Rússia quer reencontrar sua influência perdida no sul do Cáucaso

Marie Jégo

  • AP

    Segundo o presidente Dmitri Medvedev, a Rússia tem a missão de manter a paz e a ordem no Cáucaso

    Segundo o presidente Dmitri Medvedev, a Rússia tem a missão de manter a paz e a ordem no Cáucaso

Reforço de sua base militar na Armênia, disposição de mísseis antiaéreos na Abecásia e na Ossétia do Sul, venda de mísseis S-300 para o Azerbaijão: o que significam essas grandes manobras da Rússia no sul do Cáucaso?

Dois anos após a guerra entre Rússia e Geórgia, Moscou quer reforçar seu papel de polícia da região. Uma zona estratégica situada entre a Turquia e o Irã, crucial para a passagem dos hidrocarbonetos da Ásia Central para os mercados europeus. Seria essa a única razão?

“A Rússia, maior e mais importante país da região, a mais poderosa do ponto de vista econômico e militar, a mais apta a garantir a segurança, tem por missão manter a paz e a ordem ali”, explicou o presidente russo Dmitri Medvedev, durante sua passagem pela Armênia em 19 e 20 de agosto.

Uma visita proveitosa, uma vez que o líder russo assinou, com seu colega armênio, Serge Sarkissian, um acordo que estende a presença militar russa até 2044 – no lugar de 2020, segundo o acordo anterior. Parceira-chave da Rússia no sul do Cáucaso, a Armênia abriga 5.000 soldados russos.

A base de Gyumri, situada a 20 quilômetros da fronteira com a Turquia, é a última grande instalação militar russa na região. Como na época soviética, seus mísseis de defesa antiaérea S-300 continuam apontados na direção da Turquia. A fronteira entre Armênia e Turquia, trancada desde 1993, é patrulhada do lado armênio por guardas fronteiriças russas.

Com a queda da URSS, Moscou perdeu seu poder nessa região. A Geórgia se aproximou dos Estados Unidos e da Otan. O Azerbaijão confiou a exploração de suas reservas de petróleo e de gás às grandes empresas ocidentais. O pequeno emirado petroleiro do mar Cáspio se desfez da presença militar do “grande irmão” em 1993, ao passo que as bases russas da Geórgia foram por fim desmanteladas em 2006.

Segundo o acordo assinado em Erevan, a Rússia vai garantir a segurança nacional armênia. “Com a duração da presença militar russa na Armênia prorrogada, sua esfera geográfica se expande”, explicou o presidente Serge Sarkissian.

Até então, a base de Gyumri era destinada a operações dentro das fronteiras da ex-URSS, “agora esses limites foram retirados”. Agora, a Rússia garantirá “conjuntamente a segurança militar da Armênia” e equipará as forças armênias “com armamentos modernos”. O consenso geral é de que a ideia é proteger a Armênia de seu vizinho Azerbaijão. Os dois Estados brigam pelo destino do enclave separatista de Nagorno Karabakh, um território azerbaijano de maioria armênia, motivo de uma guerra que fez 30 mil mortos e centenas de milhares de refugiados entre 1988 e 1994. É um dos vários conflitos em suspenso do Cáucaso. E ainda está vivo, pois nenhuma solução foi encontrada por Nagorno Karabakh, autoproclamado independente.

O Azerbaijão e a Armênia estão em desacordo. Graças à receita do petróleo, Baku se muniu de armamentos modernos e ameaça recorrer à força para reconquistar suas terras perdidas no momento da guerra.

Até aí, faz sentido, Moscou defende seu aliado estratégico armênio. As coisas se complicam quando descobrem que a Rússia entregou, por US$ 300 milhões (R$ 528 milhões), mísseis antiaéreos S-300 ao...Azerbaijão, a fim de reforçar suas capacidades de defesa desse país vizinho do Irã. Questionado sobre os detalhes dessa entrega, o ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, não negou. Talvez se descubra mais a respeito durante a visita do presidente Medvedev a Baku, no outono.

Por enquanto, o S-300, míssil antiaéreo de caráter defensivo, está por toda parte. Em 11 de agosto, a força aérea russa indicou ter espalhado diversos deles em Abecásia, a região separatista georgiana que virou posto avançado militar russo desde que Moscou reconheceu sua independência, dois anos atrás. Paralelamente, sistemas de defesa aérea de um outro tipo foram instalados na Ossétia do Sul, a segunda província separatista georgiana ocupada militarmente pela Rússia.

Por que um dispositivo como esse? Estaria a Rússia temendo novas tensões com a Geórgia? É pouco provável. Estaria ela buscando se proteger da Turquia e da Otan? Difícil de acreditar. A outra possibilidade é que Moscou estaria cobrindo sua retaguarda ao prever um conflito armado no Irã, a outra grande potência da região.
 

Tradutor: Lana Lim

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