O México esteriliza as 'moscas devoradoras de homens' para ajudar a erradicá-las

Frédéric Saliba
Enviado especial a Tuxtla Gutiérrez (México)

É nu dos pés à cabeça que se entra na impressionante criação de moscas varejeiras, ou “moscas assassinas”, como são chamadas pelos camponeses no sul do México. “Para eliminar essa perigosa espécie, não se pode deixar escapar insetos ou larvas férteis”, diz o chefe de produção, Arturo Martinez y Tapia, para justificar essas medidas de proteção.

Localizada a cerca de 20 quilômetros de Tuxtla Gutiérrez, capital do Estado de Chiapas, essa fábrica de 80 hectares encontra-se sob forte proteção do exército mexicano. “Aqui, produzimos e esterilizamos entre 120 e 500 milhões de moscas por semana”, explica esse veterinário de 60 anos, antes de vestir um macacão, um capacete e botas de segurança.

É preciso passar por duas portas herméticas e uma cortina de ar comprimido para entrar nessa fortaleza. Uma vez lá dentro, sente-se na hora um odor nauseabundo. “É a amônia produzida pelos dejetos do metabolismo das larvas”, explica Arturo Martinez y Tapia, antes de entrar na imensa sala de reprodução, cheia de gaiolas fervilhando de moscas, cujo zumbido é atordoante.

Esse inseto de olhos vermelhos, endêmico no continente americano, deposita seus ovos em torno de feridas e orifícios naturais dos mamíferos de sangue quente, inclusive humanos. Uma vez eclodidas, as larvas penetram na carne, graças a duas presas, e depois se alimentam dela. Vem daí seu nome científico: Cochliomyia hominivorax ou “mosca devoradora de homens”.

“A espécie foi descoberta em 1858 pelo médico francês Charles Coquerel, em condenados da ilha do Diabo, na Guiana. Hoje, é sobretudo no gado que se observam as infestações provocadas pelas larvas. Os prejuízos econômicos chegam a US$ 1,5 bilhão por ano na América Latina”, conta Arturo Martinez y Tapia.

Para se protegerem dessas matadoras, o México e os Estados Unidos criaram, em 1972, em Tuxtla Gutiérrez, uma comissão binacional (Comexa) encarregada de aplicar a chamada técnica do inseto estéril.

Inventada nos anos 1940 por dois entomologistas americanos, Edward Fred Knipling e Raymond C. Bushland, essa técnica – modernizada desde então – consiste em produzir moscas em grande escala, e depois esterilizá-las por meio de radiação gama antes de soltá-las na natureza. A reprodução dos machos de criação com as fêmeas selvagens resulta em ovos infecundos.

Na sala de coleta dos ovos, o ambiente é sufocante. A temperatura beira os 40 graus centígrados, com 80% de umidade. Cada mosca deposita em média 250 ovos sobre madeira e musgo embebidos em uma mistura fermentada malcheirosa. Quatro horas mais tarde, os ovos são distribuídos sobre placas e levados por carrinhos até as salas de criação. Lá, uma vez eclodidas, as larvas se empanturram de comida: “Uma mistura de sangue, ovos em pó, soja, fibras de celulose e água”, explica René Soliz, biólogo de 48 anos.

Quando chegam à maturidade, as larvas saltam sozinhas em canaletas, onde são recolhidas para se transformar em pupas, estágio intermediário do desenvolvimento do animal. Os casulos são colocados em cilindros perfurados, e depois introduzidos em três irradiadores de césio 137. “Os raios nucleares danificam as células reprodutoras sem afetar os outros órgãos”, explica Grisel Molina, supervisor da zona de esterilização. Logo ao lado, em um laboratório, as pupas expostas à radiação passam por uma bateria de testes.

O método se provou eficaz. Em 1966, a mosca varejeira desapareceu dos Estados Unidos. Foi somente 25 anos mais tarde que o México conseguiu erradicar a espécie. Mas o flagelo continua na América Latina e no Caribe. Colocados em caixas, bilhões de casulos expostos à radiação no México são enviados por avião ao Brasil ou ao Uruguai, e logo o serão para Cuba e Haiti. “O método é ecológico, por evitar que se usem os inseticidas. Mas ele precisa concentrar uma grande quantidade de insetos estéreis – dez, para cada um selvagem – em uma determinada zona geográfica”, conta Arturo Martinez y Tapia, antes de passar novamente pelas portas de segurança e ir tomar uma ducha.

No mesmo dia, os diretores da Comexa recebiam representantes dos governos do Brasil, Uruguai e Paraguai. “Nossa meta é erradicar a espécie do sul do continente”, diz Alejandro Parra, diretor da Comexa. E Eduardo Garcia, do ministério brasileiro da Agricultura, explica: “A técnica é cara, mas nossos prejuízos com o gado são ainda mais”.

Para ser eficaz, o método precisa de muitos fundos e de uma cooperação regional. O México investiu US$ 800 milhões (R$ 1,4 bilhão) em 19 anos para conseguir atingir seu objetivo. A eliminação total da mosca varejeira poderá custar vários bilhões de dólares aos países da América Latina, em um período de 15 a 30 anos. O sucesso da operação depende em grande parte da vontade política de seus dirigentes.

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