Cerca de 30% dos casais na Europa se conheceram no trabalho, aponta estudo

Judith Duportail

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    Relações amorosas no ambiente de trabalho são cada vez mais comuns na Europa

    Relações amorosas no ambiente de trabalho são cada vez mais comuns na Europa

Atrás das portas de uma sala de reunião vazia, um corredor pouco usado, ou ainda um elevador entre dois andares: as empresas estão cheias de esconderijos onde se podem trocar carícias. “Nosso primeiro beijo aconteceu no escritório”, conta Mélanie*, funcionária pública na Bélgica, que namora um colega há dois anos. Seu companheiro trabalha no setor de informática. Eles se conheceram graças às panes no computador de Mélanie. “Ele se apaixonou por mim!”

Ela não vê nenhum inconveniente em dividir o mesmo local de trabalho com seu parceiro: “Almoço todos os dias com ele, chegamos e vamos embora juntos. É muito agradável poder compartilhar esses pequenos momentos”, conta a jovem.

Na Europa, segundo um estudo da empresa Monster, quase 30% dos casais se conheceram no trabalho. O mundo profissional é favorável aos encontros porque os colegas têm necessariamente pontos em comum: mesmas formações, e às vezes os mesmos interesses. Todos se cuidam, e exibem o melhor de si. “O pijama e os cabelos sujos ficam em casa”, sorri Loïck Roche, psicólogo e autor de “Cupidon au travail” [“Cupido no trabalho”]. Algumas empresas encorajam as relações extra-profissionais organizando happy hours, festas, seminários.

“O ambiente de trabalho é simplesmente afrodisíaco”, chega a dizer Alain Samson, autor do livro “Sexe et flirt au bureau” [“Sexo e flertes no escritório”]. Segundo o mesmo estudo da Monster, 50% dos empregados costumam ter momentos de devaneios onde se imaginam com algum colega. Uma parte deles parte para a ação. De acordo com Loïck Roche, ter uma relação sexual com um membro de seu círculo profissional acontece uma vez a cada sete anos, aproximadamente.

“Toda segunda-feira de manhã eu ficava radiante com a ideia de revê-la”

O segredo e a sensação de transgredir as regras intensificariam a atração e a aventura, como conta Julie, que teve um caso com seu supervisor de estágio em uma empresa de comunicação: “Eu devia ter uns 23 anos, e ele 25. Manter nossa história em segredo a tornou muito mais forte. Era incrível fazer amor à noite em um sofá, e ver o chefe no dia seguinte não dando a mínima para você, sem que ninguém desconfiasse de nada. Quando alguns colegas ficaram sabendo, perdi o interesse por ele. Terminei com ele no fim de meu estágio”.

A proximidade com o ser amado ou cobiçado também traz sua parcela de felicidade e modifica a relação no trabalho, como diz Thibault, executivo no setor de rádio e TV: “Quando eu paquerava a Marion, ficava de mau humor na sexta à noite porque isso queria dizer que eu ficaria dois dias sem vê-la. Toda segunda-feira de manhã eu era o único a estar radiante, ia para o trabalho com o coração leve. Hoje, mesmo após dois anos de relacionamento, quando ouço sua voz no telefone com um cliente ou a vejo passar, isso mexe comigo, sinto um arrepio...”

“Nunca fiz tanto sucesso como quando era representante dos funcionários”

Para Loïck Roche, “seu potencial de sedução aumenta quando você é gerente, diretor de recursos humanos, chefe, treinador, consultor... É a teoria do “tenho sucesso; logo, seduzo”. Segundo o psicólogo, “essas diferenças de atratividade explicam por que 40% das pessoas concentram 80% das relações sexuais no trabalho”. No entanto, não é necessário ser presidente da empresa para cair nas graças de seus colegas. Os líderes sindicais também têm seu impacto, como conta Thierry, bibliotecário: “Nunca fiz tanto sucesso como quando era representante dos funcionários. Era uma alegria só!”

Flertar com seu chefe ou seu subordinado, entretanto, é arriscado. Martin trabalha em uma grande empresa em Toulouse: “Durante uma viagem a trabalho, passei a noite com minha chefe. Alguns dias mais tarde, recebi uma promoção. Tive medo que meus colegas descobrissem, e que eu fosse acusado de ter sido beneficiado por favoritismo. Eu só queria o sexo, não a promoção!” Para Delphine Lopez, advogada da jurisdição de Paris e especialista em direito trabalhista, é a chefe de Martin que poderia ter problemas: “Sua promoção poderia ser considerada uma ruptura da igualdade de tratamento dos funcionários. Os outros funcionários que estavam no mesmo nível que Martin poderiam entrar com uma ação na justiça trabalhista e pedir, por exemplo, um realinhamento dos salários ou um complemento”.

“Perdi meu emprego por causa do meu marido”

Desde as Leis Auroux de 1982, as empresas não podem mais proibir seus funcionários de terem uma aventura, nem transferi-los ou demiti-los por essa razão. Se você souber ser discreto e o fato ocorrer em seu tempo livre, trocar carícias com seu vizinho de cubículo no intervalo não deveria custar seu trabalho. Se seu chefe o surpreender nos braços do seu amado durante o horário de trabalho, “você pode ter problemas, não por estar beijando seu colega, mas porque estaria tratando de assuntos pessoais em seu horário de trabalho”, explica Bastien Ottaviani, advogado especializado em empresas.

As coisas ficam mais graves se o casal for responsável por um “problema objetivo” na empresa: ter brigas de casal na frente de clientes, por exemplo. Dominique Baudequin, 51, ex-motorista de ônibus, perdeu seu emprego em julho passado por causa de seu divórcio com um outro funcionário da empresa. Seu empregador, a CarPostal, entendeu que o comportamento da motorista após a separação levava a “um ambiente pouco propício a uma colaboração harmoniosa”. Ela entrou com uma ação na justiça trabalhista por “quebra de contrato abusiva”. “Meu companheiro não queria o divórcio e começou a espalhar rumores pelas minhas costas”, conta Baudequin, “como por exemplo, que eu fazia escândalos diante dos passageiros. Perdi meu emprego por causa do meu marido!”

*todos os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados

Tradutor: Lana Lim

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