Na América Latina, o La Niña sopra o frio até a Amazônia

Chrystelle Barbier

Em Lima (Peru)

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    Por causa do fenômeno La Niña foi decretado estado de emergência no Peru, onde as baixas temperaturas favorecem a multiplicação de pneumonias fatais

    Por causa do fenômeno La Niña foi decretado estado de emergência no Peru, onde as baixas temperaturas favorecem a multiplicação de pneumonias fatais

Com seu bebê nas costas, enrolado em sua “manta”, um tecido colorido tradicional dos Andes, Dionisia espera sua vez na clínica de saúde que não esvazia nunca. “Meu filho está doente dos brônquios”, se preocupa a jovem mãe, convencida de que a enfermidade é consequência das baixas temperaturas que vêm castigando Lima há várias semanas.

Dionisia vive em Manchay, um município a leste da capital peruana, onde se estendem a perder de vista casas de madeira compensada e tetos em chapa, plástico ou papelão, que não resistem bem aos ventos que varrem as colinas.

Em Lima, o termômetro desceu para 8,8 graus no fim de julho, pela primeira vez em 40 anos. Desde então, estagnou entre 13 e 15 graus. Em Lima, onde as casas não possuem bom isolamento, “a sensação de frio é acentuada também pela incomum intensidade dos ventos na região e pela forte umidade do ar que passa dos 80%, e às vezes chega a 95%”, diz o meteorologista Percy Mosca, do serviço peruano de meteorologia e hidrologia (Senamhi).

“Faz tanto frio que parecemos sentir dor nos ossos”, conta Dionisia, certa de que tem feito “muito mais frio neste ano do que nos invernos anteriores”. “Um inverno rigoroso”,confirma o meteorologista. Todo o Peru tem enfrentado uma onda de frio atípica devido ao La Niña, fenômeno climático cíclico – contrário ao El Niño - que resulta em um resfriamento do Oceano Pacífico.

Segundo Percy Mosca, a queda das temperaturas também se deve à elevação das grandes massas de ar frio que vêm do Polo Sul. Esse fenômeno não poupou o Chile, a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e o sul do Brasil, onde a vaga de frio matou diversas pessoas, mas também milhares de bovinos de criação e destruiu plantações.

Doenças respiratórias

No Peru, as temperaturas estão abaixo da média sazonal na costa pacífica, mas também nas montanhas andinas, onde as populações, que às vezes vivem a mais de quatro mil metros de altitude, estão acostumadas com os invernos severos.

A floresta amazônica também tem passado por um clima inédito. Nos últimos dias, as mínimas caíram para 10 graus centígrados, ante os 20 a 30 graus de costume. Os moradores, despreparados para enfrentar esse frio repentino, vêm mudando seus hábitos, mas continuam expostos às doenças respiratórias.

Preocupado com a extensão, mas também com a duração da onda de frio que deverá permanecer até o mês de setembro, o governo peruano decretou estado de emergência em 13 regiões, ou seja, metade do país. “Nós reforçamos os serviços de saúde e as campanhas de vacinação não só nos Andes, como nos outros anos, mas também na Amazônia”, ressalta Aquiles Vilchez, diretor de epidemiologia do ministério da Saúde. Ele constata neste inverno um maior número de casos de pneumonia.

“No entanto, o número de mortes decorrentes dessas doenças respiratórias é menor que o do ano passado”, diz Vilchez, para quem esses resultados mostram que a experiência adquirida permitiu que o país entendesse melhor a onda de frio. Desde o início do ano, 250 crianças com menos de cinco anos morreram no Peru devido a doenças respiratórias causadas pelo frio, especialmente pneumonias, das quais 64 somente na região altoandina de Puno, onde as temperaturas às vezes ficam abaixo de -20 graus centígrados.
 

Tradutor: Lana Lim

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