresa militar privada do mundo) que confiava aos mercenários desta última um programa secreto de assassinatos. De resto, a Blackwater e as outras empresas continuam a receber bilhões de dólares do governo americano por atividades de segurança e de logística, ou até de inteligência, no Afeganistão, no Iraque e em outros pontos de conflito do mundo. O diretor da CIA, Leon Panetta, reafirmou em junho que esta última “precisava” da Blackwater para garantir a segurança de suas bases e de seus agentes em zona de guerra.

Outros fatores pesam contra uma proibição dos mercenários, especialmente o fato de que a vontade política de Obama de retirar o exército americano do Iraque e, a longo prazo, do Afeganistão, obviamente não elimina da noite para o dia as necessidades de segurança.

Entretanto, Karzai tem razão, e os oficiais americanos são os mais bem posicionados para sabê-lo. Recorrer a mercenários geralmente é uma desvantagem para o sucesso de uma missão militar. De um ponto de vista moral, o uso da força letal não pode ser deixado para “particulares” sem fé e sem lei. De um ponto de vista político, é preciso saber qual é o objetivo: enquanto um exército tem por ordem ganhar uma guerra, ou seja, pôr um fim a ela, o único interesse dos mercenários e de outros caçadores de recompensas é que uma guerra continue, pelo maior tempo possível.
 

Tradutor: Lana Lim

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