Os problemas enfrentados pela classe média chinesa para encontrar moradia

Harold Thibault

Em Xangai (China)

  • Reuters

    Classe média chinesa começa a enfrentar uma realidade ocidental: morar no centro das grandes cidades é muito caro

    Classe média chinesa começa a enfrentar uma realidade ocidental: morar no centro das grandes cidades é muito caro

Encontrar moradia se tornou o calvário da classe média chinesa, que acusa os especuladores de alimentarem a disparada dos preços do setor imobiliário. É o caso da família Huang, que na última sexta-feira (20) veio fazer um pedido de obtenção de moradia social junto à administração do distrito de Xuhui, em Xangai. Com um pai e um filho contadores e uma mãe aposentada, eles não são pobres, mas como suas rendas mensais são inferiores a 900 yuans (R$ 232) por pessoa, eles poderão adquirir um apartamento de dois cômodos com uma área de 60 metros quadrados, por um preço 40% abaixo do mercado.

Uma política ainda secundária, mas que vem se expandindo na China, onde os preços das moradias subiram 10,3% em um ano, apesar da adoção, em abril, de medidas de limitação do crédito destinadas a desencorajar a especulação. “Tornou-se absolutamente impossível comprar um apartamento no centro da cidade para uma família como a nossa”, lamenta o pai.

Um rumor veio alimentar a insatisfação: 64,5 milhões de medidores de energia elétrica estariam parados na China. E o mesmo tanto de moradias, vazias. A estatal de energia elétrica negou, mas não publicou números oficiais. Prova de que a bolha imobiliária vem causando preocupação, internautas decidiram ir eles mesmos contar os apartamentos cuja luz não acende durante a noite, em suas respectivas cidades, e depois publicar os resultados de sua pesquisa no Sina.com, o portal da internet mais visitado do país.

Bolha especulativa

Para Michael Klibaner, diretor de pesquisa da consultoria Jones Lang LaSalle na China, o problema social é bem real, mas não significa que exista uma bolha especulativa. “A questão é saber se um apartamento é considerado um teto para pessoas ou para dinheiro. Os investidores chineses estão se voltando para o mercado imobiliário porque têm muito poucas alternativas, e por ser muito rentável”, explica.

É o caso de Sheng Feng, jornalista de 34 anos que possui três apartamentos, dois deles em zona urbana em Shangai, e o terceiro em Kunshan, cidade-satélite da megalópole. Dois não são habitados. “Investi nesse setor por ser o investimento que exige menos trabalho. Só preciso ir olhar de vez em quando, para ver se não há problemas”, diz. “Uma vez comprados, não é preciso se perguntar se os preços estão subindo ou caindo, uma vez que não há dúvidas quanto à resposta”.

A persistência de uma demanda não satisfeita e o fato de que os 20% mais ricos da população sempre podem comprar novas residências que chegam ao mercado significam, segundo Michael Klibaner, que o risco de bolha deve ser descartado. Além disso, o banco de investimentos CLSA Ásia Pacífico ressalta que quase um quarto das moradias são pagas em dinheiro na China, sinal da ausência de riscos no crédito imobiliário. Em outras palavras, a classe média chinesa estaria começando a entender, com certo pesar, aquilo que é evidente há muito tempo nos países ocidentais: morar no centro das grandes cidades é muito caro.

O ex-economista-chefe da Morgan Stanley na Ásia, Andy Xie, hoje analista independente, é mais alarmista e afirma, para quem quiser ouvir, que uma bolha quantitativa tomou conta do mercado imobiliário chinês. Ela estaria sendo alimentada pelo crédito disponibilizado para enfrentar a desaceleração do crescimento econômico chinês, pela existência de rendas ilegais que encontram um porto seguro nos investimentos imobiliários, e pela falta de consciência do risco, baseada na convicção de que os preços só podem subir. Os chineses contam com um aumento de sua renda, que eles já consideram como certo. Os especuladores, por sua vez, pensam que as autoridades não os abandonarão, uma vez que as receitas dos governos locais também dependem do setor imobiliário.

Andy Xie pensa que, com um espaço de 28 a 30 metros quadrados por pessoa atualmente, não haja falta de moradias na China, e ele calcula que o índice de vacância dos apartamentos seja de 25% a 30%, ou seja, o dobro do que seria saudável. “O abismo entre os imóveis procurados e os imóveis vagos pode ser considerado especulativo”, resume.

Nesse contexto, o economista acredita que a recente organização de um teste de resistência dos bancos chineses a uma queda de 60% do mercado imobiliário só serve para “dar uma ajudinha psicológica”, para tranquilizar. Mas, segundo ele, as pessoas informadas estão apavoradas: “Se a bolha estourar, a economia chinesa sofrerá. O problema é que nenhuma política permitiria resolver o problema sem que a população sofresse as consequências”.

É assim que ele explica a falta de publicação de números confiáveis sobre essas moradias vagas que tanto irritam a classe média: o governo não quer que as pessoas saibam. “Mas no final das contas”, diz, “o mercado se ajustará. Não há nada que se possa fazer”.
 

Tradutor: Lana Lim

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