Curdistão iraquiano encontra dificuldades para explorar seu petróleo

Guillaume Perrier

Enviado especial a Taq-Taq

  • Hasan Jamali/AP

    Exploração de petróleo no Curdistão continua entravada pelos conflitos políticos com Bagdá

    Exploração de petróleo no Curdistão continua entravada pelos conflitos políticos com Bagdá

Seu nome lembra a rajada de um fuzil Kalashnikov, mas é “champanhe” que é extraído do campo petrolífero de Taq-Taq. “Retira-se óleo bruto em estado puro, quase sem gás e sem água, de altíssima qualidade. É o melhor petróleo do mundo”, afirma o diretor de produção, Can Savun, da companhia turca Genel Enerji.

Situado à uma hora de Erbil, em uma região árida e montanhosa, o campo de Taq-Taq é um dos dois locais de produção de petróleo em atividade na província autônoma curda do Iraque. “Esses poços foram perfurados durante o regime de Saddam Hussein, nos anos 1970”, mostra Savun. A produção – que chega a 60 mil barris por dia – continua modesta, segundo a companhia que espera “há cinco anos” para poder aumentar o volume. Um terceiro poço começará a funcionar; sete outros estão previstos, na zona onde operam conjuntamente a Genel Enerji e a Addax Petroleum, comprada recentemente pelos chineses da Sinopec.

O ministro dos Recursos Naturais do governo autônomo curdo (KRG), Ashti Hawrami, fala de um “oceano de petróleo” para se referir ao subsolo de sua região. De 100 mil barris por dia, poderá produzir dez vezes mais em cinco anos. A região curda até agora enfrentou a oposição do governo central iraquiano de Bagdá, que contesta o direito de Erbil de assinar seus próprios contratos e de exportar diretamente seu petróleo sem pagar os dividendos. Há vários anos, essa queda de braço atrasa o boom petroleiro no norte do Iraque que abriga, segundo estimativas, mais de 40 bilhões de barris, cerca de 20% das reservas iraquianas.

Em 2009, o petróleo de Taq-Taq, assim como o de Tawke, explorado pelos noruegueses da DNO, começava a ser exportado para a Turquia, mas Bagdá havia mandado suspender as exportações, por não haver um mecanismo de pagamento confiável. Em maio de 2010, parecia se estar próximo de um acordo que retomasse essas exportações. Enquanto espera a nomeação do novo governo iraquiano, o problema permanece em suspense. “Será a primeira questão a ser resolvida pelo novo poder central”, acredita um especialista em política local, para quem “os curdos estarão dispostos a fazer um acordo com Bagdá para exportar seu petróleo”.

A administração curda se contentaria com 17% das receitas petrolíferas iraquianas que lhe fossem de direito. O outro obstáculo a ser eliminado será a fragilidade das vias energéticas. O oleoduto Kirkouk-Ceyhan costuma ser sabotado e o transporte, interrompido. Um novo oleoduto até a Turquia, ligado a Taq-Taq e Tawke, foi anunciado para 2014.

Mas as grandes empresas petroleiras ainda estão à espera de uma regulamentação política. Por enquanto, investir no Curdistão poderá lhes fechar a porta da região de Bassora, ao sul, onde se encontram as maiores reservas de petróleo do país. O ministro iraquiano do Petróleo, Ali al-Sharistani, ameaçou diversas vezes colocar na lista negra as companhias que assinassem acordos diretamente com o KRG. A chinesa Sinopec foi advertida após ter comprado a Addax, presente em Taq-Taq. Atualmente, 28 grupos dividem o território curdo, entre os quais a francesa Parenco.

Opacidade

A disputa voltou à tona desde que Bagdá acusou as autoridades regionais curdas de exportação ilegal para o Irã, que está sob embargo. Filas de caminhões-tanques estariam atravessando a fronteira. O petróleo saído da produção local, tratado nas dezenas de refinarias clandestinas que existem no Curdistão, seria em seguida exportado às escondidas. Em Erbil, o ministro do Comércio, Sinan Chelebi, garante que tudo é feito “respeitando as diretivas das Nações Unidas”. No entanto, perto do local de abastecimento do campo de Taq-Taq, dezenas de caminhões esperam sua vez. Alguns motoristas admitem facilmente fazer bate-voltas regulares até o Irã. “As transportadoras são diretamente delegadas pelo ministro, Hawrami”, explica Can Savu, que afirma não saber para onde vão os carregamentos.

Em seu escritório do Parlamento de Erbil, a deputada Nask Abdul Karim, líder da comissão para Energia, também não sabe. Essa representante de oposição islâmica, partidária da luta anticorrupção, critica o contrabando com o Irã e, de maneira geral, a completa opacidade do comércio petroleiro. “Não se sabe para onde vão as receitas do petróleo, o que há nos contratos, ninguém sabe, nem mesmo o primeiro-ministro. Nós fizemos a pergunta ao Parlamento em fevereiro, e ainda não recebemos resposta”, diz. Quanto é exportado e declarado em Bagdá? Hawrami se recusa a responder.

Bagdá também acredita que alguns contratos fechados com a norueguesa DNO cheirem a escândalo. O ex-embaixador americano e assessor da Defesa do governo Bush, Peter Galbraith, recebeu 5% das partes do campo petrolífero de Tawke, no Curdistão, por ter favorecido a assinatura de um acordo entre os curdos e a DNO. Afinal, o diabólico Zalmay Khalilzad, ex-embaixador americano no Iraque e no Afeganistão, que agora trabalha com consultoria de negócios, acaba de ser nomeado membro do conselho administrativo da DNO.
 

Tradutor: Lana Lim

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