"Proibição de empresas privadas no Afeganistão é forma de usar o nacionalismo"

Philippe Bolopion

  • Yuri Cortez/AFP

    Soldados americanos rezam em capela na base da Otan em Kandahar, no Afeganistão

    Soldados americanos rezam em capela na base da Otan em Kandahar, no Afeganistão

Peter Galbraith foi o número dois da ONU no Afeganistão de março a setembro de 2009. Aliado próximo do enviado dos Estados Unidos para o Afeganistão e o Paquistão, Richard Holbrooke, ele foi demitido pela ONU, que o acusou de fechar os olhos para as fraudes na eleição presidencial de agosto de 2009.

Le Monde: Que consequência teria a proibição das empresas de segurança?

Peter Galbraith: Nenhuma, pois duvido que ela seja instaurada. Hamid Karzai tem o costume de promulgar esses decretos sem que nada mude. Além disso, seus aliados, em particular seu irmão, dirigem essas empresas privadas de segurança. Elas são extremamente lucrativas. Por que ele iria querer pôr um fim ao apoio financeiro do qual sua família e seus aliados se beneficiam?

Le Monde: Então por que esse decreto?

Galbraith: Porque Karzai está sob pressão. Mas é possível que os únicos a serem afetados sejam as empresas internacionais de segurança. É uma forma de Karzai usar a questão do nacionalismo, mas isso teria pouco impacto sobre o problema dessas empresas que operam como exércitos privados e participam daquilo que é um Estado mafioso.

Le Monde: Esse decreto é prejudicial às forças americanas?

Galbraith: Sim, porque elas dependem dessas empresas para garantir a segurança de suas bases ou encaminhar seus suprimentos. Sua presença explica o fato de que os Estados Unidos e a Otan consigam fazer tanto com somente 140 mil homens no local. Durante a guerra do Vietnã, essas tarefas eram garantidas pelas tropas americanas, que deviam ser muito mais numerosas em campo para obter um impacto similar.

Le Monde: Então essas empresas são úteis?

Galbraith: O exército acredita que sim. Mas elas também fazem parte do problema mais amplo da corrupção. Elas são úteis a curto prazo para cumprir as metas militares da coalizão, mas prejudicam uma meta a longo prazo, que é criar uma administração honesta, capaz de ganhar a lealdade da população. Elas operam como os exércitos privados das pessoas que têm poder. Ainda que eles tentem aplicar o decreto, elas se reconstituiriam sob uma outra forma.

Le Monde: Quem são essas empresas?

Galbraith: Creio que ninguém sabe. Uma pequena parte delas são empresas internacionais que, por exemplo, garantem a segurança de altos dirigentes – no Afeganistão, os escritórios da ONU são protegidos pelas Gurkhas [tropas de elite indianas] empregadas por uma dessas sociedades. Mas a maioria são empresas afegãs empregadas para proteger comboios de suprimento militar que chegam de Karachi e devem atravessar territórios controlados pelos talebans. Elas também ajudam a proteger a base americana de Bagram e as equipes de reconstrução das províncias. Uma das empresas mais importantes é dirigida por Ahmed Wali Karzai, irmão de Hamid Karzai.

Le Monde: Quem faz parte delas, profissionais, capangas?

Galbraith: Um pouco de cada. Eles são armados, em sua maioria, e muitas vezes receberam uma forma de treinamento. Na verdade, essas empresas operam como milícias privadas, mas com um grande elemento mafioso. Não é prático para elas ter de combater os talebans: elas podem perder homens, comboios e desagradar seus clientes, o que seria ruim para os negócios. É por isso que às vezes elas pagam os talebans para atravessar seus territórios em total segurança.

Acredita-se até que, na província de Oruzgan (centro), o diretor de uma dessas empresas, cujo contrato o exército americano queria rescindir por corrupção, tenha pago os talebans para atacarem um comboio, provando assim o valor de seus serviços e conseguindo um contrato mais lucrativo!

Le Monde: Essas empresas causam um problema de segurança, como no Iraque?

Galbraith: No Iraque, as empresas de segurança eram o equivalente a um segundo exército americano, tirando as regras e a disciplina. Às vezes seus agentes pareciam abrir fogo contra civis por prazer. Isso aconteceu algumas vezes no Afeganistão, mas muito menos, principalmente porque há muito menos empresas privadas internacionais lá. O verdadeiro problema no Afeganistão é o papel das pessoas que dirigem essas companhias, e o fato de que existem exércitos privados ali. E acredito que tudo isso vá continuar.

Tradutor: Lana Lim

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