Domado, o fogo favorece a diversidade das florestas

Pierre Le Hir

  • Artyom Korotayev /AFP

    Bombeiro russo tenta impedir o avanço do fogo sobre a aldeia de Murmino. Segundo ambientalistas, o fogo pode favorecer a diversidade

    Bombeiro russo tenta impedir o avanço do fogo sobre a aldeia de Murmino. Segundo ambientalistas, o fogo pode favorecer a diversidade

É difícil fazer apologia às queimadas das florestas, uma vez que quase 1 milhão de hectares de bosques e turfeiras acabam de virar fumaça na Rússia e que, a cada verão, nos países mediterrâneos, centenas de milhares de hectares são devastados pelas chamas. É realmente difícil, diante desse quadro de cinzas e desolação, pintar um incêndio com as cores da vida.

No entanto... “O fogo é um perigo para o homem, não para os meios naturais”, afirma Philip Roche, especialista em ecossistemas mediterrâneos e riscos no Instituto de Pesquisa em Ciência e Tecnologia para o Meio Ambiente (Cemagref). “Longe de constituir uma catástrofe ecológica, na verdade ele favorece a biodiversidade”. É feita uma demonstração em campo, perto de Aix-en-Provence (Bouches-du-Rhône), ao pé da montanha Sainte-Victoire, tão cara a Cézanne.

Primeira etapa: Gardiole, a leste do bloco mineral fixo sob um sol implacável, aonde leva uma estrada sinuosa aberta entre pedregulhos. O local não teve nenhum incêndio desde 1960, data dos primeiros registros completos. A cobertura florestal é abundante, composta por uma extensão uniforme de carvalhos verdes (de folhagem persistente) e de carvalhos brancos (de folhas caducas). Mas, sob as árvores, a vegetação é bem pobre: alguns arbustos, zimbros, samambaias, eufórbias de suco leitoso...

Segunda parada: Saint-Antonin-sur-Bayon, do outro lado do maciço calcário, onde em agosto de 1989 ocorreu um gigantesco incêndio atiçado por um violento mistral, que carbonizou 5.000 hectares. A vegetação aqui é díspar, mas também mais rica: densos povoamentos de pinheiros-do-alepo, salpicados de jovens carvalhos verdes e pinheiros-carrasco em alguns lugares, cistáceas e zimbros em outros, tomilho, alecrim e lavanda mais adiante, girassóis aqui e ali...

Para o pesquisador, está claro: “Uma área que não queimou apresenta uma cobertura vegetal muito mais homogênea do que uma área perturbada pelo fogo”. Ora, “a biodiversidade só existe na heterogeneidade”.

Essa constatação é confirmada por um estudo em grande escala conduzido por um estudante de pós-graduação, Nicolas Faivre. Este comparou 40 lotes do sudeste da França e 10 outros do sudoeste australiano. Alguns nunca foram queimados nos últimos 50 anos, ao passo que outros sofreram um ou mais incêndios. O objetivo é relacionar a diversidade desses fogos (sua extensão, sua intensidade, sua frequência) com as paisagens.

Conclusão: “Encontramos em média entre 20 e 35 espécies vegetais diferentes em um lote que não queimou, ao passo que contamos 50 em um lote onde ocorreram incêndios”. Mais do que a variedade das espécies, é a dos tipos biológicos, ou das formas de vida (plantas com botões aéreos ou próximos do solo, herbáceas, plantas de bulbo, tubérculo ou rizoma, plantas anuais...), que interessa os ambientalistas.

A experiência mostra que as florestas possuem espantosa capacidade de se regenerar naturalmente após um incêndio. Existem até mesmo vegetais que aproveitam o fogo para se reproduzir, como o pinheiro-de-alepo, cujas pinhas se abrem sob efeito do calor, ou a cistácea, cuja germinação dos grãos é estimulada. Algumas árvores também contêm, em sua casca e folhas, óleos que favorecem sua combustão, em benefício das gerações seguintes.

Vários países já colocaram a lição na prática. No oeste da Austrália, o departamento de conservação do meio ambiente realiza queimadas controladas sistemáticas, com uma frequência de três a cinco anos, para preservar a biodiversidade das florestas, mas também para reduzir o volume de matéria vegetal combustível, e assim prevenir incêndios naturais que, com mais biomassa, poderiam ser devastadores. Uma técnica herdada dos aborígenes que, no passado, a empregavam para criar espaços de pastagem ou atrair caças.

Os Estados Unidos, por sua vez, adeptos do “let it burn” (deixe queimar), contanto que vidas humanas não estejam em perigo, se esforçam para restabelecer o regime histórico dos incêndios naturais.

Outro exemplo: a África do Sul, que, no imenso parque nacional Kruger, efetua queimadas dirigidas para manter a diversidade vegetal e animal. Na Escandinávia, os fogos controlados são até utilizados para aumentar a produtividade florestal.

Na França, em compensação, as queimadas voluntárias são realizadas somente em alguns milhares de hectares, com fins de gestão de plantações. Como em toda a Europa, a densidade do habitat, em territórios de pequeno porte, justifica a escolha de combater os fogos logo em seu início.

É improvável que os modelos australianos e americanos sejam transponíveis para as florestas mediterrâneas. No entanto, os especialistas em ecossistemas florestais, sem quererem passar por piromaníacos, acreditam que “nos setores onde convier, recorrer aos incêndios controlados é uma opção a se considerar seriamente”.

Para Philip Roche, “o fogo é um dos elementos que modelaram o mosaico da paisagem mediterrânea, com seus cerrados e seus arbustos característicos. A questão – ela é feita à sociedade – é saber se querem conservar sua integridade, ou seja, sua diversidade”.

É tudo uma questão de encontrar a medida certa. Outros trabalhos mostraram que, ainda que um incêndio possa ser benéfico para uma floresta, a repetição de fogos em um curto intervalo de tempo certamente a condena. Existe um efeito limiar: um maciço florestal pode se recuperar de uma sucessão de três incêndios em 50 anos. Mas o quarto é fatal.
 

Tradutor: Lana Lim

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