Política externa do presidente Lula agita a campanha eleitoral

Jean-Pierre Langellier

  • Sergio Lima/Folha Imagem

    Candidatos da oposição criticam a proximidade do presidente Lula com o regime iraniano

    Candidatos da oposição criticam a proximidade do presidente Lula com o regime iraniano

O Irã se convidou para as eleições presidenciais brasileiras do dia 3 de outubro. Esse súbito surgimento de um tema de política externa em debates logicamente dominados por alguns grandes assuntos internos – economia, segurança, saúde, educação – resulta de um cálculo tático dos candidatos da oposição: eles viram na aproximação entre Brasília e Teerã o calcanhar de Aquiles do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

É o que ocorre com o candidato José Serra, o principal adversário da candidata do governo apontada por Lula, Dilma Rousseff. A sete semanas da votação, ele está dez pontos atrás de sua rival. Esta tem uma vantagem tão grande que poderia ser eleita logo no primeiro turno.

Diante da favorita de Lula e das pesquisas, Serra vem encontrando bastante dificuldade para mostrar sua divergência. A ausência de uma grande controvérsia, na democracia brasileira, tranquila e consensual, o impede de fazer discursos muito exaltados. O impressionante índice de aprovação – cerca de 80% - de Lula, também proíbe que Serra ataque o presidente de frente.

Resta o Irã, que oferece um alvo para os oponentes. Estes podem criticar não somente os erros ou as gafes que acompanharam a aproximação entre Irã e Brasil, desde que o presidente Mahmoud Ahmadinejad foi recebido como amigo em Brasília em novembro de 2009, mas sobretudo a surpreendente complacência que o Brasil, país democrático e tolerante, vem demonstrando para com um regime obscurantista e despótico.

Dois episódios alimentam a polêmica. Em maio de 2010, a visita de Lula a Teerã resultou em um acordo tripartite Brasil-Irã-Turquia sobre a questão nuclear entre a República Islâmica e as grandes potências, logo rejeitado por estas. Em junho, o Conselho de Segurança das Nações Unidas votou sanções contra Teerã. Pela primeira vez desde 1946, o Brasil não seguiu a maioria do Conselho, e se opôs às sanções após ter convencido a Turquia, tentada a se abster, a fazer o mesmo.

Em julho, o destino prometido a Sakineh Mohammadi-Ashtiani, uma iraniana ameaçada de morte por apedrejamento, comoveu a opinião pública internacional. O presidente Lula se disse disposto, “se esta mulher estiver causando incômodo” no Irã, a recebê-la no Brasil. Depois de ter atribuído essa oferta a um excesso de “sensibilidade” de Lula, Teerã a recusou, e depois afirmou não ter recebido nenhum pedido oficial de clemência do Brasil.

Sobre esses dois episódios, Serra emitiu duras palavras: “Eu não teria feito essa negociação com Teerã, por não confiar em um ditador. Guardando as proporções, é como o pessoal que confiou em Hitler em Munique”, “O Irã tem um regime violento e impiedoso”, “em meu governo, não toleraremos isso”.

A candidata ambientalista, Marina Silva, em terceiro lugar nas pesquisas com 10% das intenções de voto, também lamenta o fato de que, “no que diz respeito aos direitos humanos”, o Brasil, “país de tradição democrática e de cultura de paz”, “perdeu a oportunidade de reafirmar seus princípios na questão do Irã e dos prisioneiros políticos em Cuba”.

O caso das sanções, o consequente conflito com as grandes potências – inclusive a Rússia –, e o fracasso do Brasil deixou cicatrizes. Lula afirma nunca alimentar ressentimentos na política. Entretanto, nas circunstâncias, ele admite uma verdadeira amargura em relação aos membros permanentes do Conselho de Segurança, exprimida publicamente quase toda semana.

“Fiquei profundamente chocado”, declarou, em 3 de agosto, “pelo fato de que os Estados Unidos, a Rússia e a França não quiseram nem mesmo ler o texto do acordo que assinamos em Teerã. Fiquei irritado por esses países só pensarem em discutir sanções. Hoje tenho a convicção de que essas pessoas querem manter o clima de instabilidade para, à moda de Maquiavel, dividir para reinar”.

Brasília também lamenta que os dois países africanos, Nigéria e Gabão, que haviam recebido “um tratamento privilegiado” do governo Lula, tenham votado a favor das sanções.

A política externa só interessa a uma pequena minoria de eleitores. Portanto, as ligações perigosas entre Teerã e Brasília mal pesarão sobre os resultados da eleição. Mas elas têm o mérito de chamar a atenção para as pretensões e os limites da diplomacia brasileira, que tem alguns aspectos que surpreendem e preocupam a Europa e os Estados Unidos.

A mais recente iniciativa do Brasil não ajudará a tranquilizá-los. Brasília propôs uma reforma do funcionamento do Conselho dos Direitos Humanos da ONU em Genebra: ao final dos debates que estão sendo feitos, o conselho não trataria de condenar mais os países que passam por cima desses direitos, procedimento considerado “ineficaz”, e sim tentar converter as ditaduras pelo diálogo. Uma aposta no mínimo audaciosa.
 

Tradutor: Lana Lim

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