Minorias tentam sair do país e contradizem paz divulgada pelo governo do Sri Lanka

Frédéric Bobin

A incrível odisseia através do Oceano Pacífico dos 500 refugiados tâmeis do Sun Sea é uma má notícia para o governo de Colombo. Ela contradiz a propaganda oficial do regime do Sri Lanka que exalta as benesses da volta à paz após o esmagamento sangrento, na primavera de 2009, do último grupo de insurreição separatista tâmil no nordeste da ilha do Oceano Índico.

O fato de membros da minoria tâmil (15% da população) continuarem a arriscar suas vidas dessa forma para fugir do Sri Lanka diz muito sobre o estado de frustração que continua a habitar essa comunidade étnica, que se julga maltratada pelo nacionalismo da maioria cingalesa (75%). A Austrália foi, nestes últimos meses, o destino preferido dos candidatos ao êxodo. Cada vez mais reprimidos, estes últimos agora se aventuram até a costa pacífica do Canadá.

Será que se deve enxergar nessa onda migratória uma conspiração de grupos persistentes dos Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE, sigla em inglês), a ex-rebelião que tomou as armas em meados dos anos 1970 para construir um Estado tâmil independente no nordeste do Sri Lanka? Em Ottawa, o ministro da Segurança Pública, Vic Toews, deu a entender que os Tigres poderiam ser os inspiradores da escapada do Sun Sea. A investigação conduzida pelas autoridades canadenses permitirá confirmar a veracidade da suspeita.

A declaração de Toews, fundamentada ou não, ilustra a preocupação crescente de países receptores – como o Canadá ou a Austrália – com a possibilidade da reconstituição em suas terras das bases políticas de um LTTE, militarmente derrotado no Sri Lanka, mas ainda influente do ponto de vista ideológico entre a diáspora.

Imprudência militar

Um milhão de tâmeis do Sri Lanka, ou seja, um quarto de toda a comunidade tâmil de origem insular, moram no exterior. A maioria fugiu de uma guerra civil que em 25 anos teria feito cerca de 100 mil vítimas. Foram 200 mil os que encontraram refúgio no Estado meridional indiano do Tamil Nadu, próximo pela geografia e pelos laços étnicos. O resto imigrou para o Ocidente, sobretudo para o Canadá (cerca de 250 mil), Grã-Bretanha (180 mil), Alemanha (60 mil), Suíça (47 mil), França (40 a 50 mil) e Austrália (40 mil).

Partidária do ideal de um Estado tâmil independente, essa diáspora teve um papel estratégico no apoio ao LTTE, principalmente na arrecadação de fundos que permitiu a compra de armamentos. Após anos de indiferença, os Estados ocidentais endureceram bruscamente sua atitude em relação às atividades do LTTE em seu território no dia seguinte aos atentados do 11 de setembro, que aumentou a mobilização contra o “terrorismo internacional”. Muitos Estados incluíram então o LTTE em suas listas de “organizações terroristas”. Esse isolamento internacional se somou à brutal ofensiva militar do exército do Sri Lanka a partir de 2008 para acelerar a derrota dos Tigres.

A maioria dos analistas acredita que um despertar do LTTE não deverá acontecer a curto prazo. Ainda que os ressentimentos sejam bem fortes em relação ao regime do Sri Lanka, os tâmeis do “interior” estão cansados da violência e desiludidos com a imprudência militar do LTTE que os levou a um trágico impasse. Mas os tâmeis do “exterior” continuam a cultivar a mística do nacionalismo tâmil. Se o LTTE renascer de suas cinzas, será primeiramente entre essas comunidades expatriadas.

Cortado do país, esse radicalismo da diáspora está fadado a impotentes conjurações. Entretanto, se a “reconciliação” prometida por Colombo fracassar, provocando um novo acesso de exasperação entre os tâmeis do “interior”, os Tigres exilados encontrarão facilmente seu papel histórico.
 

Tradutor: Lana Lim

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